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Migraciones · May 30, 2025

[Migra #50] O que aprendi com Anthony Bourdain

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Natália Becattini · Migraciones

Foram muitas as noites mal dormidas em ônibus, aviões, aeroportos e rodoviárias. Muitos banhos gelados, inúmeras estradas intermináveis em que o avanço dos quilômetros é sentido no corpo. Aquela sensação de estar meio sentada, meio deitada na cadeira reclinável (às vezes nem isso), virando de um lado pro outro cada vez que machuca. Viajar é, antes de tudo, um rolê desconfortável pra burro.

A começar pelo trajeto. Tá, tem sim uma poesia na estrada, mas tem também aquela ansiedade característica de chegar, não porque o destino seja tudo que importa, mas para conseguir pelo amor de deus colocar o corpo na vertical — ou na horizontal — de verdade, de uma vez por todas.

Viajar nem sempre é belo; às vezes dói no sentido físico mesmo da palavra. Muitas vezes é irritante. Cansativo. Perigoso. Mas então, porque seguir?

Anthony Bourdain dizia: "Abra a sua mente, se levante do sofá, mova-se."

Adotei esse conselho instintivamente antes mesmo de ouvi-lo, assim que qualquer quantidade mínima de dinheiro começou a pingar em uma conta bancária vinculada ao meu CPF. Ao contrário de muitos de seus fãs, comecei a viajar não por influência dele, mas sem nunca ter ouvido seu nome, motivada por uma profunda curiosidade sobre o mundo e sobre o que era diferente daquilo que eu conhecia. Gosto de pensar que tínhamos um pouco em comum.

Um dia, quando a saudade bateu, procurei uma forma de reassistir seus programas, mas eles estavam desaparecidos dos streamings e a pirataria na internet andava em baixa (eu não tenho mais paciência para esperar 10 dias por um torrent que vai retornar um vírus e um filme pornô no final).

Me contentei lendo seus livros, tive uma fase obcecada com sua história, pensamentos, o jeito que enxergava a vida. Por fim, encontrei uma mina de ouro no Streamio e, recentemente, um canal do Youtube dedicado a republicar Parts Unknown (como esse conteúdo não cai por direitos autorais? Será o dono alguém da família do Bourdain? Alguém que comprou os direitos de exibição? Questionamentos!).

Me alegrei ao ver, em sua filosofia viajeira, inúmeros pontos de conexão com a minha. E outras coisas que absorvi.

Bourdain acreditava em viajar com espontaneidade, sem um roteiro rígido, para dar espaço para que os "felizes acidentes" acontecessem pelo caminho. O imprevisto, dizia, é um guia generoso.

Comida é uma ponte entre pessoas e, por consequência, entre culturas. E essa crença foi fio condutor de toda uma vida: as relações que criamos ao dividir um copo ou uma refeição.

Longe de ser chef ou crítica culinária, foram as viagens que me forçaram a deixar de ser a menina insuportável criada-com-danoninho-e-pouca-disposição-para-sair-da-zona-de-conforto-gastronômica para alguém que não recusa um novo prato porque entendi muito cedo que, depois da língua, a comida é a manifestação cultural mais marcante de um povo. Refeições sozinhas são capazes de contar histórias, explicar contextos e demonstrar afetos.

Tento cultivar — e reconheço que muitas vezes ainda falho miseravelmente nisso aqui — essa curiosidade humilde tão em falta nas viagens instagramáveis dos dias de hoje. Bourdain carregava um interesse genuíno, quase infantil, que o fazia prestar atenção aos detalhes e às pessoas com respeito, reconhecendo quão pouco sabia sobre o mundo.

Vivemos uma era de ruídos, e pouco tempo resta para calar a merda da boca (como ele diria) e absorver.

Tem mais coisas: a coragem de experimentar um caminho diferente, a empatia de enxergar através dos olhos do outro, o impulso de dizer "sim" mais vezes do que "não".

"A jornada te muda; ela deveria te mudar. Ela deixa marcas na sua memória, na sua consciência, no seu coração e no seu corpo. Você leva algo com você. Com sorte, você deixa algo para trás". - Anthony Bourdain

Porque também pode ser uma ferramenta de transformação e crescimento, viajar às vezes aperta onde dói. Mas o bom é que ela cura também.

  1. Coma o que te oferecerem. Mesmo que você não saiba o que é. Sobretudo se não souber o que é.

  2. Não vá ao restaurante com nota 5.0 no Google. O real está no 4.2, com fotos ruins e toalha de plástico.

  3. Se está tudo perfeito demais, você está em um teatro. Turismo controlado é entretenimento ensaiado para você.

  4. Viajar não é para confirmar suas ideias. É para você descobrir que talvez estivesse errado o tempo todo.

  5. Ouça mais do que fala. O viajante que aprende é aquele que se silencia de vez em quando.

  6. Converse com estranhos. Taxistas, cozinheiros, garçons… as pessoas vão te contar coisas que você não consegue descobrir perguntando ao Chat GPT.

  7. Não planeje tudo. Deixe espaço para o acaso. As melhores histórias não estavam no roteiro.

  8. Se não tolerar desconforto, fique em casa. A estrada tem lama, espera, improviso. A graça está nisso.

  9. Seja curioso, não julgador. Pare de comparar o mundo com o seu quintal. Tente desaprender o que você acha que sabe.

  10. Evite atrações turísticas em horário nobre. Vá pro mercado, pra esquina, pro boteco.

O que você aprendeu com Bourdain?

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Eu recalculei o valor gasto na minha volta ao mundo em 2011 com base na inflação e nos preços cobrados hoje em dia.

Spoiler: viajar realmente ficou mais caro :(

Dei um rolê por uma região muito importante do Rio de Janeiro, mas que quase foi completamente apagada da história. Conheça a Pequena África, uma região portuária que já foi o epicentro do tráfico de pessoas escravizadas nas Américas no século 18.

O lugar foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade por se tratar de um sítio de memória da diáspora africana e por sua importância para evitar que tragédias humanitárias desse tipo não se repitam.

…essas são as coisas que eu te contaria:

  • que estou indo embora do Rio de Janeiro na semana que vem, vou passar 02 unidades de dia em Belo Horizonte e de lá voo para Miami, para uma viagem de 20 dias nos Estados Unidos que vai passar também por Chicago e por um pedaço da Rota 66.

  • que estou na fase inicial de um novo projeto para o meu Canal no YouTube, que vai envolver a criação de webdocs sobre a cultura e os destinos pouco explorados do interior do Brasil. No momento, tenho apenas um roteiro e um sonho, mas estou correndo atrás de parcerias com marcas para ajudar a viabilizar tudo. Aliás, mandem publis!

  • e que, por tudo que falei antes e pelo tema da edição da newsletter, você deve ter percebido: EU ESTOU MORRENDO DE SAUDADE DA ESTRADA!

E você , o que você me contaria em um café? Me conte o que tem rondado sua cabeça ultimamente!

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Nos vemos na próxima,

Até lá!

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