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Email do Nigel! · Feb 11, 2026

Email do NIGEL sobre fantasma!

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Nigel Goodman · Email do Nigel!

Opa, tudo bem? Espero, desejo, tenho plena certeza que sim.

Vou ser breve, porque o email está gigantesco. Resolvi fazer alguma coisa de fato e não só ficar pensando que esse ano eu gostaria de praticar mais o alfabetismo -- o que é um exagero porque eu já trabalho escrevendo, mas é diferente escrever um roteiro e escrever algo que é pra ser lido. Tinha muito tempo que eu não postava um conto aqui, né? Espero que você goste. Qualquer coisa, é só dar reply nesse email que a resposta vem direto pra mim (ou responder pelo substack que aí a resposta fica lá no substack pra eu ter que entrar no substack pra ver, mas outras pessoas podem ver também e eu me sinto menos obrigado a responder)

Fora isso, espero que algum dia pare de chover.

Benício estava quase dormindo. Tinha ficado até tarde na frente do computador só terminando uma coisinha. Era o que ele dizia, de uma coisinha não tinha fim para ser terminada. Um teco totalmente arbitrário de trabalho que ele resolveu fazer antes de dormir para que no dia seguinte ele tivesse esse tanto de trabalho a menos para resolver. Parece pouco lógico, mas Benício fazia isso pra recuperar o tempo.

É óbvio que recuperar tempo é algo impossível de ser feito. Recuperar tempo, sem o uso de uma máquina capaz de viajar no tempo, é simplesmente trocar tempo.

Eu tinha que ter feito isso até agora, mas fiz aquilo primeiro, então agora vou fazer isso, por mais que devesse ir fazer outra coisa (dormir no caso), mas aí, quando chegar a vez de fazer aquilo, que eu já fiz antes da hora, eu faço essa outra coisa e tudo se acerta.

Pode não parecer, mas eu estou simplificando muito para que seja inteligível. A operação de troca de tempo consegue ser tão complexa que até o investidor mais insuportável do mercado de capitais levantaria a sobrancelha em algum momento e pediria pra repetir tudo com calma.

O que acontece é que, por ser uma operação tão complicada, quem tenta fazer as contas de cabeça achando que puxando uma horinha daqui e outra dali vai estar “recuperando” o seu tempo “perdido”, achando que o tempo à noite é menos tempo que o tempo de dia, achando que não vai precisar “compensar” mais outro minutinho perdido no processo, essa pessoa sempre acaba cometendo algum erro.

Tempo também tem juros e tudo que se ganha de um lado se perde do outro.

Na mitologia grega, o sono é o irmão gêmeo da morte. No hiphop norte americano, o sono é o primo da morte. Como esse não é o foco do texto, vamos considerar os dois como primos-irmãos criados pela mesma avó e evitar entrar na polêmica do parentesco entre morte e sono aqui.

Existem muitos motivos que levam uma pessoa a dormir à noite. Deixar que o corpo se recupere e evitar que o cérebro vire uma gelatina é, talvez, o segundo melhor motivo. O primeiro melhor motivo para dormir à noite é, como todos sabem, não cruzar com nenhum fantasma ou outra das criaturas que se perdem para o lado de cá quando o nosso planeta se vira de costas para o sol e de frente para a escuridão infinita.

Nessa noite, Benício cometeu dois erros que foram fundamentais para o desenrolar dessa história como eu estou prestes a contar. O primeiro equívoco — tirando não ter feito backup do seu trabalho, mas isso não vem ao caso aqui — foi se manter acordado até bem depois da meia noite. O segundo deslize, e esse conseguia ser mais grave que o primeiro, foi ter acendido uma vela aromática para tentar amenizar um pouco o desconforto psicológico com conforto olfativo. Benício era um homem de barganhas.

O problema da vela não era exatamente o cheiro, muito agradável por sinal. O problema da vela é que o espírito dos que já terminaram a vida, mas que ainda não começaram a morte, é atraído a ela como uma mariposa é atraída à luz. Não precisa ser uma vela especial, de sete dias ou de qualquer outra quantidade. As mariposas entendem muito pouco de velas e os fantasmas até entendem um pouco mais, mas quando eles chegam perto o suficiente pra perceber que aquela vela queimando no meio da escuridão não é pra eles, e sim pra perfumar o banheiro durante um relaxante banho de banheira, eles já fizeram o deslocamento e agora o que resta é tentar fazer contato com os vivos pra não perder a viagem.

As velas não só têm o poder de atrair os fantasmas, mas de iluminá-los aos nossos olhos.

Benício finalmente desligou o computador e se dirigiu ao banheiro antes de ir deitar. Assim que saiu do escritório que tinha em sua casa, ele apagou a luz e percebeu a claridade da vela. Pensou em deixá-la acesa, mas a imagem de um bombeiro receosos em sua mente o convenceu que talvez o melhor fosse voltar e apagar a vela. Tinha certeza que a maioria dos incêndios em apartamentos começavam com um aroma agradável de sândalo e terminava com o desagradável cheiro de pessoas e animais domésticos carbonizados.

