A sensação é que ela virá embalada, perfumada e com manual de instrução. A autoestima foi mercantilizada a ponto de ser vendida quase como item obrigatório da nécessaire. Sem as compras na bolsa, a vida cobra juros.
A Nem Toda Mulher deste mês resolveu tirar a autoestima da prateleira. Refletir sobre o assunto é reconhecer uma conexão forte: sim, todos somos moldados, em alguma medida, pelo olhar do outro. Só que — em especial para o gênero feminino — isso pode ser uma cilada.
Nesta edição:
Carol Pires abriu o jogo e reconheceu — em um flerte fracassado, unhas sem esmalte e anos e anos de análise (com algumas doses de psicotrópicos) — que autoestima “não é vendável. Não é meritocracia. Não depende só de você. Não pode ser tirada do contexto da desigualdade, da saúde mental, da relação com os demais. Autoestima não é um destino único com roteiro pronto.”
Vera Iaconelli convoca a associar “baixa estima” à mulher “subestimada”, pois “há um abismo entre o olhar do pai, que considera a filha sua princesinha, somado ao da mãe, sempre atenta ao comportamento e à aparência da filha, e a descoberta oportuna da desvalorização e da violência atreladas ao gênero feminino. Isso tem efeitos.”
A convidada do mês é Jacira Doce, que conquistou milhares de seguidores nas redes sociais com seus quadros de humor, inteligência ácida e ofertas diárias de “looks com consciência de classe e crítica social”. Aqui, ela faz um desabafo e uma crítica ao olhar do outro que tenta categorizá-la numa fila de aeroporto.
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Abraços,
Fernanda Aranda
Editora do Nem Toda Mulher
Era uma quarta-feira, e eu amo as quartas. O pior da segunda passou e a sexta já é uma realidade. Eu iria embarcar para São Paulo para uma tarefa leve, diferente da maioria das vezes em que vou a trabalho. Eu estava indo encontrar meu stylist (o que ainda soa muito estranho dizer — tanto por ter um stylist como por viajar só para encontrá-lo).
Eu levava comigo uma mala de mão e uma mala trambolhuda vazia para voltar para casa cheia de looks que ele me ajudaria a escolher para a minha primeira viagem de trabalho do ano. Eu estava tranquila, sem deadline à frente, e acho que justamente por isso baixei a guarda. Meu primeiro erro?
Como eu não iria para nenhum evento, decidi ir para o aeroporto como quem vai para a casa de uma amiga ver um filme tarde da noite — quase de pijama. Meu segundo erro?
Mesmo antes de deixar meu último emprego CLT para me aventurar pelas terras da web e ganhar mais de meio milhão de seguidores no Instagram fazendo quadros de humor, eu já entendia que alguém como eu sempre precisaria estar bem arrumada. Nasci em Portugal, mas vivo no Brasil desde os três anos, quando meu pai, de Guiné-Bissau, veio fazer doutorado na UnB e nunca foi embora. Para um homem como ele, apenas ser doutor não bastaria. Aprendi essa vaidade em casa.
Quando minha carreira de influenciadora decolou (daí o stylist), passei a viajar infinitamente mais e tive a honraria de entrar para a seleta categoria premium da companhia aérea que me levaria para aquele compromisso louco. Seria uma mão na roda usar os privilégios do programa de fidelidade, mas, logo de saída, a companhia grafou meu nome errado. Já respondi por Jarica mais de uma dezena de vezes e fui levando. Terceiro erro?
Por causa do despacho do trambolho, que caberia até 23 kg, me mandaram para o final da fila algumas vezes. Em todas elas, voltavam a me perguntar: “Qual a sua categoria?”. Qual a sua categoria? Qual a sua categoria, Jarica?
Não vi os funcionários fazerem essa pergunta a nenhum outro passageiro na fila. Na primeira vez, pareceu um contratempo. Na segunda, senti meu bom humor evaporar. Na terceira, a pergunta me acertou com violência.
Depois de tantas voltas ao final da fila, me informaram que a burocracia para corrigir o erro do meu nome no cartão seria, de fato, uma baita burocracia e que não haveria tempo hábil para embarcar no meu voo original despachando a mala grande. Me passaram para o próximo com uma naturalidade assustadora.
Mas tudo bem, eu estava indo para um compromisso sem entregas. Embarquei. Deu tudo certo. Provamos muitos looks. Foi ótimo.
