No ano 2029 a.C., uma mulher anônima dedicou ao rei Shu-Shin da Suméria e Acádia um poema erótico dizendo-lhe: “Homem, deixe-me fazer as coisas mais doces para você”.
No século 6 a.C., uma poeta de Lesbos escreveu uma Ode a Afrodite pedindo que a deusa aliviasse as dores de um amor não correspondido por outra mulher. Dessa autora sabemos o nome, Safo.
Por volta do ano 100, Claudia Severa enviou uma tabuleta a Sulpicia Lepidina no forte romano de Vindolanda, ao norte da Inglaterra, com um convite de aniversário “para que sua presença torne o dia ainda mais especial”, disse quase saficamente.
Olhando para esses registros, consegue adivinhar o que têm em comum?
Se respondeu que os três exemplos foram escritos com o sistema de scripta continua, ou escrita contínua, acertou!
Por alguns milênios, ler deve ter sido uma experiência horrível. Os espaços em branco e a pontuação entre as palavras são algo relativamente novo, PORQUEANTESESCREVIAMTUDOASSIM.
Desde que Shuruppak resolveu dar instruções para geral na Suméria, por volta de 2600 a.C., até os quatro manuscritos mais antigos e completos da Bíblia como a conhecemos, compostos em grego entre 300 e 450 d.C., pouco mudou na forma de escrever. Todo mundo escrevia coladinho, fosse nos sistemas logográficos ou “desenhados”, como no caso dos antigos egípcios, dos maias ou dos chineses ainda hoje, fosse nos sistemas fonéticos, que se baseiam no som de cada letra, como é o nosso português.
Ler e escrever era uma arte quase impenetrável, primeiramente, por necessidade. Os materiais eram escassos. E, em segundo lugar, para defender um status de classe, motivo esse que resiste em pleno 2026. Mas o tempo ensina que tornar a leitura mais fácil é uma ferramenta poderosa.
O registro mais antigo do latim escrito vem de uma inscrição em um broche do século 7 a.C. Nela, as palavras são separadas por pontos. Ficaria assim em português:
MANIUS:ME:FEZ:PARA:NUMERIUS
A República Romana depois usou um único ponto mediano para separar as palavras, como se vê no sarcófago de Lucius Cornelius Scipio Barbatus, de 280 a.C., e então abandonou qualquer espaçamento. Na época das traduções da Bíblia em latim antigo, como o Codex Vercellensis Evangeliorum do século 4 d.C., a scripta continua era a regra.
Quem primeiro desenvolveu um método claro de separação foi Aristófanes de Bizâncio, responsável pela Biblioteca de Alexandria. Por volta do ano 200 a.C., ele propôs que o grego escrito tivesse um único ponto entre as palavras, com alturas variáveis, para indicar o tempo da respiração.
Um século depois, o gramático Dionysius Thrax descreveu tal sistema da seguinte forma:
Um ponto mediano ( · ) marcava uma passagem curta, um momento de respiro.
Um ponto embaixo ( . ) permitia uma respiração de média duração, com o sentido do texto por completar.
Um ponto em cima ( ˙ ) sinalizava uma parada e um sentido completos.
A moda não pegou logo de cara. Mas essa história mostra que a origem da pontuação pouco tem a ver com a gramática. Era mais um recurso da fala. Naquele período, lembremos, escrevia-se para ler em voz alta.
Uma passagem curta de texto era chamada “komma” na Grécia Antiga. Essa palavra definiu como diversos idiomas nomeariam as pequenas pausas:
coma (espanhol)
comma (inglês)
Komma (alemão)
komma (holandês)
Entretanto, vimos que a komma designava-se por um ponto mediano. Como ela veio parar ao pé da linha?
A mudança ocorreu por causa de Isidoro de Sevilha, autor da Etymologiae (625), a primeira enciclopédia escrita do Ocidente. Essa obra de grande influência na Idade Média abre justamente com o tema da gramática, reformulando a proposta de Aristófanes. A pausa breve passou a receber um ponto embaixo a partir daí.
