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Multi Maternidade · Aug 11, 2025

#7 O que poderia ter sido

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Multi Maternidade · Multi Maternidade

Nem toda relação entre enteado e padrasto ou madrasta vira vínculo. E isso, por si só, não é um problema. Mas existe um ponto que quase ninguém fala: quando não há construção, quando não se tenta, o que fica também é uma marca. A ausência também conta uma história.

E não é uma marca gritante, cheia de cenas dramáticas. Às vezes é só um silêncio que vai se instalando. Uma presença física sem presença emocional. Uma indiferença que, aos poucos, deixa de incomodar e passa a ser o normal.

Estar presente não é só morar junto, fazer refeições em família ou estar nas mesmas fotos. É se permitir ver aquela criança ou adolescente como alguém com quem você pode criar algo único. Não precisa ser amor de pai ou mãe, e, na maioria das vezes, não vai ser mesmo. Mas pode ser afeto. Pode ser parceria. Pode ser cuidado. Pode ser referência. Pode ser confiança. Pode ser mais um lugar seguro no mundo.

E, para isso, é preciso insistir. Insistir mesmo quando a resposta é fria. Insistir mesmo quando parece que não há espaço. Insistir mesmo que existam diferenças que você não sabe como lidar. Insistir mesmo que a aproximação aconteça em passos pequenos e lentos. E lembrar que você é o adulto da relação. Você é quem já teve mais vivências, já passou por mais aprendizados, já entendeu que as relações raramente nascem prontas. Você pode guiar esse caminho com maturidade, paciência e intencionalidade, mesmo que o outro lado ainda não saiba como chegar até você.

Essa insistência não é só do padrasto ou da madrasta. É também dos pais. É o pai e a mãe que, sem forçar, mantêm viva a lembrança de que existe um espaço para essa relação crescer. Que incentivam encontros, que celebram pequenas aproximações, que lembram às duas partes que existe ali uma oportunidade.

Quando isso não acontece, o que sobra é uma relação distante. (Será mesmo que pode ser chamada de relação?) E, quase sempre, a distância do padrasto ou madrasta acaba virando também distância do pai ou da mãe. Não por vingança, não por birra, mas por desconforto. Desconforto de estar em um ambiente onde não se sente parte. De perceber que a própria presença é tolerada, mas não desejada. E, naturalmente, buscar mais conforto em outro lugar, seja na casa de um amigo, na família do outro pai ou mãe, nos sogros, ou até na própria solidão, que às vezes é mais acolhedora do que estar onde não se é bem-vindo.

Algumas histórias não acabam mal. Elas simplesmente não começam. E o silêncio do que não foi vivido é, muitas vezes, mais pesado do que qualquer despedida.

E pesa ainda mais quando o tempo passa. Porque aqueles que um dia foram crianças ou adolescentes, crescem. E crescem rápido. E aqui existe uma verdade que muita gente percebe tarde demais: o marido ou a esposa são, sim, o centro de um casamento saudável. Mas filho é filho para sempre. É eterno. E se a ponte não foi construída enquanto havia convivência, não espere que ela se erga sozinha no futuro. E aí, o afastamento com o pai ou mãe não é uma ruptura brusca, é uma soma de pequenas ausências. É não passar mais tanto tempo juntos. É não ligar tanto. É preferir os encontros em lugares neutros, do que na casa que era para ser lar. É se acostumar a amar de longe, porque de perto nunca foi confortável.

E aí eu pergunto, pai e mãe: é assim que você se imagina no futuro? Não participando tanto da vida dos seus netos? Não tendo a família inteira reunida nas datas comemorativas? Não sendo chamado para aquele almoço de domingo sem motivo especial? Não recebendo ligações para contar as novidades antes que elas se espalhem?

Porque quando um padrasto ou madrasta não se aproxima, não é só a relação deles que deixa de existir. Com o tempo, essa distância respinga em você. E, de forma silenciosa, você também deixa de ser parte. Os momentos deixam de acontecer. As conversas diminuem. A família que poderia se reunir, já não se reúne. E você começa a perceber que perdeu muito mais do que imaginava, e não tem como voltar atrás.

E tem uma reflexão que serve para todos: se um dia tudo ruir, seus filhos continuarão sendo seus filhos, mas isso não garante que estarão tão próximos quanto você gostaria. A forma como você constrói (ou deixa de construir) as relações ao redor deles hoje pode definir a distância de amanhã.

E, para o padrasto ou madrasta, a pergunta é direta: se o seu filho fosse tratado por um padrasto da mesma forma que você tratou seus enteados? Isso te assustaria ou te confortaria?

Pais e mães, não deixem que portas se fechem sem serem abertas. Padrastos e madrastas, não deixem que a oportunidade passe sem ser vivida.

Porque o que não foi também deixa marca. E, muitas vezes, essa marca dura para sempre.

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