No dia seguinte, percebi que meu cartão de embarque da volta não estava disponível no aplicativo. Fiquei com medo de ficar presa na realidade paralela em que pessoas têm stylist para sempre e corri para o aeroporto.
Cheguei quatro horas antes do voo. A companhia aérea não tinha emitido um novo bilhete de volta, mas uma atendente resolveu o erro dos colegas de Brasília.
Mais uma vez, lá estava eu. Levava de volta a malona cheia de roupas incríveis, mas eu mesma estava com a roupa relaxada. Nenhuma maquiagem e nenhuma artimanha fashion. Meu quarto erro?
Como a canção que diz que “É demais. É pesado. Não há paz” está extremamente ligada à realidade, meu voo foi cancelado. Até aí, tudo bem, acontece. Pior do que o problema foi o problemão que deu para resolver o problema.
Corri para cima e para baixo para conseguir mais informações e para buscar minha preciosa mala de 23 kg, que já havia sido despachada. Na fila do atendimento dito premium, eu desconfiei que não vale o escrito. Vale mesmo o que está na cara. No caso, minha cara sem maquiagem.
Ali, a inquisição para saber qual era a minha categoria voltou com mais intenção (e não era das boas). Qual a sua categoria? De novo: qual a sua categoria? E, mais uma vez: qual a sua categoria?
Eu, que tenho tanta dificuldade de deixar minha casa sozinha, consegui chegar cinco horas depois do previsto. Já era madrugada.
No dia seguinte, na sala, as fichas que estavam presas havia tempos caíram todas de uma vez só.
Num mundo ideal, esse texto seria engraçado, seria para rir dos perrengues da vida, como eu faço no trabalho. Ter ou não ter o cartão mega carbon premium vip é o que menos importa. Dentro de mim, eu sei exatamente a minha categoria — mas me entristece muito saber que há pouco o que eu possa fazer para me proteger do olhar do outro que vê na minha pele uma categoria menor.
** Jacira Doce é comunicadora e escritora e apresentadora do @irrisorioshow.
Freud foi execrado por psicanalistas mulheres e por feministas ao propor a interpretação da inveja do pênis como fator estruturante da feminilidade. Tirando o fato de que urinar de pé na balada possa ter suas vantagens e de que muitas entre nós desfrutem das alegrias prometidas pelo órgão, fica difícil defender o psicanalista vienense. Girls wanna have fun, mas, como nos lembra o filósofo Paul Preciado, não há nada que um dildo escolhido a dedo não resolva.
O criador da psicanálise não errou ao dizer que há algo invejável nos homens, mas mirou baixo ao tentar identificar o que seria. Justo ele, que foi o filho preferido, cujas ambições ocuparam um lugar central dentro da família. Para se ter uma ideia, suas irmãs tiveram que vender o estimado piano para que o som não atrapalhasse os estudos do pequeno Sigmund. Numa época em que não havia grande acesso à música nos lares, dá para imaginar o tamanho do sacrifício das meninas feito em nome do menino da casa.
Se há alguma coisa invejável nos homens, que as mulheres logo percebem, é sua posição de superioridade em relação a elas, não importando quão burro, feio ou desinteressante ele seja. Algo que quem nasceu menina jamais conhecerá, pelo menos não nas próximas décadas, provavelmente séculos.
Meninas elogiadas, paparicadas e supervalorizadas existem aos montes, e os pais têm adorado fazer das filhas seus bibelôs a serem exibidos sempre que possível. Com a internet, então, isso se tornou uma praga, com cenas capazes de alavancar qualquer ego. Mas as filhas, diferentemente dos filhos, não demoram a perceber a inconsistência dessa supervalorização e como isso não se sustenta nem dentro nem fora do ambiente doméstico.
Dentro de casa, ela verá uma divisão de tarefas e responsabilidades desproporcional entre meninos e meninas e ouvirá comentários misóginos. Não se trata só do comentário depreciativo - esse é mais fácil de identificar e, portanto, de combater -, mas do jogo insidioso que nem sempre é fácil de reconhecer.
Pode ser na forma de um elogio: ceda, você é mais madura que seu irmão. Ou um olhar cúmplice ao dizer: só nós, mulheres, somos capazes de cuidar direito (da casa, dos filhos, dos homens…). O que poderia ser elogio encerra uma condenação: você tem que ceder, senão será considerada imatura; tem que cuidar, porque isso define a feminilidade. Fazemos isso o tempo todo sem perceber, prendendo a bola de ferro no pé de quem juramos amar e proteger.
