Os sapatos - quero dizer, tênis - que atravessam meu caminho tem uma coisa em comum: as solas. Elevadas, feitas de EVA, típicas de tênis ortopédicos.
Quem os usa também compartilha de outra semelhança: a idade. Senhores e senhoras com mais de sessenta anos. Meu pai tem sessenta anos.
Poderia me sentir um peixe fora d’água, mas não me surpreendo em nada. Estamos aqui para ver uma senhora de quase oitenta anos cantar.
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Aconteceu há uns bons doze anos atrás (o tempo voa mesmo). Eu e meu irmão éramos provavelmente as pessoas mais jovens na platéia. E quem se importa? Caiu um temporal em nossas cabeças, motivo para venderem camisetas em tempo recorde. O show começou sem chuva e com a grande maioria do público vestindo camisetas que estampavam “Neil Young & Crazy Horse”. A minha segue no armário depois de muitas mudanças de endereço.
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Mães acompanhando as suas filhas, ou seriam filhas acompanhando as suas mães? Uma garota gótica, um velho com cabelo estilo chitãozinho e xororó, senhoras de cabelos longos, óculos e jeans customizados. Tem espaço pra todo mundo no teatro. E cada um tem seus motivos para enfrentar a chuva que não cessa, e estar aqui agora.
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Eu tinha uns quatorze anos quando a conheci. Primeiramente através da música. Aquela voz grave, potente. Um som cru. A madrinha do punk, chamavam.
Ela estampava todas as colagens que eu fazia. Escrevia frases de suas letras nas minhas camisetas. Ela inteira na capa de um caderno que usava para escrever - os cabelos negros soltos, o corpo magro vestindo uma camiseta branca surrada, jeans dobrados no tornozelo.
Estampava a capa de caderno do colégio, colada com papel contact transparente. Microfone na mão, ajoelhada no palco, calças pretas, na camiseta “fuck the clock”.
Uma vez um garoto me perguntou quem era. Respondi. “Não conheço”, ele disse. Mais tarde voltou dizendo que “ela era casada com o Fred Sonic Smith, sabia?”. Obvio que sabia. “Então nem preciso ouvir pra saber que o som dela deve ser bom”.
Homens definindo mulheres pelos seus parceiros. Que preguiça.
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Os livros dela vieram depois, já na época da faculdade. Just kids, M Train e agora o mais recente, ainda na minha lista de leitura, Pão dos Anjos.
Gosto de sua escrita íntima e sem firulas. Mas nada faz meu coração pulsar mais do que ouvir sua voz áspera, crua, gritando GLOOOOORIA, G-L-O-R-I-A.
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MC5, Dead boys, Blondie, Ramones, New York Dolls, The Clash, The Stooges, Velvet Underground, Bowie, Patti Smith. Eu nunca veria esses caras de perto. Eles jamais pisariam no sul do Brasil, estavam muito velhos ou já estavam mortos.
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Engraçado ver um show desses em um teatro, cada qual com seu lugar devidamente marcado. A vista é muito melhor, devo admitir, do que competir com rodas punks e moshs, sangue e suor. Lembro dos shows internacionais, que aconteciam a um ônibus de distância, em que arrastei meu irmão. Social Distortion, X, Bad Religion, Millencolin, Pearl Jam. A um certo ponto ele sempre me deixava subir em sua cacunda já que eu sou uma nanica de 1,56 e ele tem 30cm a mais do que eu. (Sim, temos os mesmos pais, a genética não foi generosa comigo nesse quesito).
Penso que, quem sabe, a maioria desses senhores com tênis de sola ortopédicas já bateu cabeça, mergulhou na multidão, pulou até cansar ao som dela. Quem sabe no CBGB’s, quando minha mãe ainda estava nascendo.
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Do meu lugar vejo umas cinco gerações diferentes no mesmo teatro. De jovens hipsters a senhoras adornadas de jóias. De velhos punks a adultos com boné e jaqueta esportiva. Um senhor de óculos de sol (?) e rabo de cavalo. Uma senhora com um chapéu preto redondo, como o que Patti costumava vestir. Uma mulher com a camisa do Black Flag e uma garota com óculos fundo de garrafa. Um jovem asiático com fones pendurados no pescoço.
Do meu lado, mais uma mãe e sua filha. Será que um dia terei o prazer de levar minha cria para o show de alguma banda dos anos noventa?
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Semana passada estávamos em um parque de diversões, eu e minha filha, e fomos num brinquedo de queda-livre repetidas vezes. Ela dizia que gostava da sensação que sentia na barriga. “Parece que tem algo que sobe, você sente mãe?”
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Dez minutos para o show. Eu sinto.
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Ela entra no palco. Jeans dobrado no tornozelo, camiseta branca, colete preto, blazer preto e as botinas de couro. Os longos cabelos soltos, agora brancos. E de repente, ela não é mais a simpática senhorinha que posta vídeos no Substack sobre seus poetas preferidos, seu dia a dia, suas andanças. Ela agora é a garota com a voz potente, grave, que remexe o corpo no palco e conta histórias sobre suas canções de 78.
“Por favor, quem está cuidando da iluminação, poderia deixar tudo mais claro? Eu gosto de ver para quem estou cantando”.
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Lembrei de Neil Young, com mais de setenta anos, pedindo pra uma pessoa em frente ao palco se retirar, se ela estava ali apenas para ficar mexendo em seu celular.
O que esses shows tem em comum é que quem está no palco não dá a mínima para figurinos extravagantes, telões gigantescos, pirotecnias e o caralho a quatro.
Existem apenas os membros da banda e seus instrumentos. Eles estão ali pra fazer o que sabem, o que gostam: música.
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Patti dança no meio do palco ao som de Dancing Barefoot.
Berra no microfone,
“Are you hungry???”
antes de cantar Summer Cannibals.
Apoia seu pé direito na caixa de som e segura o pedestal ao som de Fire of Unknown Origin.
Conta a história de como escreveu
Because the Night,
enquanto esperava Fred, seu grande amor, ligar pra ela no telefone.
Ergue o punho e chama a galera pra cantar junto,
“People have the power!”.
Sua banda faz uma jam do caralho enquanto ela descansa por uns minutos sentada em uma cadeira.
Afinal, ela tem quase oitenta anos.
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O brilho do celular do senhor à minha frente me distrai por um segundo. Ele passa o dedo na tela revendo as fotos que acabara de bater, borrões. De repente, a foto de um remédio, o que o faz desligar o aparelho e voltar a assistir o show.
É como se aqui tivéssemos permissão para deixar para trás quem somos. Nem que por duas horas.
Quem sabe esse senhor careca, de óculos e camisa flanela é um jovem que viveu grandes amores nos anos setenta, desfilando sem camiseta e com longos cabelos pela rua. A mulher com a camisa do Black Flag e um rabo de cavalo preto é uma adolescente que trocava a escola pelos shows de punk. O garoto asiático com fones de ouvido, óculos de grau e bolsa a tiracolo é um nerd incompreendido pelos amigos. E essa mãe imigrante de calças pretas e cabelos curtos é uma garota de quatorze anos que está aprendendo a tocar guitarra e escuta bandas que ela nunca vai poder ver ao vivo, pois, você sabe, eles não irão ao sul do Brasil, estão muito velhos ou já estão mortos.
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Acontece que nem todos morreram. Patti está viva.
Mais viva do que nunca.
Esse texto foi escrito em parte antes do show começar, em parte pós show sentada no metrô a caminho de casa. Por isso, pode conter erros ortográficos. Sou apenas uma humana - uma humana muito feliz neste momento :)
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