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Do tamanho do que vejo · Aug 17, 2025

Inventadário

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Munike Ávila · Do tamanho do que vejo

À mesa, nossa família composta ainda de três.

— Papai. Mamãe. Neném. — ela diz, apontando para o sujeito correspondente a cada palavra.

Então repete o gesto, agora utilizando abreviações.

— Pai. Mãe. Nem! — conclui o bebê de um ano, com um raciocínio lógico contrastante ao creme de espinafre em seu cabelo.

Nem. A forma enxuta de neném.

“Errando se aprende, é o antigo provérbio. O novo poderia dizer que errando se inventa.”

— Mãe, essa calça tá apertada aqui no pulso da barriga. — ela disse, apontando para sua cintura.

Sorri diante da escolha inesperada. Pulso da barriga. Pois não seria a cintura também uma parte do corpo pulsante de vida, lugar que por vezes abriga outro corpo em crescimento? Gosto da palavra em italiano: vita. O termo para cintura é o mesmo usado para vida.

Quando as palavras carecem, há sempre um modo de se fazer entender. Ou melhor, de inventar novos modos.

“Muitos dos chamados “erros” das crianças, na verdade, são outra coisa: são criações autônomas, das quais se valem para assimilar uma realidade desconhecida. [...] Todas as crianças têm dessas invenções.”

Não é novidade que, em nossa casa, os idiomas se misturam nas conversas do dia a dia (mas, se você chegou neste espaço agora, escrevo bastante sobre viver entre línguas aqui). Nos apropriamos de palavras estrangeiras do cotidiano e as conjugamos em português. Começamos uma frase em uma língua e a terminamos em outra. Às vezes percebo minha filha usar três palavras seguidas de idiomas distintos: “mãe, prova1 a soffiare2 assim.”

Quem vive de uma língua só, escuta nossos diálogos com estranhamento. E, quando entra na nossa roda, pode passar por situações como esta:

— A Valentina está pedindo uma coisa, mas não sei em que língua é. Ela disse que quer um tal de Loleírru.

O questionamento partiu da minha mãe, ao passar um mês convivendo conosco.

Loleírru. O rolo vazio de papel higiênico. Se colocado em volta da boca, funciona como um megafone, e você pode cantarolar o canto tirolês “yoo-lee-ay-oo”, tal qual os alpinos no cume de uma montanha.

Diferente do que minha mãe imaginou, a palavra em questão não pertencia a nenhum dos idiomas falados em nossa casa. Era, na verdade, uma invenção da criança para nomear coisas ainda não contidas nos dicionários da língua portuguesa, italiana, sueca, inglesa, e provavelmente de muitas outras línguas.

“A imaginação da criança, estimulada a inventar palavras, aplicará seus instrumentos a todos os traços da experiência que desafiarão sua intervenção criativa.”

A primeira vez que presenciei tal façanha foi com o famoso Fazuto. Digo famoso pois muitos amigos lembram da história do dia em que minha filha me perguntou como se chamava um objeto e, na falta de uma resposta, logo o nomeou com uma naturalidade ímpar: “Vai se chamar Fazuto”.

Foi com essa mesma naturalidade que, ao olhar para a panqueca cozinhando na frigideira, me disse:

— Mãe, essa panqueca tá insupatulada.

Procurei no meu dicionário mental alguma palavra que fizesse sentido ao que acabara de ouvir. Quem sabe era alguma variação do italiano? Não. Era mesmo mais uma de suas invenções.

Insupatulado é quando a panqueca está cheia de bolinhas. — ela disse, convicta.

Realmente, deve ser raro (diria inexistente, mas não tenho fontes para provar tal dado) um idioma que contenha uma palavra específica que descreva uma panqueca cheia de bolinhas.

“A mente é uma só. Sua criatividade deve ser cultivada em todas as direções. [...] O uso livre de todas as possibilidades da língua representa apenas uma das direções em que a criança pode se expandir. Mas “tudo se mantém conectado”, como dizem os franceses.”

Dali em diante, o repertório de palavras inventadas foi se tornando mais extenso, a ponto de termos de catalogá-las. Criamos, então, o Inventadário: o inventário de palavras inventadas, com seus devidos significados e ilustrações da autora.

Ali constam palavras como (e aqui parafraseio a inventora):

Queda evial: é quando uma pessoa cai mas não se machuca.

Metenta: é mais que infinito e mais que 100. (E por que cem é uma quantidade grande, ao invés de corresponder a nada, já que “100” é como “sem”? Tipo “sem boné” é nenhum boné, entende? Não são muitos. É sem, nenhum, nada, noll3.)

Nunuco: é uma expressão que significa “vai maluco, vai!”

Luxa: o feminino de luxo. Homem de batão é luxo. Mulher de batão é luxa.

(Batão: batom, no sotaque misturado de minha filha)

“Um modo de tornar produtivas, em sentido fantástico, as palavras é deformá-las. As crianças fazem isso, por brincadeira: um jogo que tem um conteúdo muito sério, porque as ajuda a explorar as possibilidades das palavras, a dominá-las, forçando-as a declinações inéditas; estimula sua liberdade como “falantes”, com direito às suas palavras pessoais; e incentiva nelas o anticonformismo.”

— Olha mãe! Uma juba de leão! — ela disse, em meio ao gramado florido com pétalas amarelas.
— Você quis dizer “dente-de-leão”?
— Não. Quis dizer juba mesmo. Olha para essa flor, mãe. Não se parece em nada com um dente-de-leão. Parece mesmo é uma juba: amarelada, grande, contornando o miolo.

Olha, mãe.

Olhar para além do que nos é costumeiro. Estranhar as palavras e não usá-las de forma mecânica. Conviver com uma criança anticonformista, como bem descreve Gianni Rodari, me faz aprender mais sobre o mundo ao meu redor. Por exemplo, o nome “dente-de-leão” faz referência às folhas dentadas da planta, e não à flor em si.

Desaprendo aos poucos para, então, reaprender.

Aprendemos juntas.

““Criatividade” é sinônimo de “pensamento divergente”, ou seja, a capacidade de quebrar continuamente o molde da experiência. Uma mente “criativa” é aquela que está sempre trabalhando, sempre fazendo perguntas, descobrindo problemas onde outros encontram respostas satisfatórias, [...] que rejeita o codificado, que retrabalha objetos e conceitos sem se deixar inibir pelo conformismo.”

Procuro a palavra para o que vem me atravessando: a saudade do momento presente. O exato instante em que meu filho mais novo ri doces gargalhadas enquanto a mais velha diz que me ama nas situações mais ridículas, como enquanto faço xixi.

Uma mistura de querer apressar o tempo só para ter de volta cinco horas seguidas de sono (o luxo da luxa!) e, concomitantemente, pará-lo no instante em que ele me acaricia com suas mãozinhas enquanto é amamentado; no momento em que a vejo alcançar o interruptor de luz sem mais ficar na ponta dos pés.

Perguntei a ela, então, que nome dar a essa sensação.

— É fácil, mãe. Isso se chama Pitilupe.

É fácil, mãe.

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As citações utilizadas nesta edição foram retiradas do livro “Grammatica della fantasia ”, de Gianni Rodari. Em português aqui.

1

Do sueco “tentar”. Apesar de ter a mesma grafia da palavra italiana, a pronuncia é diferente.

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Read the original on munikeavila.substack.com

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