Logo a menina percebe que o tempo e os artifícios que ela deve mobilizar para estar pronta revelam a disparidade de gêneros. O homem é naturalmente adequado, o vestuário masculino se resumindo a um uniforme. Já as mulheres não são suficientes, e um arsenal de objetos e ações será necessário para tentar alcançar o patamar dos caras. Precisa citar? As roupas têm que variar; não dá para ir com o mesmo vestido a todo casamento ou com o mesmo modelito a toda festa. Maquiagem, manicure e pedicure, bijuterias, bolsas, sapatos, cabelos (tingidos, alisados, enrolados…), dietas, intervenções cirúrgicas.
A quantos casamentos o bofe vai com o mesmo terno? Que diferença faz o que ele escolhe para vestir numa festa? Será sempre uma versão de outra cor ou simplesmente o mesmo. Tomou banho, abanou o rabo e o homem tá pronto e se achando um gato.
O céu é o limite para o que uma mulher precisa fazer para estar apresentável. E não se engane: ela nunca estará. Manter o sarrafo inalcançável é uma forma de ter a mulher sob permanente jugo, demandando aprovação. Haja vista os comentários pavorosos que se fazem a beldades como Scarlett Johansson ou Margot Robbie. O recado é claro: elas nunca terão o que eles têm de saída. Algo lhes falta, e Freud apostou que seria o pênis.
Lacan, já numa versão menos carnal, apostou que se trataria do falo, símbolo de um objeto faltante que, de fato, ninguém tem. Trata-se de uma miragem que nos assombra a todos, todas e todes. (Não passou despercebido pelas psicanalistas e pelas feministas que o termo escolhido, falo, remete ao pênis.)
A falta, que é constituinte e humana, seria imputada à mulher, encobrindo a falta masculina. O patriarcado faz crer que o homem teria isso que só mulheres não têm. Como encarar a realidade é opcional - estão aí os terraplanistas para provar -, os meninos não abrem mão da ideia de que o sol gira em torno deles.
Para resolver a questão, a mulher faria de si mesma um objeto fálico, algo a ser admirado e apreciado por todos, inclusive por outras mulheres. Mas como ninguém tem ou é o falo, o espelho nunca lhe devolve uma palavra de conforto. Ao contrário, aponta o dedo e diz: você até que é bonitinha, ¿pero y las otras?
E não se trata de ter que abrir mão do arsenal de truques estéticos que aprendemos a usar, mas de poder usá-lo só quando quisermos. Em 2026, ainda causa furor Pamela Anderson não usar maquiagem em público. Trata-se de um ato com repercussões políticas e não apenas de uma opção estética.
A baixa autoestima feminina tem uma relação profunda com o fato de ser sub-estimada. Há um abismo entre o olhar do pai, que considera a filha sua princesinha, somado ao da mãe, sempre atenta ao comportamento e à aparência da filha, e a descoberta oportuna da desvalorização e da violência atreladas ao gênero feminino. Isso tem efeitos.
Entre eles, o ressentimento, a convicção de que se perdeu algo a que se tinha direito, a sensação de promessa não cumprida. O gosto amargo de ter se deixado enganar pelos mimos do adulto pode ser deslocado para as outras mulheres, vistas como rivais na busca por atenção. A rivalidade feminina se fia na tentativa de agradar um outro inalcançável que a recolocaria num lugar de privilégio. Feminilidade frágil, diríamos? Sim, pois construída sobre o terreno movediço da aprovação patriarcal.
Mas há aquelas que, reconhecendo o engodo e refratárias ao julgamento alheio, empatizam com as demais mulheres. Até com aquelas que se submetem aos homens, cientes de que cada uma tem seu tempo de conscientização. Infelizmente, algumas sofrerão violências ou serão mortas antes que isso ocorra.
Muitas meninas sequer tiveram direito à quimera de um olhar de supervalorização. Entre elas, temos as mulheres racializadas, as mulheres pobres, as transexuais, aquelas que sequer encontram espelhos nos quais se mirar. Para todos os lados que olham, a beleza, a inteligência e o sucesso são brancos, cis, hetero, ricos ou célebres.
A desvalorização a partir da racialização está dada também ao homem negro, mas ele ainda leva vantagem sobre a mulher negra, em quem, não raro, desconta a humilhação racial que vive, desprezando-a ou preterindo-a por uma branca.
