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Natércia Soluça Lúcida · May 6, 2026

Mas você trabalha com o quê?

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Natércia Pontes · Natércia Soluça Lúcida

Podemos dizer que ser palhaço (profissão linda) tem mais dignidade que a minha. Pelo menos tem categoria no MEI. Nós, trabalhadores das imagens que se formam na cabeça, nas sensações que causamos nos leitores, nas reviravoltas das perspectivas sobre variados temas acerca do que é estar vivo e todas as questões sociológicas, biológicas, metafísicas etc., que a sua existência implica, nós não somos considerados pelo Estado como trabalhadores, mas como indivíduos com uma ocupação.

Quem não viu esse vídeo do grande escritor Lourenço Mutarelli e ficou com o coração esmigalhado nem gente é. Ainda mais se você for escritor. Recomendo ver e rever até que você não aguente mais. É brutal.

Assim como o Mutarelli, eu publico na maior e mais respeitada editora do país, da qual me orgulho e que sempre tratou meu trabalho com respeito ético, financeiro e possibilitou que meus livros chegassem em todas as livrarias do Brasil. Esse país continental e insular (ai, bela língua portuguesa quase nunca traduzida) que não tem UMA bolsa profissional para escritores e pouquíssimos (três?) prêmios literários relevantes. Ou seja, uma monumental privada de bar na Augusta para quem nasceu escritor.

Então nossa vida é assim: passamos anos, três, quatro, cinco anos escrevendo um livro. E aí, se tivermos sorte, publicamos por uma boa editora. Recebemos um adiantamento e, depois, de coberto esse adiantamento, recebemos 10% do valor total de cada livro vendido. Acho que de e-book o valor é de 25%.

Recebemos nossos royalties a cada três meses e, no meu caso, chega a ser um dinheiro bom. Mas como sobrevivemos enquanto estamos produzindo, pesquisando, lendo, TRABALHANDO, escrevendo um livro? NADA.

Então temos que como os palhaços e palhaças (que têm a sorte de ter uma categoria no MEI), dar cambalhotas na lida diária para pagar as contas ou mesmo sobreviver. (Trabalhos no ramo editorial também não resultam em grandes ganhos também. E roubam o tempo do nosso trabalho autoral como o Mutarelli bem sublinhou.)

E fica por assim mesmo. Não temos sindicato. Nem direitos. É uma classe trabalhadora no Brasil completamente jogada às moscas. Não é à toa que a pergunta que mas me fazem quando digo que sou escritora é: “Mas você trabalha com o quê?”.

Ver esse vídeo do Mutarelli foi como ir a um enterro. Aquele gosto travoso da morte. Também senti aquela raiva dos injustiçados, fervente, ácida, acre. Agressiva.

Participo de um grupo com mais de sessenta escritoras e estamos todas putas da vida. Esse debate foi propulsionado pela miséria que causa na alma do vídeo acima e instigado com fúria pela nossa maravilhosa escritora Jeovanna Vieira, que publica também da mesma casa editorial que a minha e a do Mutarelli. Não dá pra ser mais assim. Simplesmente não dá.

O projeto do MEC livros foi um passo muito importante para todos nós que escrevemos e para que o Brasil leia mais (A média de leitura de um brasileiro é de UM livro por ano e 90% desses livros é a Bíblia. Fontes tiradas de uma matéria que li, não sei qual, não sou jornalista.)

Todo mundo acha livro caro, mas é completamente impossível que as editoras brasileiras continuem de pé se baixarem o preço — o engraçado é que no mesmo valor você compra duas caipirinhas no bar e ninguém reclama.

Então é isso. Estamos putas (outra profissão admirável) da vida. E como não somos herdeiras vamos nos movimentar. Não dá para continuar mais esse desrespeito com a nossa profissão que, como as que citei aqui nesse texto vomitado, é também uma profissão digna e admirável. Ou alguém ousa dizer que não?

Clarice Lispector, a maior escritora brasileira, sim, (chegou com dois meses de idade no Brasil), também passou muito perrengue para trabalhar com o que ela fazia tão magistralmente. Nada mudou.

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Read the original on naterciapontes.substack.com

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