rascunho #1
Um segredo pode ser algo pequeno, como um baú centenário enterrado no próprio quintal, ou monumental, como uma visita agendada de seres cósmicos. Dependendo do que forem, esses segredinhos ou segredões têm um potencial em comum: o de transformar a nossa perspectiva de humanidade… as possibilidades são infinitas.
Foi me inspirando nessa sensação de infinitas possibilidades que meu curta-metragem “Manjubeira” nasceu. E o que guarda mais possibilidades do que o céu?
O espaço sideral sempre foi uma fonte de fascinação para mim. Aos 8 anos, ganhei dos meus pais um kit de cientista como presente de natal, que vinha com um telescópio. Eu não desgrudava dele e ansiava pelas noites de lua na casa da minha avó para olhar o astro bem de perto. Nunca vou esquecer do primeiro momento em que o clarão brilhou no meu olho, preenchendo todo o visor: foi mágico! A definição da imagem não era exata, mas a experiência de me aproximar de algo tão colossal e inexplicável como a lua, mesmo que por um borrão brilhante, me marcou para sempre.
Tem algo de intrigante no infinito: ele é pura interrogação. Não importa o quanto nossos instrumentos se aproximem, não importa quantos dados acumulemos… o potencial de mistérios é inesgotável. Lá, no enorme espaço vazio, a imaginação é livre para mirabolar todas as teorias e possibilidades. Como as perguntas geralmente nos levam mais longe do que as respostas, o escuro do céu seguirá nos provocando por milênios.
Adivinha qual foi a primeira cena do curta? Sim, a Lua,
A simbologia lunar é múltipla… tateia o feminino, os ciclos férteis, o mar, a noite (e cada um desses, também com seus mistérios). Manjubeira (2026) narra a breve história de uma jovem que, após ver um cometa caindo do céu, decide segui-lo floresta adentro. Ao encontrá-lo, ela descobre um segredo…
E se esse segredo não estivesse numa criatura ou num objeto, mas no próprio tecido do tempo? O que faríamos com essa revelação? Criar Manjubeira foi a minha forma de explorar essa vertigem.
Há sempre um frio na barriga de estrear um novo filme: sigo no ateliê pensando no que eu deveria ter feito diferente, em como aquela cena/movimento poderia ser melhor. No entanto, na vida de quem faz arte, existe uma entidade implacável chamada prazo. Eu sempre fui meio rebelde com ela, mas ela é importante.
O prazo, diferentemente no céu da nossa imaginação, é como um muro: ele é sólido, instransponível, demarca limites e é concreto - literalmente.
Deixo meu “testemunho do muro” ao perfeccionistas do mundo: O ímpeto de fazer mais, de aperfeiçoar, de fazer melhor, vai continuar lá, mas ter prazos coloca uma barreira que vai além do seu “eu” e obriga seu ego a sossegar e aceitar a este fato: o perfeito demandaria tempo infinito. E nós não somos seres infinitos, pelo menos, não nossos corpos.
Como a concepção do que é “perfeito” é subjetiva e mora apenas na nossa imaginação ilimitada, acreditar que ela seria o ponto final da angústia é uma ilusão. Se algo precisa corresponder a uma mente ilimitada, então esse algo também nunca terá fim… e assim, a régua do “excelente“ continuará subindo ad infinitum. No fim do dia, respeitar um prazo é aceitar a nossa própria limitação e finitude para, finalmente, permitir que a obra exista no mundo real.
Com o tempo, aprendo a ceder. Aceito que o "possível" é a única condição para entregar minhas criações à existência.
Foi convivendo com prazos, tentando por vezes empurrar muros, que terminei meu terceiro curta-metragem de animação, Manjubeira. Nessa semana ele fez sua estreia internacional em Santiago, no Chile, no festival de cinema de animação “Chilemonos“, um dos maiores da América Latina. A categoria que estamos participando é a “Competição Latino-americana de Curtas-metragens“, que é um Oscar Qualifying.
Essa notícia me deixou muito feliz e satisfeita, pois me revelou algo que eu insisto em esquecer: mesmo o perfeccionismo não me dando o aval de que o trabalho era uma obra impecável, o filme, limitado e imperfeito do jeito que nasceu, é capaz de alçar voos altos.
E no final, não é isso que a gente quer da nossa arte?
Um brinde à criação terminada!
…e aos muros, que nos servem de poleiro para voar.
com afeto,
Nat
(Deixo aqui um link, se quiser saber mais sobre Manjubeira (2026))

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