A imigração tem um jeito curioso de redesenhar o mapa dos nossos afetos. Tenho um lar longe de casa, feito por gente que nunca pisou na minha terra em Santa Catarina. Eu tampouco pisei em Goiânia. Nunca visitei Brasília. E, apesar de ter ido muitas vezes a São Paulo, não saberia encontrar a casa dos amigos na Zona Norte sem a ajuda de um mapa ou de um Uber.
No entanto, aqui estamos, reunidos em volta da mesa enquanto as crianças brincam com a porta do quarto fechada. Deveria espiar pra saber se estão vivas?
As risadas altas atestam que sim. O quarto deve estar uma bagunça, mas com isso lidamos depois.
Há coisas mais urgentes agora.
Como comer o último pedaço da sobremesa da Fê, antes que acabe. Ela sempre prepara ótimas sobremesas. Vão muito bem com o café que eu compro do pai de uma coleguinha da escolinha. Brasileiro, claro. O café.
Outro dia eu e Vale fizemos dedinho de goiabada, aqueles biscoitinhos enrolados com o doce dentro. Foi a primeira tentativa e alguns abriram, mas o gosto ficou como eu queria: sabor de biscoito de padoca. Cheirinho de Brasil pela cozinha inteira. Comemos tudo de uma vez só.
Mandei um saquinho pra Fê. Era um jeito de dar um abraço de longe. A neve caía forte, estava até os joelhos. Fiquei em casa com o bebê enquanto o marido levava nossa filha mais velha para brincar de descer morrinhos de neve com o trenó.
Foi a filha da Fê quem chamou. Minha filha diz que elas são irmãs. E por isso agora ambas têm dois pais e duas mães. Ela até desenha a família completa – papai, mamãe, maninho, ela e a Rafa, sua irmã mais velha por parte de amigos.
Esses que estão aqui agora se abrigando do frio, compartilhando causos, vinho, comida, café, sobremesa. Sorrindo com os lábios, enquanto os olhos represam o mar, pois
há coisas mais urgentes agora.
Como entender o que significa mistura. Pros paulistas, acompanhamento. Pros goianos, o que acompanha o arroz com feijão. Pros gaúchos, nada. Pra mim também não. Mistura é qualquer coisa misturada.
Uma vez minha filha saiu correndo exclamando “tô apurada!!” e, salvo meu marido gaúcho, ninguém mais entendeu. “Apurado pra mim, só urna eletrônica”, riam. É quando se está com muita vontade de fazer xixi, explicamos.
E Candida? Parece mais doença do que água sanitária. No sul a gente chama de Qiboa. Os goianos me entendem. E o parabéns? É big, é big ou é pique, é pique? Eu não vou nem entrar no mérito da torrada versus misto-quente.
Minha família entenderia que torrada é apenas um pão torrado, afinal a gente fala o mesmo português. Foi com eles que aprendi a falar do jeito que falo. Ninguém pergunta o que significa tal coisa. Por outro lado, certas vivências são difíceis de compreender. Por exemplo, nenhum deles entende o que é ser imigrante.
Já nesse círculo, que volta e meia parece uma torre de babel brasileira, a gente pode não entender todas as minúcias do vocabulário alheio, mas sabe muito bem o que significa ir atrás de visto, casa, emprego, escola, banco, médico, papeladas e papeladas em uma língua que nenhum de nós ainda domina. Salvo as crianças, é claro.
Por falar nelas, ainda estão aqui? Espio e as pego sentadas na cama, lendo um livro em português. Contemplo o momento por um décimo de segundo e volto para a mesa.
Há coisas mais urgentes agora.
Como trocar a fralda do bebê. Ele pula de colo em colo enquanto rouba sorrisos despretensiosos e eu passo a tarde descansando as costas e interagindo com adultos da minha faixa etária. Não fosse a presença deste grupo, quem sabe não teria bebê nenhum.
Uma família feita de gente que nunca pisou na minha terra. Eu tampouco saberia dizer exatamente de onde vêm. No entanto, aqui estamos, reunidos em volta da mesa, agora junto das crianças, que comem rapidamente mais um prato de macarronada para logo voltarem a brincar.
Há coisas mais urgentes agora.
Como lembrar do porquê estamos aqui, juntos.
Contemplar o silêncio. Dar um abraço apertado. Dizer adeus e aguardar pelo próximo almoço.
Esperando uma mesa farta.
De amor. De gente.
De vida.
No posts

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.