Como você está?
Essas três palavras me dão arrepios, por mais gentis que sejam. Apenas respondo “tudo certo”, quando a vontade é dizer:
“São seis da tarde de uma quarta-feira e não levantei da cama, mesmo tendo um texto do trabalho para entregar hoje. Dormi três vezes, vi as notícias e o YouTube e olhei o teto por mais um bom tempo. Nesses dias ruins, tomar banho já é uma vitória”.
Episódios assim têm sido mais frequentes, a partir do momento que me isolei por questões financeiras e a invisibilidade do meu trabalho como redator me levou a questionar se o que produzo faz a menor diferença no mundo.
Numa ocasião dessas, estava sentado no box do banheiro e quis chorar por vergonha da minha solidão, por desgosto da vida e pela falta de controle em tais dias.
Logo surgiram as vozes na cabeça que todo homem sabe de cor, dizendo que macho não chora, ainda mais no chuveiro. Afinal, nos filmes, é sempre o lugar da mocinha extravasar as emoções.
Depois, lembrei-me de que há caras pagando até R$ 81 mil nos Legionários para chorar na montanha. Achei mais inteligente fazer isso de graça, em casa. Então, chorei.
A capacidade de controle é o que define a visão de masculinidade. Quem fala disso é Ronald F. Levant, autor de livros sobre o tema, ao resumir as sete normas da ideologia masculina tradicional:
evitar tudo que é feminino;
restringir a expressão de emoções;
ser autossuficiente;
ser durão;
ter dominância;
dar grande importância à vida sexual;
desdenhar de minorias sexuais.
Nessa visão, um homem é definido pelo que controla, desde grupos de pessoas até pequenas coisas. Um simples pedido de desculpas vira “você está louca” ou “lamento por quem tenha se ofendido”, porque admitir o erro ou a falha é reconhecer que não se é o dono da verdade.
Frequentemente, o desejo masculino de controle também se mostra como violência contra a mulher.
Daí a urgência de outras visões. Não podemos manter um modelo que reduz as chances de felicidade de 49,7% da população mundial e 51,5% da brasileira. Mas, eis o problema: as vozes com maior alcance no tema da masculinidade são de homens assustados e raivosos pelas conquistas femininas.
Cabe aos homens progressistas trazermos a conversa para o nosso campo, para que possamos ir adiante neste mundo em transformação sem que as mulheres precisem recuar um único passo e avancem junto.
Essa é a melhor saída para todos. Aliás, Celeste Davis destaca na newsletter dela uma relação nada aleatória: os três países com a maior igualdade de gênero para o Fórum Econômico Mundial — Islândia, Finlândia e Noruega — são os países mais felizes do mundo no ranking da Gallup. Que isso sirva de exemplo para o Brasil.
“A negligência dos problemas masculinos não é ruim somente para os homens, mas, no longo prazo, é ruim para todo mundo. Isso cria um vácuo enorme em nossa cultura, em nossa política…”
Richard Reeves, autor de Of Boys and Men, em entrevista ao The Daily Show.
O feminismo tem o dever de incomodar, pois qualquer incômodo que possa causar nos homens é nada perto do medo, da objetificação, do cansaço e das restrições que a ideologia masculina tradicional impõe às mulheres.
Para elas, o perigo ronda perto. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil teve 3.870 tentativas de feminicídio e 1.492 vítimas em 2024. Oito em cada dez vítimas foram mortas por companheiros ou ex-companheiros. Se até os homens que elas decidem confiar são capazes de tamanha violência, o que dizer do restante?
Mas, se o cara não for um babaca, souber a diferença entre flerte e assédio e botar a mão na massa, o feminismo não será incômodo. Basta entender que as mulheres controlam as próprias vidas e cuidar do próprio umbigo.
É claro, há divergências pontuais no pensamento feminista. Se os manos não conseguem decidir quem é o GOAT entre Messi ou Cristiano Ronaldo, as minas podem discordar em assuntos mais relevantes.
A solidão masculina e a solidão feminina são duas faces de um drama maior: a solidão humana, que afeta uma em cada seis pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde. Nem parece haver uma diferença significativa de incidência entre homens e mulheres, conforme uma meta-análise publicada no European Journal of Personality.
No entanto, os homens têm dificuldade de reconhecer diretamente a solidão, como aponta um estudo do King’s College London.
Já as mulheres não têm a mesma reticência de se afirmarem solitárias. Pergunte a uma mãe millennial com filho pequeno e a resposta provavelmente será “sim”.
Ou seja, temos um problema em comum, mas talvez precisemos de abordagens diferentes, já que homens e mulheres lidam de formas particulares com a questão, para falar da solidão masculina e da solidão feminina com a mesma seriedade e com suas nuanças.