Outra palavra para a mesma função é a nossa “vírgula”. Ela vem do latim virgula, que significa uma pequena vara, pois o símbolo da barra ( / ) também já foi usado para indicar uma pausa no texto. Disso partiram os termos afins:
virgule (francês)
virgola (italiano)
virgulă (romeno)
virgül (turco)
O passo seguinte veio da Igreja Católica na Irlanda e na Inglaterra. Com a queda do Império Romano, sobraram poucas pessoas na região que falassem latim ou professassem a fé de Roma. Aí a Igreja ficou gag de não estar mais servindo cunt e reforçou a presença em terras celtas e anglo-saxônicas do século 5 em diante.
Os religiosos que surgiram dessa tradição revolucionaram a transmissão de conhecimento. Como o latim era uma língua distante para eles, começaram a traduzir a Bíblia latina com as palavras em inglês antigo entre as linhas do texto original. Um bom exemplo disso é o manuscrito Salmos Vespasianos do século 8. A ideia era facilitar o estudo e o cântico dos versos.
A tradução fazia uma correspondência direta entre as palavras. Isso exigia um espaçamento tanto nas linhas em latim quanto nas linhas em inglês antigo para que os clérigos novatos pudessem saber as equivalências e as palavras não se amontoassem.
O monge inglês Alcuíno de Iorque teve uma contribuição especial para a padronização da escrita no Ocidente. Ele foi chamado por Carlos Magno, então rei dos francos, para lecionar na corte e ser responsável pelo scriptorium de Aachen, onde os escribas copiavam e ilustravam manuscritos.
Durante o reinado de Carlos Magno (768–814), Alcuíno foi um dos responsáveis por consolidar um padrão de escrita voltado à maior inteligibilidade dos documentos de um governo em rápida expansão. O modelo incluía uma nova grafia, pontuação e separação entre as palavras, que permitiam a leitura ágil e evitavam trocadilhos como “umaporcada” e “dápravintecomer”, pelo menos no papel.
Ao mesmo tempo, os clérigos irlandeses percorriam a Europa, difundindo o costume de espaçar a escrita do latim.
Não surpreende, portanto, que na carta de fundação da Igreja de Lardosa, produzida em Portugal no ano de 882, as palavras latinas já tivessem uma clara separação.
Quando as línguas românicas afastam-se do latim, nascem com a escrita espaçada.
Isso é visível no primeiro registro do francês (Cantilène de sainte Eulalie, 880), no primeiro registro do italiano (Placiti Cassinesi, 960) e no primeiro registro do galego-português (Notícia de Fiadores, 1175).
As grandes obras literárias dessa época também consolidam o espaçamento. Entre elas, temos Beowulf (1025), El Cantar de mio Cid (1207) e a Divina Comédia (1321).
Assim, a fixação do espaço em branco entre as palavras abriu caminho para que a pontuação seguisse uma orientação mais gramatical e menos respiratória.
Em boa parte da história da humanidade, as pessoas letradas aprenderam a escrever com manuscritos, cada qual de um jeito. Isso explica por que um simples espaço em branco entre palavras demorou a pegar nas línguas itálicas e germânicas. E levou ainda mais tempo para alcançarmos um padrão de pontuação.
A vírgula só tem esse tanto de regras atualmente porque, na metade do século 15, Johannes Gutenberg lançou um hit chamado prensa móvel. Não à toa, a primeira gramática de uma língua europeia moderna surgiu logo em seguida, a Gramática de la lengua castellana, de 1492. Finalmente, toda a população letrada de um idioma podia olhar para uma mesma referência de escrita.
A impressão permitiu mais que a reprodutibilidade, mas a universalidade do compartilhamento textual. Tudo para que os leitores de Acende uma fogueira para a longa noite, de Oiapoque a Chuí, agora encontrassem um texto idêntico!
