Bem-vindos de volta aO Sarcasmo de Sexta. O vosso momento semanal de sanidade num mundo que parece gerido por pacientes de um manicómio em dia de folga do psiquiatra. Hoje, meus caros, vamos falar de uma das tradições mais estupidamente normalizadas da nossa sociedade.
Duas vezes por ano, um terço dos países do mundo decide, num acto de puro masoquismo colectivo, impor a si próprio um jetlag artificial (caro na saúde, na sanidade e na lógica). Portugal inclui-se no rol dos… masoquistas!
Atrasamos e adiantamos os relógios (e andamos uma semana a tentar perceber como raio se acerta a hora no mostrador do forno) enquanto nos queixamos de sono, de mau humor e de dores de cabeça.
E porquê? Se perguntares ao cidadão comum na rua, ele vai-te atirar com a lengalenga mastigada que a sociedade lhe injetou no cérebro: “Ah, é para poupar energia... e é por causa das criancinhas que vão para a escola no escuro... e claro, pelos agricultores!”.
Deixem-me já rebentar a vossa bolha de ignorância. Não tem nada a ver com as crianças. E antes que os defensores da agricultura me ataquem nos comentários: os agricultores ODEIAM a mudança da hora. As vacas e as cebolas não usam relógios de pulso. As ovelhas e os tomates não sabem o que é a Hora de Greenwich. A natureza está-se absolutamente a borrifar para o mostrador do teu smartphone.
A história de como chegámos a esta parvoíce é uma lição magistral de como o ser humano é capaz de institucionalizar o egoísmo de meia dúzia de cromos.
Há quem culpe Benjamin Franklin. Em 1784, enquanto vivia em Paris, ele escreveu um texto onde calculava a cera de vela que os parisienses poupariam se levantassem o rabo da cama mais cedo. Só que o Franklin não sugeriu mudar as horas. Ele sugeriu (e preparem-se para rir) taxar quem fechasse as persianas e disparar canhões na rua para assustar e acordar os franceses de manhã cedo. Ele estava a ser apenas um troll de alto nível a gozar com os franceses (aliás, mania que ficou um pouco por todo o mundo).
A coisa começou a sério em 1895, na Nova Zelândia, com um senhor chamado George Hudson. Qual era a profunda necessidade social dele para mudar as leis do tempo? Ele era coleccionador de insectos. E estava chateadíssimo da silva porque, quando saía do emprego, já estava demasiado escuro para ele ir andar aos saltos no meio do mato com a sua rede de apanhar borboletas.
Mas a machadada final veio em 1907, pelas mãos de um britânico chamado William Willett. Um indivíduo que adorava jogar golfe. O lorde estava indignadíssimo porque o sol se punha antes de ele conseguir acabar os seus 18 buracos ao final do dia.
Leram bem isto? Nós mudamos o conceito do tempo, alteramos a biologia de milhões de pessoas, porque um caçador de insectos e um golfista inglês achavam que o planeta não estava alinhado com os seus hobbies. É um nível de arrogância absolutamente divinal.
Depois veio a Primeira Guerra Mundial, os alemães acharam que mudar a hora os faria poupar carvão (a matemática da História prova que não poupou), o resto do mundo foi atrás como ovelhas, e cá estamos nós, um século depois, presos a uma directiva inútil.
“Mas poupa energia!”, gritais do fundo da sala. Falso. Os estudos mais recentes já comprovaram até à exaustão que não há qualquer poupança real de energia.
Sabem o que é que a mudança da hora provoca de facto? A ciência (aquela coisa chata que muita gente ignora porque o cerebelo desligou há quinze anos) mostra que adiantar a hora causa um aumento de 6% no número de acidentes de viação fatais no dia seguinte. Provoca um salto de até 24% em ataques cardíacos nessa semana. Causa um pico assustador em acidentes de trabalho e dá cabo dos nossos ritmos circadianos (usem a IA para saberem o que é e o que vos faz).
Basicamente, os canhões do Benjamin Franklin para acordar a malta se calhar eram uma ideia bem mais saudável do que este atentado à saúde pública e à inteligência humana.
Isto, meus caros, é o que eu chamo de falta de literacia. Literacia histórica, digital e emocional. Nós aceitamos rituais que nos prejudicam simplesmente porque “sempre foi assim”. Deixamos de questionar. Desligamos a app “Cérebro” e aceitamos o desconforto porque o rebanho todo também o faz num méééé colectivo.
No meu podcast (e nas mentorias privadas que dou) o meu trabalho é exactamente este: desmontar estas heranças idiotas. Seja a mudança da hora ou as crenças limitantes que não te deixam evoluir em tantas áreas da vida. Se precisas que alguém te dispare um canhão metafórico para acordares para a vida, já sabes onde me encontrar.
E é por isso que este Substack é o vosso refúgio. O oásis de quem não tem medo de apontar o dedo à estupidez institucionalizada. Se gostas desta chapada de luva branca, apoia o projecto. Subscreve, partilha (mas só com quem sabe ler nas entrelinhas) e faz parte da tribo da Versão 2.0.
E agora, o palco é vosso na caixa de comentários aqui em baixo:
Qual foi a justificação mais imbecil que já ouviste alguém dar para defender a mudança da hora?
Bom fim-de-semana, e cuidado com o relógio do forno... esse nunca ninguém o acerta à primeira.

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