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Newsletter Nem Toda Mulher · Aug 16, 2026

Nunca soube a escalação de um time de futebol

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Newsletter Nem Toda Mulher · Newsletter Nem Toda Mulher

“Em que momento os meninos foram ensinados que supostamente seriam melhores do que as meninas?”

Essa pergunta surgiu no debate do Nem Todo Homem ao vivo, que fizemos na CAsaDELAS, nossa casa na FLIP, com o geógrafo Kauê Lopes dos Santos, autor do livro Parcelados, e o músico João Camarero, autor da penúltima edição.

No caso do Kauê, ele queimou a largada: nunca tinha escrito para a newsletter. Mas, agora que foi aprovado no teste do ao vivo, é ele quem assina a edição de hoje como autor convidado.

(Para quem quiser assistir à mesa, colocamos a íntegra da conversa com Kauê e João no nosso canal no YouTube)

Aliás, estamos cada vez mais animadas para fazer eventos ao vivo, convencidas de que a conversa olho no olho, com tom e entonação de voz, e sem a intermediação das telas, deixa todo mundo muito mais a fim de chegar a consensos — ou, pelo menos, de divergir sem querer atacar o coleguinha.

O que a gente quer com o Nem Todo Homem e com os encontros ao vivo não é fazer prova oral com os convidados para saber se eles leram todo o cânone feminista, nem que nos provem que são irrepreensíveis — porque ninguém é.

Na FLIP, por exemplo, a conversa passou por infância, escola e maturidade – temas comuns a todos nós que ajudam a mapear se forma o pertencimento masculino, e quais experiências às vezes podem produzir exclusões, hierarquias, a crença de que são superiores e, em casos extremos, violência de gênero.

É o contorno desse mapa que o Kauê continua tentando traçar no texto desta edição.

Boa leitura!

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Passei boa parte dos últimos anos debruçado com os dois cotovelos nas minhas pesquisas sobre a economia urbana em países do Sul Global. É um trabalho que gosto muito e que, justamente por isso, consome quase toda a minha atenção, deixando outros assuntos menos elaborados em mim do que deveriam.

É por isso que o convite da Carol Pires e da Vera Iaconelli para participar do Nem Todo Homem, na CAsa DELAS, na FLIP deste ano, ao lado do músico João Camarero – três pessoas cujo trabalho admiro muito –, me deixou tão entusiasmado. Tive a certeza de que o encontro seria, por si só, um importante exercício de reflexão para mim. E confesso que, na medida em que a data do evento se aproximava, tive o vício mais acadêmico possível: fui pesquisar as referências dos debates atuais sobre gênero para diminuir o temor de dizer alguma bobagem diante delas e do público. Como se não bastasse, havia ainda uma inquietação familiar. Ao saber do convite, a primeira reação da minha mãe foi uma pergunta: “Mas você? O que você entende disso?”

O questionamento foi quase um reflexo e tinha lá os seus fundamentos. O efeito, foi imediato: mais nervosismo (para mim e, certamente, para ela também).

Mas em Paraty a conversa foi para outra direção. Carol e Vera não estavam interessadas em saber se dominávamos o léxico de um debate que segue em construção, e sim em olhar para a nossa própria história: como fomos nos tornando e nos percebendo homens numa sociedade patriarcal. Não poderia haver perguntas mais certeiras do que as de uma dupla bem calibrada formada por uma jornalista e uma psicanalista.

E elas nos levaram, de cara, para a infância.

Foi ali, precisamente, que a conversa ganhou sua dimensão mais crua e genuína, longe dos exercícios envernizados de troca de frases de efeito, tão comuns hoje. Toda a bibliografia que eu havia levantado nos dias anteriores se tornou inútil naquele momento. E isso foi um alívio tremendo.

Das muitas perguntas feitas a nós – eu e João –, uma ficou reverberando por mais tempo. Não lembro as palavras exatas da Vera, mas era algo como: “Em que momento vocês foram ensinados que seriam – supostamente – melhores do que nós?”

Pensei alguns segundos e respondi: “Nas aulas de Educação Física”.

Se não me falha a memória, foi ali que nós, meninos, fomos integral e institucionalmente separados das meninas pela primeira vez, sob o argumento explícito e mal explicado de uma diferença de forças. E não é curioso como esse argumento, sem que ninguém dissesse em voz alta, transbordava de forma tácita para uma divisão de supostas competências não apenas físicas, mas também intelectuais? Uma suposta agilidade e frieza, uma capacidade de “bolar estratégia” de jogo que nós, meninos e futuros homens, teríamos quase como algo natural, biológico?