Benício se curvou na direção da vela para apagá-la, tomou fôlego e, antes de assoprar, deu de cara com o rosto desfigurado do cadáver do seu falecido tio Rogério.

— Tio?! — disse Benício, cambaleando para trás.

Não havia mais ninguém lá, mas ele podia jurar ter visto a face do seu falecido tio, ainda com as marcas deixadas pelos agiotas que tiraram a sua vida.

Tio Rogério se foi deixando para trás muitas dívidas com pessoas de má índole e talvez estivesse querendo se vingar. Ou talvez estivesse ali para contar de uma bolada escondida que a família finalmente poderia usar para sair do buraco financeiro que ele os colocara. Talvez os dois. Motivos capazes de envenenar um espírito e fazer com que ele se recuse a deixar o mundo dos vivos pra trás antes de solucionar suas questões.

Decidido a ajudar o tio a dividir seu tesouro entre os familiares — e não muito inclinado a afrontar agiotas — Benício se aproximou mais uma vez da vela, procurando pelo morto. E lá estava ele, olhando atentamente para Benício com o olho que restava.

Aos poucos, a imagem do falecido foi se tornando mais nítida à medida que os olhos do sobrinho aprendiam a focar em algo que atravessava dimensões incompreensíveis para a mente humana. As palavras demoraram bem mais para serem ouvidas. Primeiro como murmúrio, mas aos poucos até as lamentações do fantasma podiam ser entendidas com clareza. O tio parecia não se dar conta da dificuldade inicial de Benício lo entender — ou não se importar, o que era um pouco estúpido da parte do tio, já que estava morto e podia muito bem fazer as coisas com mais calma.

Benício não sabia o que Rogério já havia dito antes das palavras começarem a chegar aos seus ouvidos, mas a primeira coisa que entendeu foram elogios ao centro-avante do seu time do coração. O tio estava fazendo o que mais fazia em vida, que era falar sobre o seu time. Tudo era a droga daquele time. Quando não estava falando sobre o time estava assistindo alguém falar sobre o time para ter o que falar logo em seguida. Funcionava como uma antiga estação repetidora da época do rádio, apenas passando o sinal pra frente.

— Tio, são duas da manhã.

— Joga muito esse rapaz. Rápido e forte. Lembra até aquela minha Saveiro 1.6 SuperSurf. Quando ele arranca com a bola ninguém segura.

A Saveiro foi um dos grandes amores da vida do tio, posicionada entre a sua única filha e seu time do coração. Nunca se recuperou completamente da perda do carro, que foi roubado na frente de casa. Se tivesse vivido até a velhice, com certeza, quando a mente começasse a falhar e os anos se embaralhassem todos, ele sairia de casa com a chave que ainda guardava, procurando o carro pra dar uma volta.

— Amanhã eu acordo cedo. Você tá bem, tio. Tá precisando de alguma coisa? Quer que eu compre cigarro?

Benício não sabia muito o que conversar com um fantasma. Não tinha deixado nada por dizer antes da morte do tio. Por algum motivo ele lembrou que na cadeia o cigarro é usado como moeda de troca e, vai saber porque, resolveu perguntar aquilo para um fantasma.

— O tio parou de fumar. Faz mal para a saúde. Se bem que agora tanto faz, né? Você tem um cigarro aí?

— Não tenho.

— Você pode sair pra comprar um?

— São duas horas da manhã…

— Você que falou do cigarro.

— Falei mesmo.

— Agora me bateu uma vontade.

Impressionante como o vício está sempre lá, só esperando pela recaída. Sem muita escolha — tirando todas as escolhas diferentes que ele podia ter tomado como, ignorar o fantasma e ir dormir, por exemplo, Benício calçou os tênis e pegou a chave do carro.

— Onde é que você tá indo, Beni? — perguntou Elisa.

A mulher de Benício apareceu na sala como um segundo espectro, morrendo de sono, descabelada e um pouco irritada. Sem saber nem como nem para onde olhar, não conseguiu ver o tio dele ali. O que de fato era ótimo, já que não são todas as pessoas que reagem tão bem quanto Benício à visão de um morto desfigurado no meio do escuro.

(continua…)

Eu ia ter escrito um conto menor, mas fui indo e indo, então o resto da história vem em um próximo email.

  • Vias Insólitas, a antologia da Editora Pesadilla que tem o meu conto “Casa Assombrada” pode ser comprada autografada comigo! Meu zine com a Paula Gomes, Imagens e Palavras também pode (e eu até plagio o autógrafo da Paula se você quiser) -- ou você pode comprar com ela e pedir pra ela plagiar a minha. Depende de quem você acha que tem a melhor letra.

  • Entrevista com a Pedra e outros contos, meu livro de contos sobre um repórter que entrevista o que mandam ele entrevistar.

Abs,
N

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Read the original on nigelgoodman.substack.com

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