Frase que mais ouvi na minha vida enquanto jornalista: “tenho um amigo que é médico e trabalha menos que você!”.
Eu honestamente não entendo bem porque é que médicos viraram paradigma de gente que trabalha o dia inteiro – se for por causa dos plantões 24 horas, sugiro um papo com assessores de imprensa em datas próximas a grandes eventos, ou com repórteres que trabalham em equipes pequenas cobrindo desastres naturais.
Numa época eu achava mais fácil mostrar o quanto eu ganhava em trabalho fixo + freelas, e pedir pra pessoa comparar com o salário de um médico. Só que aí sempre tem algum maluco pra falar que “meu sobrinho é médico e ganha menos que isso” (uma resposta que deixa dúvidas: o sobrinho dele ganha menos que isso? mas ele trabalha pouco, ganha mal e não se incomoda, então? ele acha que já que ganho mal deveria trabalhar menos e assumir a pobreza?).
Depois passei a simplesmente não responder. Ou a devolver o constrangimento - como eu faltei às aulas do curso de bons modos, você pode imaginar as coisas que eu já falei. Só que não para por aí: da mesma safra do “tenho um amigo que é médico” tem o “eu esvazio minha caixa de e-mails todos os dias, por que você não faz o mesmo?”.
Isso dá certo quando você recebe tipo BEM MENOS e-mails do que eu recebo por dia, mas vamos lá: uma coisa que eu consigo fazer é uma primeira triagem nos e-mails diários, uma separação por pastas e, quando tenho tempo, algumas respostas curtas e educadas (“recebido!”, “na mão!”, “na fila!”). Isso porque às vezes nem tenho tempo de fazer isso.
Num dia, chegam de 50 a 100 e-mails. Eu tenho TDAH, e e-mails são um convite à distração, o que significa que num dia normal, não tenho como parar tudo pra ficar só lendo com calma. Se você mandou um lançamento essa semana, pode ser que eu consiga ouvi-lo na hora, pode ser que não – depende de você me pegar numa janela em que eu tenha tempo.
Hoje mesmo nem abri meus e-mails ainda, e provavelmente isso vai ficar pra depois do jogo do Brasil. Mas já sei que, além dos e-mails lidos, não lidos, respondidos e ainda não respondidos, recebi mais vários e-mails do tipo “resolvi escrever de novo para te falar da pauta x”.
E enfim, chega o momento que nem a caixa de e-mails mais larga aguenta – fora que vai ser preciso mais tempo para esvaziar a caixa, já que tem o e-mail e o e-mail do e-mail. É um daqueles paradoxos que a gente vive no dia a dia, e para os quais parece não haver uma solução muito rápida. Mas que dá inveja de quem tem tempo e disposição para esvaziar a caixa de e-mails todos os dias, dá sim.
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Hoje tem CLIMA DE ÉPOCA, seção exclusiva pra assinantes do apoia.se/popfantasma, e já que a ideia é falar de um assunto mais ou menos quente, a briga entre o critico musical celebridade Anthony Fantano e a cantora Halsey parece ser o assunto do momento. E parece esfregar na cara de todo mundo algumas verdades sobre crítica musical em 2026. Não é porque fui eu que escrevi não, mas o texto tá bem legal.
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Obrigado pela companhia,
Ricardo Schott (editor do Pop Fantasma)
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