A Flora, minha bebê de 1 ano, está com bronquiolite.
Enquanto tento conciliar tudo: bombinha, febre, lavagem nasal, agenda, entrevistas, apresentação, respostas, colo, e uma tentativa de manter a cabeça funcionando, lembrei de um sentimento antigo. Um incômodo que me acompanhou durante anos, desde a Bella, minha primeira filha que já tem 8 anos.
Tenho certeza que você vai se identificar.
Estou falando do medo de faltar. Medo de demonstrar que os problemas de casa podem afetar o trabalho, medo de misturar a vida pessoal com a vida profissional. Medo esse alimentado por uma cultura que, durante muito tempo, confundiu presença com performance, silêncio com profissionalismo, exaustão com mérito.
Mesmo naquela época, minha liderança nunca reclamou das poucas vezes que eu tive que faltar ou chegar mais tarde. Mas essa não era a regra. Era exceção. A verdade é que o ambiente profissional, de forma geral, não sabia e não queria lidar com isso.
O problema não era só meu. Era de uma lógica inteira.
Colaboradores, mães, pais, cuidadores. Gente que aprendeu a trabalhar como se o corpo fosse uma máquina. Que se acostumou a colocar o emocional no mudo. Que viveu, e muitas vezes ainda vive, com a sensação de que presença física é a principal régua de comprometimento.
Por muito tempo, bastava surgir um imprevisto para o coração acelerar. Só de pensar em pedir um dia, uma manhã, uma pausa, a culpa já se adiantava.
Mesmo com justificativa. Mesmo com motivo. Mesmo quando era por um filho doente.
Lembro de passar madrugadas na emergência com a minha filha mais velha, a Bella, ainda bebê. Ela tinha problemas respiratórios com frequência. E, no dia seguinte, lá estava eu, no trabalho como se nada tivesse acontecido.
Como se o medo, o cansaço, o nó na garganta não fizessem parte do pacote. Como se parar fosse mais grave do que seguir se arrastando.
A pandemia, com todo seu caos, quebrou muitas dessas certezas.
Escancarou desigualdades, sobrecargas, e também abriu espaço pra uma nova conversa. A do trabalho mais humano. Mais adaptável. Mais verdadeiro.
Aprendemos que dá, sim, pra fazer diferente.
Que um profissional comprometido pode ter um bebê no colo. Que uma ausência pode ser um ato de cuidado, não de negligência.
Hoje, com a Flora nos braços, percebo o quanto amadurecemos.
Não porque ficou fácil. Mas porque ficou mais claro. Mais claro que não existe produtividade que valha mais do que saúde. Mais claro que ninguém é insubstituível no trabalho, mas na vida de um filho, é.
Ainda bem que mudamos.
Ainda bem que, cada vez mais, a pausa tem sido vista como parte do processo, e não como ameaça.
Ainda bem que hoje é possível viver o trabalho com mais verdade, e menos medo.
E se você é líder, ainda em 2025, acredita que ausência é sinônimo de ausência de responsabilidade, talvez seja hora de repensar.
Porque cuidar também é parte da entrega.
E liderar também é saber acolher o que não está nos prazos: a vida como ela é.
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