O que está por trás de um curso de homens para debater o “enfraquecimento da figura masculina”? A crença de que alguém lhes tirou uma força legítima
Não é difícil ligar os pontos: os homens se sentem enfraquecidos num momento em que nunca tantas mulheres foram autônomas, ambiciosas, livres e líderes.
Nesses mesmos cursos de homens, a recuperação da masculinidade está baseada na recuperação de “valores tradicionais”. Ou seja: restaurar hierarquias em que um mandava e outro obedecia sem questionar.
Também não é difícil fazer as contas: justamente quando mais mulheres estão conseguindo impor seus limites e desejos nas relações, o número de chamadas ao 190 por violência doméstica, boletins de ocorrência de agressão, pedidos de medida protetiva, tentativas de feminicídio e feminicídios consumados só aumenta.
Em quantos desses casos há por trás uma figura masculina que, porque se sentiu enfraquecido diante de uma rejeição ou negativa, quis impor sua vontade à força?
Adoraríamos ver um curso de homens que viralizasse falando sobre como masculinidade não precisa estar associada ao domínio, à força e à imposição.
Disso, surgiu uma ideia: e se existisse um curso “para ser uma mulher poderosa”, o que teria na grade curricular?
A pergunta nos levou a convidar as fundadoras do estúdio CLARICE, a socióloga Beatriz Della Costa e a estrategista de impacto Mariana Ribeiro, para escreverem sobre suas experiências em entrevistar quase 60 das mulheres mais poderosas e influentes do país para o estudo Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras.
Em O Exílio do Feminino", as duas descrevem as descobertas da pesquisa Em seguida, cada uma escreveu um texto autoral. Beatriz fala da experiência que o poder tem sobre o corpo — e vice-versa, enquanto Mariana conta sobre a virada da menina obediente que aprendeu o poder de desobedecer.
Para completar a edição, Vera Iaconelli escreve sobre o que acontece dentro de casa quando a mulher chega ao poder. E Carol Pires reflete sobre o que precisou acontecer dentro de si para narrar o poder que já tinha.
A escritora italiana Elena Ferrante escreveu certa vez que contar histórias é uma forma de poder político. Narrar é dar forma ao caos do real. É decidir o que tem nome, o que tem peso, o que merece ser lembrado e de que forma será lembrado.
Quando eu estava escrevendo os primeiros blocos de texto que em algum momento virariam o roteiro de Democracia em Vertigem, a Petra [Costa, diretora do filme] me dizia que precisava usar mais “poesia”, sair do registro de jornal.
Estávamos ali na missão de contar a história do impeachment da primeira mulher eleita presidente, do complô de homens que quiseram retomar à força o poder, e apontar que esse era um precedente político arriscado para todos. Aqui estamos.
Só me toquei depois que o que Petra definia como “muito jornalístico” era, na verdade, um registro masculino da história. Ao ouvir fontes da política, da polícia e do judiciário, eu reproduzia as ferramentas semânticas deles, muitas vezes simplistas e bélicas: “queda de braço”, “derrota”, “vitória”, “rasteira”, “golpe”. Não é de se espantar que quem ouve essa narração comece a torcer pelo personagem que lacra, derrota, humilha, que “fuzila a petralhada”.
Poderíamos narrar a política como uma dança, com coreografias e descompassos, sincronias e tropeços. Ou como uma luta, mas uma luta mais próxima da capoeira: feita de ataques e contra-ataques, rasteiras e mandingas, mas também de esquiva, diálogo e floreio. (No filme, escolhemos eventos naturais — ondas, marés, tempestades e tsunamis).
Se o poder está com quem conta a história, toda palavra é política. Para mudar a história, podemos mudar o narrador. Mas como tomar a palavra?
Em Women & Power, um dos melhores livros que já li, a classicista britânica Mary Beard resgata na história literária o silêncio imposto às mulheres – seja como autoras ou mesmo como personagens dentro das histórias.
Na Odisseia de Homero, Telêmaco pede à mãe, Penélope, que se cale dizendo: “o discurso é assunto de homens”. Ou seja: está lá, nas primeiras páginas escritas pelo “pai da narrativa ocidental”, que o poder de moldar o debate público pertence aos homens.
Nas Metamorfoses de Ovídio, Filomela é estuprada e tem a língua cortada para não poder denunciar o agressor. Sem voz, ela tece a história num tecido e manda para a irmã. Shakespeare retoma essa estrutura em Tito Andrônico. Estuprada, Lavínia tem não só a língua, como as mãos cortadas para que ela não possa sequer escrever. Consegue revelar os nomes dos algozes escrevendo com um galho segurado pela boca.

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