Como diz Christine Emba, jornalista e autora de Rethinking Sex: A Provocation, “é fácil focar em certo tipo de homem que está por cima, mas a maioria não está indo bem”. Menosprezar ou ridicularizar esse problema é uma via para políticos, influenciadores e grupos na internet marcados pela misoginia oferecerem suas próprias respostas e soluções. A virada dos eleitores jovens à direita ocorre justamente por esse caminho.
“Mas a multidão corre, sem reparar nele, nem na sua angústia… Uma angústia imensa, que não conhece fronteiras.”
Anton Tchekhov no conto Angústia (tradução de Boris Schnaiderman).
Se você encontrasse meu pai e eu na rua, não veria qualquer semelhança entre nós. Ele era alto, loiro, de olhos azuis, um desses alemães da colônia, nascido no que hoje é o município de Trombudo Central, Santa Catarina, enquanto puxei o lado da mãe.
Depois do divórcio, a partir dos meus cinco anos, eu passava as férias de verão na casa dele; apenas os dois, sozinhos, na maior parte do tempo. O terreno parecia imenso para um guri pequeno, com direito a um pé de acerola carregado no quintal — uma das melhores recordações da minha infância.
Cresci e a casa envelheceu comigo. O mato às vezes chegava até os joelhos. As paredes descascavam, os cupins devoravam os móveis, as manchas estendiam-se, as janelas quebradas ficavam sem conserto.
Meu pai, também, era um barco à deriva. Ele não fazia muito por si próprio. Verão após verão, falava do grande sonho dele, percorrer o Nordeste, mas nunca foi além do próprio estado.
Ele morreu quando eu tinha 18 anos. Essa é uma idade terrível porque a pessoa acha que sabe tudo. Agora, não sei realmente quem era meu pai. Era feliz sozinho? Ou chorava no banheiro querendo fazer algo mais da vida? Será que precisava de ajuda?
Que fique claro: não o vejo como um homem fraco. Na época do meu nascimento, ele jurou parar de beber. Acumulou assim muitas fichas do A.A., que eu usava para bater tazo nas férias. Quem já superou um vício entende a força necessária para isso. O vazio, contudo, permanecia lá.
Acostumar-se ao vazio também exige força. Seguir acordando todos os dias e cumprir seu papel não é uma tarefa fácil. Só que isso cria uma distância para a vida ao redor. Os sinais tornam-se mais perceptíveis no lar em que vivemos, no lar que somos. A solidão é o que sobra.
Meu pai e eu não poderíamos ser mais diferentes no aspecto físico. Mas, no fundo, somos iguais. Então, penso: se eu, que sou filho dele, quase não o conheci, será que alguém de fato o conheceu?
“Eu sou um garoto de verdade e posso chorar / Eu me amo e quero tentar / É por isso que você nunca vê seu pai chorar”
IDLES — Samaritans.
Sou feito de amor e tão pouco o mostro. Mais comumente, é pela perspectiva da poesia romântica que aprendi com os livros.
Isso me faz pensar que muitos homens terão de criar as próprias referências de masculinidade, porque as encontradas até então não foram as melhores. Esse é o caso da masculinidade afetuosa. Mesmo na ficção é difícil achar. Para cada Ted Lasso ou Sing Sing, há milhares de personagens masculinos que amam somente a pátria, o trabalho, o dinheiro ou o sexo.
Agora, se alguém sem qualquer referência me perguntasse o que um homem pode fazer, eu diria: Olha, sou um ferrado que chora no chuveiro, mas aqui está uma lista de ideias nas quais acredito.
Um estudo na Austrália indagou a 251 homens que tentaram suicídio como se sentiam. Os termos mais usados por eles foram: inútil e sem valor.
A ideologia masculina tradicional até tenta responder esses sentimentos, mas não oferece uma resposta satisfatória, porque o controle externo não preenche o vazio interno.
O controle deve voltar-se para dentro. Precisamos cuidar melhor de nós mesmos, desenvolver nossas habilidades, aprender algo novo, fortalecer o corpo, limpar a casa, aparar os pentelhos, qualquer coisa que nos dê a sensação de capacidade e progresso.
Devemos ser mais ativos, em diferentes espaços e com diferentes pessoas, na vida real. As plataformas de internet não são feitas para sermos felizes, mas para nos viciar com gratificações imediatas, desmanchando a tessitura mais delicada dos laços físicos. E tudo para que consumamos mais publicidade.
Por outro lado, lá fora estão conexões mais verdadeiras em termos de amizade, romance e oportunidades profissionais.
A conversa sobre a solidão e a depressão masculina necessita de um ambiente receptivo entre nós homens. É preciso encontrar tempo, frear o julgamento e acolher a tristeza do outro.
Por sinal, o estudo australiano diz que 66% dos sujeitos que tentaram suicídio não procuraram ajuda por receio de incomodar. Este é um esforço dos dois lados: saber que posso contar com meus camaradas e ser um amparo quando precisarem.