Mulheres negras têm encabeçado a maior guinada na questão da autoestima feminina. Não porque tenham resolvido essa difícil equação, mas pelo ponto a partir do qual a respondem. Na falta de um olhar hegemônico que reconheça seu valor, elas olham umas para as outras e umas pelas outras. As mulheres negras orgulhosas de sua ascendência têm servido de farol para as demais. Quando heterossexuais, as negras são mais solitárias do que as brancas, mas ganham em sororidade, peça-chave da emancipação feminina. Aqui vale a máxima antes só do que mal acompanhada.
Tudo isso para dizer que o empoderamento feminino, aquele que permitiria à mulher sentir-se bem na própria pele, não funciona na base da palavra de ordem. Não se trata de cantar a plenos pulmões I’m invincible no TikTok. Ser guerreira também é uma das demandas do patriarcado para que o homem possa tomar sua cervejinha no sofá, assistindo ao jogo de futebol em paz, enquanto a mulher cuida do resto.
E por que palavra de ordem não resolve? Primeiro porque nossa feminilidade foi forjada por essas marcas de desvalorização que calam fundo em quem somos. Freud já demonstrou que, entre a vontade consciente e as forças inconscientes, as segundas ganham de lavada. Letramento e sororidade não vão sem um mergulho profundo em nossas identificações profundas.
Segundo porque não se trata de repetir o factoide masculino. Não somos invencíveis; somos apenas um bando de seres rodando na galáxia sobre um combalido planetinha azul. Independentemente do gênero, todos morreremos e, pior, sabemos disso. Nossa fragilidade diante desse fato é tanto menor quanto nossa coragem em admiti-lo. Fazer-se de fêmea-alfa é um modelo fadado ao fracasso, como provam os homens.
A autoestima feminina não está na miragem do espelho. Ela está refletida no olhar das outras mulheres, naquilo que chamarmos de feminino. O processo de recuperá-la é tanto coletivo quanto individual.
Autoestima é um termo que a gente ouve desde cedo. Pelo menos desde a adolescência. Pra mim, foi por ali que me convenci – ou me convenceram? – de que ter autoestima é um atributo essencial pra ganhar o mundo.
Mas, pra encontrar autoestima, é preciso saber o que isso significa. É algo que a gente sente ou que a gente performa? Vem de dentro ou é construído no olhar do outro? Onde está a fonte? Em casa? Na rua? Dá pra comprar com cartão de crédito? Parcelar?
Ali perto dos 12 ou 13 anos, minha interpretação era que autoestima significava me achar bonita. Eu me encarava no espelho do banheiro analisando meus traços e achava cada um deles – olhos, nariz, boca – bonitos. Mas não me sentia bonita. Ou pelo menos não via essa confirmação no olhar externo.
Lembro de um dia em que o menino mais bonitinho da sala, um loirinho baixinho que se achava, me chamou a atenção de um jeito grosseiro porque eu não pintava as unhas. “Olha aqui como são as da Sarah…”, ele disse, me mostrando a mão de uma colega delicada, daquelas cuja beleza sobreviveria a um naufrágio.
Já que era disso que as meninas bonitas e seus admiradores gostavam, passei a pintá-las em casa. O que só serviu para eu esquecer de fazer manutenção e andar com elas descascadas por aí por três semanas, numa situação muito mais deprimente do que se estivessem ao natural, como eu uso até hoje.
Se não era na vaidade, onde eu encontraria a tal autoestima?
Meu lugar de aceitação e pertencimento vinha da confirmação externa de que eu era “legal”. Era amiga dos nerds, dos baderneiros do fundão, dos que eram chamados de esquisitos e das mais bonitas da escola. Extroversão é autoestima?
Nunca tive inibição pra iniciar amizades. Tinha amigos em todas as séries, até entre os gatinhos mais velhos que iam pra escola de moto e as meninas tinham vergonha de se aproximar. Mas era só amiga, não mais que isso.
Eu também tinha um lugar de autoconfiança no desempenho escolar. Fui oradora da turminha do jardim de infância porque já tinha aprendido a ler e escrever antes da turma. Também me marcou um dia em que professora de português me levou às turmas do ensino médio para que eu respondesse regras de acentuação, como quem diz: “Se ela sabe com 12 anos, vocês deveriam saber com 14”. Com o tempo, as notas começaram a ser dinamitadas pela descoberta dos psicotrópicos, mas a fundação construída pela performance e pelo olhar do outro já estava formada – e ficou.
Com 21 anos, eu já estava cobrindo as votações e os bastidores no Congresso, no STF e na Presidência como repórter. Mesmo com aquela sensação de fraude por dentro, conseguira performar confiança para questionar autoridades (mesmo não tendo discernimento para escolher ficantes decentes).