Reparem na expressão: “bolar estratégia”. Algo que se faz no jogo quando se é criança e na guerra quando se é adulto. A mesma ação que organiza a prática esportiva dos meninos na quadra organiza, mais tarde, o comando, a hierarquia, a disposição de mandar no campo geopolítico. Aprendemos cedo que pensar a estratégia é uma posição que se ocupa.

Mas talvez eu já esteja indo longe demais. Voltemos à escola.

Hoje eu entendo que as aulas de Educação Física foram apenas a porta de entrada para uma cultura sectária muito mais sofisticada: a cultura do futebol. E aqui vale uma distinção que só agora estou elaborando: essa cultura não se traduz em jogar futebol, e sim em – como o nome sugere – cultuar o futebol. Acompanhá-lo de forma religiosa, saber a escalação, o resultado de domingo, o jogo de quarta, o nome do técnico, a tabela do campeonato. Não era uma questão de talento com a bola; era uma questão de adoração. E essa adoração se provava pela conversa e pela disponibilidade de sempre, mas sempre mesmo, ter essa conversa.

Tive a sorte de ter pais que não investiam nessa cultura, e chamo isso de sorte, sim. Dentro de casa, futebol nem chegava a ser assunto. Fora de casa, porém, ele era o idioma oficial dos meninos: com o amigo, com o pai do amigo, com o vendedor da banca, com o cobrador do ônibus, com o porteiro. Um inferno. E, para ser sincero, era uma conversa que, no fundo, não dizia nada: “Você viu o gol do Juninho ontem contra o Atlético?” ou “Parece que o Palmeiras está negociando o Marcinho com o Manchester”. Por aí a coisa ia: para lugar algum. Só me lembro que eram muitos Juninhos e Marcinhos e Marcelinhos, homens adultos chamados pelos seus diminutivos.

Eu nunca soube a escalação de um time de futebol, e nunca ter tido esse vocabulário já bastava para me deixar um tanto de fora de algumas dinâmicas de sociabilidade com boa parte dos meninos.

E preciso ser franco: ficar de fora não era um mérito, nem foi bem uma escolha. Eu não recusei aquela cultura por um princípio que ainda não tinha; simplesmente não cabia nela. E não caber, numa cultura que se define tanto pelo que inclui quanto pelo que despreza, nunca sai de graça. Se você, menino, gostasse de jogar vôlei ou handebol – o que era o meu caso –, mais cedo ou mais tarde viriam piadas de natureza homofóbica. Logo no futebol... Um dos espaços mais homofílicos que se tem notícia.

Havia ainda o passatempo predileto de muitos: juntar-se para rir das meninas jogando futebol na aula de Educação Física. Faziam isso inclusive os meninos que jogavam mal. Era o machismo de todo dia, nas suas formas mais desavergonhadas.

Vale sempre a pena marcar as coisas no tempo e no espaço, para tentar fugir da pretensa universalidade delas. Essas minhas lembranças são dos 1990, em uma escola construtivista na Zona Oeste de São Paulo, onde a cultura do futebol era, muito mais do que hoje, fundamentalmente masculina. Na verdade, ela era “fundamentalistamente” masculina.

Depois da conversa com Carol, Vera e João, fiquei pensando em quanto daquilo – do direito que nós, meninos, sentíamos de nos achar melhores do que as meninas – foi ensinado ali, de lado, sem que ninguém precisasse dizer em voz alta. E fiquei pensando também no que foi acontecendo no nosso país sem que muitos de nós percebêssemos: as milhares de meninas Brasil afora – quase todas, aposto, ridicularizadas na aula de Educação Física quando crianças – que insistiram na vontade de jogar bola e abriram caminho para um futebol que hoje dá muito mais orgulho ao país.

No ano que vem, em 2027, o Brasil vai sediar a Copa do Mundo feminina. Um bom momento para pôr em primeiro plano as conquistas femininas e, em segundo, os limites da adoração de meninos e homens pelo futebol.

* Kauê Lopes dos Santos é geógrafo e professor da Unicamp. Doutor em geografia humana pela FFLCH-USP e mestre em habitat pela FAU-USP, foi pesquisador visitante na Universidade da Califórnia, Berkeley (UC Berkeley) e na London School of Economics. Pesquisa economia urbana dos países do Sul Global.

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Read the original on nemtodamulher.substack.com

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