Mas não é só na desgraça que se constrói uma relação, ou os votos de casamento seriam 50% mais curtos. Demonstrar carinho, lembrança, orgulho, preocupação e apoio são outras formas de estreitar laços.
É triste levar um fora, não há por que negar isso. Administrar as emoções não significa silenciá-las, e sim prestar atenção nelas, reconhecê-las e expressá-las no momento adequado. O que não podemos fazer é transformar a recusa em raiva contra a outra pessoa. Ninguém deveria temer pela própria segurança ao dispensar um cara.
Fica muito mais fácil entender o feminismo e as mulheres com esta técnica secreta: escutando-as. Também experimentei ler livros escritos por elas e meu pinto não caiu.
No Instagram, vale acompanhar a Valeska Zanello, os cursos da Juliana Diniz e os posts da Jarid Arraes apontando o machismo no mercado editorial, por exemplo.
“Quando você pensar na sua vida aos 95, 100 anos, e olhar para trás, não vai dizer: ‘Eu queria ter tido um celular melhor, queria ter passado mais tempo na internet, no trabalho ou dormindo’, não vai ser nada disso. Vai ser: ‘Eu queria ter passado mais tempo com as pessoas que amo’.”
Gary Lewandowski, professor, em uma conferência do TED.
Não tenho muitas respostas além disso. Dúvidas, por outro lado, as tenho de sobra.
Desde a adolescência, lido com sinais de depressão e só agora falo abertamente a respeito. Sinto-me sozinho e, ao mesmo tempo, sou péssimo em manter contato e fico desconfortável entre desconhecidos. Quero compartilhar a vida com uma mulher e dar um basta aos encontros casuais, mas com 36 anos ainda não sei viver junto de alguém. Sonho com um trabalho em que seja reconhecido, e não saio do lugar.
Então, continuo procurando. Se vou encontrar, o tempo dirá. Apenas tenho esta certeza: não aceitarei qualquer solução que, para eu ser mais, outra pessoa seja menos. Quem sabe, assim, um dia eu me torne a referência masculina que gostaria de ter recebido. Enquanto isso, prevejo muito choro no chuveiro.
E você, tem chorado?
Conhece obras da literatura ou do cinema que falam de outros amores masculinos, como filhos, irmãos, pais ou a vida? Dê sua dica para eu pesquisar.
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Um belo dia você decide dar jeito na vida, curar-se. É difícil no começo ligar para um amigo, assumindo a própria fragilidade – há de se ter força para isso. Então para de fumar, começa a correr, encara a ansiedade e já não mexe tanto no celular. Quem sabe até volte a ler, mas algo no fundo ainda incomoda. Um belo dia, após semanas de terapia, resolve manter um emprego sem mais pular de galho em galho. Você guarda uma grana para as férias e logo estará nas areias brancas de Elafonissi ou nas galerias vermelhas do Hermitage ou nos templos dourados de Myanmar, embora, durante toda a viagem, no fundo do fundo, o segredo não se veja em lugar algum. Um belo dia aprende até a cozinhar de verdade, planta alecrim e manjericão em pequenos vasos de barro. Agora tudo sabe a tão novo e terá um gosto ainda melhor quando compartilhar com alguém o primeiro de muitos jantares lado a lado. Vocês se casam discretamente entre amigos, familiares e o vazio do fundo do salão. Um belo dia, muitos anos depois, olha seus filhos uma última vez, agradecendo o fato de ter largado o cigarro e o açúcar e ter aprendido a chorar, a pedir desculpas e a amar para viver esses momentos, mesmo que não tenha encontrado a resposta desse algo, desse segredo, desse vazio que lhe faz companhia também em seu leito de morte, mas isso não mais importa – no fim, foi uma bela vida.
(Um poema meu para lembrar que sou poeta.)
Uma inspiração para esta edição foi o canal Polyphonic analisando o disco Joy as an Act of Resistance. A banda IDLES fez dessas 12 faixas um manifesto em prol de uma masculinidade mais saudável e alegre, como se vê nas letras comentadas no vídeo. Aproveite para ouvir o disco inteiro, que é uma porrada das boas.
Devo muito aos artigos de Celeste Davis. Recomendo a leitura de textos como That's nice, but how do we dismantle patriarchal masculinity exactly?
“Precisamos que vocês se olhem nos olhos uns dos outros e pensem: essa bronca é nossa, bora resolver”, diz Lorena Portela em O feminismo não errou.
“No começo da puberdade nós somos avisadas de que a infância acabou”, relata Lara L. em O termômetro da foda do homem.
Enquanto isso, Myriam Scotti fala da urgência de encontrar um novo jeito de educar os garotos em Meninos e a política do cuidado.
Homens, por favor, vejam o filme Sing Sing (2023), de Greg Kwedar.
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Um abraço do Chris
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