O terreno amoroso sempre foi o mais movediço pra mim.
Nunca fui de ficar presa a relações cagadas. Tentou me deixar insegura, é tchau. (Amor-próprio em dia?)
Não sei a causa, mas o problema, pra mim, é o momento da iniciativa.
A história de flerte fracassado de que minhas melhores amigas mais gostam é a de quando passei um ano inteiro indo ao mesmo bar em Nova York (estudei lá há mais de 10 anos), sem coragem de iniciar um papo com o bartender. Ele era a cara do Anthony Kiedis nos anos 90, meu ídolo da adolescência. Mas eu só tomei coragem na semana em que voltaria pro Brasil de vez.
Eu podia ter dito “oi, meu nome é Carol”, “oi, te acho um gato”, “oi, quer tc?”, qualquer coisa! Mas o que saiu foi: “Do you like Red Hot Chili Peppers?”
Tudo durou três segundos. Ele respondeu um “no” seco e já se virou para pegar o pedido de outro cliente.
Se não me falha a memória, desde então nunca abordei um desconhecido que eu tenha achado bonito. Aposto que, numa conversa apressada, alguém cravaria: “Isso é falta de autoestima”. Mas pera lá — que raio é autoestima? Não é o mesmo que amor-próprio, que não é o mesmo que confiança, que não é o mesmo que desinibição, que não é o mesmo que ser inabalável.
Falo disso na análise. Autoestima, ou a falta dela, é um termo que não dá conta de explicar nossas inseguranças. Lá, falo sobre a construção do “eu” na infância, sobre a validação paterna que só existia quando eu levava pra casa nota máxima (entrega mensurável), mas não sobre quem eu era (imponderável).
Falo sobre como, ao precisar comunicar o desejo, me sinto vulnerável à chance de ser rejeitada e me imagino desmilinguida no olhar do outro. “Do you like Red Hot Chili Peppers?”
Hoje, quando penso em autoestima, não sei bem dizer o que de fato isso significa. Até porque o termo em si foi mercantilizado, simplificado, deformado. Te prometem que o novo blush cremoso terracota glow que a influenciadora X usa é o que vai te fazer se sentir bonita e confiante no trabalho. Que o creme firmador super pró-colágeno com peptídeos 10% vai te fazer amar seu próprio corpo. Que ir ao spa do bairro fazer a massagem modeladora Miracle Touch é autocuidado.
Autoestima não é vendável. Não se compra aproximando o cartão da maquininha. Não é meritocracia. Não depende só de você. Não pode ser tirada do contexto da desigualdade, da saúde mental, da relação com os demais. Autoestima não é um destino único que vem com roteiro pronto.
Nesta época de Carnaval, sempre penso nas influenciadoras que nunca tiveram relação com o samba e que, de repente, fazem aulas intensivas de dança pra atravessar a Sapucaí como destaque de uma escola com a qual não têm qualquer conexão. Posso estar errada, sequer as conheço, mas me passa a impressão de que todas estão ali porque se convencionou que aquele é um espaço obrigatório no roteiro padrão da fama. Pintam as unhas porque alguém disse que era obrigatório – e, no fim, atravessam a avenida desajeitadas, deslocadas – como minha unha pintada por ordem de alguém, mas descascada.
Hoje, com 39 e mãe de uma criança de 6, eu entendo autoestima como aquilo que te sustenta mesmo quando tudo está “dando errado”. Reencontrar psicotrópicos – agora do tipo legal e prescrito – também me ajudou (muito).
Autoestima – ou o nome que você prefira dar – é não depender exclusivamente da validação externa e cultivar resiliência interna. É poder me sentir o cocô do cavalo do bandido numa situação difícil, sem que isso me faça perder a confiança em quem eu sou. Saber que meus defeitos, dificuldades e falhas fazem parte de mim, mas não me definem. É saber que posso até me perder, mas que tenho um mapinha que me leva de volta para um lugar em que eu sou gentil comigo mesma e me amo incondicionalmente – e o mapa funciona porque ninguém me entregou ele pronto, eu descobri dentro de mim, e é só meu.
por ler nossa newsletter. Todo mês, enviamos duas edições: uma assinada por nós, Carol e Vera, com a contribuição de uma convidada. Na edição seguinte, convidamos um homem que admiramos (não porque seja irrepreensível, e sim porque vale a pena ouvi-lo) para debater a masculinidade.
Beijos,

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