Estamos de volta. O retorno foi um desastre, sofri importunação sexual de homem com aspecto terrível sentado ao meu lado, durante a alta madrugada. Corri para as poltronas das minhas filhas e as abracei como se fosse um gordo casaco de neve, confusa e violada, admirando a cor cinza de São Paulo se acomodar no vitrô do ônibus, como nas pinturas do Rothko.
Ainda não me recuperei desse baque. Só tive pesadelos desde que cheguei em minha casa aconchegante. Em um deles alguém escondia na geladeira um pote de lápis de cor e canetinhas para que eu não os usasse. No sonho eu era uma criança no meu corpo de quarenta e seis anos.
A viagem foi muito bonita. E estou pensando em fazer uma novela com ela. Um incisivo da minha filha caiu durante nossas empreitadas, o Rio de Janeiro lambeu minha cara como se fosse um felino.
Na volta, minha gata não estranhou nosso cheiro.Ao contrário, nos farejava e investigava as malas avidamente como se dissesse: “que alegria tê-las de volta!". Voltei para o meu chuveiro, para meus cosméticos alinhados na pequena estante, a toalha felpuda, a água quente em jato forte massageando minhas costas. De vez em quando me vinha o polegar forte do homem do ônibus, cravando como uma garra o músculo aparente da minha coxa. Aumentei a temperatura do chuveiro.
Jantamos em família, dormi por longas horas e dias, processando a beleza e a feiúra que me foram apresentadas em vinte dias. Lembro agora de uma frase do meu pai sobre a diferença entre Caetano e Chico: "Chico fez o que era bonito. Caetano fez o que era feio e bonito". Talvez eu deva aceitar essa mão insidiosa, feia e malvada como parte do pacote.
No último dia vimos da Pedra do Leme uma tartaruga-marinha. Em algum momento esperávamos que ela emergisse para pegar ar, levantando a cabeça. Não demorou muito para que ela fosse à superfície buscar oxigênio. Todos em volta gritavam e aplaudiam enternecidos. Minhas filhas ficaram em chamas. O Rio de Janeiro é tão diferente de São Paulo, como Caetano, do Chico. Como o John é do Paul.
Essas dualidades: duas filhas, dois músicos, duas cidades, passado e presente, o Morro dos Dois Irmãos de fundo, logo se multiplica e se cuadruplica e assim se desdobra ao infinito me causando uma rajada de sensações. Não sei se consigo suportar e me enfio no edredom.
Agora estou aqui, em São Paulo, com um semestre inteiro pela frente. Minha gata preta enrodilhada ao lado, roubando meu calor. Acendo seu cigarro, depois de ela acender o meu. Ponho Black Hole Sun do Soundgarden para tocar.
A vida segue, os dentes caem, a barriga ronca, o corpo pede outro banho. É claro. E é feio e bonito também.
Pintura de Aleksandra Waliszewska
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