Aldo Manúcio é outro nome importante nessa história. Em 1494, ele começou a gráfica Aldina, em Veneza, dedicando-se à publicação meticulosa de clássicos gregos e latinos, além de obras contemporâneas dele.
Entre 1495 e 1515, publicou 134 edições. Parece pouco? Pois aí vem a surpresa: ele chegou a produzir duas mil cópias por edição, totalizando mais de 120 mil exemplares impressos em vida, isso em pleno século 16.
De quebra, Aldo inventou novas fontes gráficas de impressão e o formato de livro de bolso, barateando o produto final e estabelecendo uma norma de pontuação no processo. Quanto mais o trabalho dele era lido e copiado na Europa, mais a vírgula entrava para o cânone da escrita.
Curiosamente, o assunto não aparece na primeira gramática do português, a Grammatica da lingoagem portuguesa (1536). Fernão de Oliveira foi malandro e omitiu o tema da acentuação. Inclusive, o autor não usa no texto a vírgula que nos é familiar, e sim a “pequena vara”.
Na Grammatica da lingua portuguesa (1540), João de Barros prefere a palavra “coma” em vez de “vírgula” e remete à ideia ancestral da pausa para respiração: “Na coma parece que descansa a voz, mas não fica o entendimento satisfeito”. Também salienta a função de evitar ambiguidades na escrita.
Um fato engraçado dessa gramática é que o pedagogo português separa o sujeito do verbo, algo hoje condenável. “Os latinos, têm estes pontos finais…”
Duarte Nunes de Leão, na Orthographia da lingoa portuguesa (1576), aprofunda a ideia de entendimento não satisfeito e a complementa com o uso rítmico: “a vírgula se põe, & faz distinção, quando ainda não está dito tal coisa, que dê sentido cheio, mas somente descansa para dizer mais”.
Ou seja, o uso da vírgula como descanso tem um longo precedente. Essa prática ainda resistiu às margens das gramáticas modernas para ser celebrada com um Nobel de Literatura na obra de José Saramago, que entendia a pontuação como um sinal de pausa na música da escrita.
O espaçamento e a pontuação são dois conceitos historicamente ligados. Os pontos foram os primeiros espaços entre as palavras escritas.
A vírgula surgiu como marcação para uma breve pausa na voz. Essa ideia veio desde os gregos antigos até as primeiras gramáticas portuguesas do século 16.
O sistema de escrita atual é resultado de experimentações, necessidades práticas, trocas entre idiomas e novas tecnologias. Nada o impede de continuar evoluindo.
Podemos repensar a pergunta “onde vai a vírgula?”, incluindo-lhe o sentido de encontrar novas direções de uso dela. Ou de não uso.
Você já conhecia essa trajetória? Qual informação achou mais surpreendente?
Outras edições históricas:
Sou do tipo que espera o refrão da música para cantar junto, porque só lembro essa parte. Mas há canções que fazem sucesso sem estribilho; a pessoa que se vire para acompanhar. Bohemian Rhapsody e Faroeste Caboclo são exemplos disso.
Nos últimos anos, montei um acervo de músicas menos conhecidas que abandonam o refrão para contar verdadeiras Histórias musicadas. Bora ouvir!
É hora de corrigir Saramago?, perguntou Rodrigo Casarin diante das avaliações dos leitores de Ensaio sobre a Cegueira, que criticam a “tradução, sem pontuação, sem vírgulas” e o “português errado” do Nobel de Literatura.
“Pelo menos até o século 17, o normal é que as pessoas lessem em voz alta mesmo quando estavam sozinhas. É somente no século 18 que o jogo vira e, de repente, quase todo mundo está lendo em silêncio.” Juliana Cunha conta de maneira divertida a história da leitura em Páginas envenenadas.
Shady Characters, de Keith Houston, é um livro que mescla a história da escrita com a da tipografia. Foi uma das referências usadas na minha pesquisa.
Quem quiser se aprofundar no processo de normatização da pontuação em português ao longo dos séculos, recomendo este PDF de Tania Maria Nunes de Lima Camara.
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