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Do tamanho do que vejo · Oct 24, 2025

Bloco de notas

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Munike Ávila · Do tamanho do que vejo

Um bloco de notas de 2017 surge em meio a uma mudança corrida.

Das tantas coisas ainda para encaixotar (segundo minhas contas, praticamente a casa inteira), começo pelo armário atrás da porta do porão. Livros de modelagem, cadernos, réguas e pesados fichários contendo quase dez anos de docência. Brasil. Quênia. Itália. Uma parte da vida guardada em prateleiras.

No mochilão que trouxe ao sair do Brasil em 2016, fiz questão de colocar uma régua, na esperança de poder continuar trabalhando na área em que me especializei.

Depois de Israel, Jordânia, Bélgica, Praga, a régua foi útil para dar aulas de modelagem em Milão. Foi lá que comprei o bloco de notas, para usar no trabalho. 

Notas sobre reuniões, métodos de ensino, e ferramentas do Cad se encontram misturadas a relatos de viagem, rascunhos de textos e uma tentativa fracassada de aprender mandarim.

Notas misturadas em italiano e português (como no bloco todo)

Rio da minha própria cara. Agora páginas de outros caderninhos espalhados pela casa revelam minha tentativa frustrada de aprender sueco. Não sei dizer qual o mais difícil. 

Sento no chão no porão e continuo folheando o tal bloco, ignorando o único momento que tive na semana para começar a encaixotar alguma coisa. Mando a ânsia pra putaquepariu.

Me dou cinco minutos com o velho achado.

Um cálculo de despesas – não sei se para pagar contas ou gastar em viagem – seguido de um rascunho de verso, 

que dias depois editei e escrevi no verso de uma foto para o marido:

Lar

É seu afago, é meu olhar.

São as fotos na parede ainda para completar.

Somos eu e você em qualquer lugar.

Não marquei a data. Mas lembro bem do local. O terceiro apartamento na Itália, o qual moramos por um ano, antes de nos mudarmos para outro por mais três. A vizinha emprestou o carro para a mudança. Lembro de seus dentes tortos e o cheiro de cigarro empregnado no corpo. Ela sempre fumava em seu balcone

Metade da mudança a gente fez a pé. Até então não tínhamos mais que duas mochilas, os porta-retratos, umas panelas e louças apenas para dois.

Os porta-retratos vieram no deslocamento da Itália para a Suécia. Eles também decoraram a parede do primeiro apartamento em Estocolmo. Fotos do Mar Morto, das Dolomitas, de Chernobyl, de Cuba – nossa primeira viagem juntos. 

Fotos batidas por nós. Pois na mochila também trouxemos nossas câmeras e o mútuo desejo de registrar o que víamos. Do céu estrelado no deserto à montanhas nevadas. Palácios e casas abandonadas. O mar e a lama. 

Páginas de estudos de fotografia marcados com um post it amarelo. Diafragma: + aberto = + luz; + fechado = - luz.  Me pego pensando que nossos registros decoram casas de quem conheço e desconheço. Que maluco isso. 

Boa Viagem!” – essa letra não é minha, é dele. Sabe-se lá para onde eu estava indo.

Encontro notas sobre viagens passadas e presentes de 2017. Um inventário para o que, mais tarde, passou a ser um projeto de escrita sobre viagem. Foram anos viajando e escrevendo. Fico embasbacada com a quantidade de informações e palavras que produzia sobre viagem (por puro prazer, vale lembrar) antes do chatgpt e seus iguais. Mas lembro que, por mais que eles possam produzir um texto com mil e uma informações sobre tal lugar, nunca pisarão no solo, sentirão o aroma, degustarão da comida e viverão imprevistos ou improvisos. Ando farta do robô querendo se meter na minha escrita, enquanto digito essas palavras na tela escura do celular, “how can I help you today?”, encaixotando tralhas enquanto dedico meu tempo à escrita, que tal?, “Do you want me to polish this sentence?”, não, mas me seria de grande ajuda se você polisse o chão da cozinha com restos de comida do almoço, seu maldit…Deixo esse assunto de IA para um outro dia e 

volto ao bloco.

O folheio como quem invade a vida de outra pessoa.

Um email escrito…

à mão???

No tempo onde ninguém mais digita um e-mail completo é até tragicômico pensar que eu tinha paciência para escrevê-lo em um pedaço de papel. Provavelmente o fiz no trem entre casa e trabalho, para não deixar as informações escaparem da mente. As palavras são danadas feito criança que aprendeu a correr, sempre escapam.

Um possível itinerário pela transiberiana. Se peguei gosto por flanar, veio dos meus pais, que agora tem motivos a mais para viajar. A gente sempre se encontra pelo caminho. Em 2018, o ponto de encontro foi a Rússia. Pegamos a transiberiana e descemos numa cidadezinha onde ninguém falava inglês. Não fosse o policial nos explicar, em russo misturado com mímica, que trem pegar para o próximo destino, provavelmente estaríamos até agora plantados na estação. Com seu bigode loiro e chapéuzinho azul, ele falava e falava e falava, a gente não entendia bulhufas, e ele sorria e continuava a falar enquanto esperávamos o trem chegar. Fez questão de nos ver entrar no vagão certo e acenou um tchauzinho simpático. Será que ele lembra de nós?

O endereço da amiga que mora em São Paulo e me conhece desde os 12 anos. Ela também se mudou. Da nossa cidade no sul para a grande capital. A gente também mudou. Me tornei mãe; ela, dançarina de K-pop. O endereço no bloco está desatualizado. Agora ela mora em outro bairro. O que será que ela encontra quando tem de colocar sua vida dentro de caixas?

Me deparo com outro rascunho de texto, fruto de observações. “A troca cultural tem como base o movimento”.

Troquei paredes coloridas pelo verde das florestas. Adoro a natureza selvagem de Estocolmo, mas ao navegar pelo centro da cidade, sinto falta dos grafites coloridos de Milão. 

Esse rascunho nunca foi lapidado. Nasceu e morreu nesse bloco. “Segundo o tchakabum, o movimento é sexy”. É por isso que um bom escritor nunca publica a primeira merda que vem a cabeça. Longe de mim dizer que sou boa escritora, mas os bloquinhos de notas espalhados pela casa – na cômoda da sala, nas gavetas do quarto, entre as minhas camisetas, em cima da mesa do escritório, no parapeito da janela da cozinha – não mentem: escrever faz parte de quem sou.

Continuo a folhear. Entre rabiscos feitos com lapiseira 0.7 e folhas em branco, um pouco de cor. Nossas mãos agora são três. A minha, a dele e a dela. A gente cabe um dentro do outro. 

Depois disso, o bloco veio parar nesse armário no porão junto às coisas de modelagem, por pensar ter apenas notas de um trabalho o qual não exerço mais. Veja só, que surpresa. Tanta vida nessas páginas amareladas e empoeiradas. 

Ponderei se jogá-lo no lixo ou guardá-lo no novo apartamento. Há páginas ainda a serem preenchidas. Há uma nova mãozinha para contornar. Há um mundo de memórias que ainda vamos criar.

No fundo, é isso,

meu Lar.

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Lar

É seu afago, é meu olhar.

São os brinquedos pela casa a se espalhar.

Somos nós no nosso apartamento pois mudar dá muito trabalho em qualquer lugar.

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Read the original on munikeavila.substack.com

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