NEWS#55 - 04 JUL
Uso “atual” quando quero dizer agora. Tenho evitado usar “contemporâneo” de modo automático. Não porque a palavra esteja errada, mas porque o excesso de uso às vezes a esvazia. Ainda assim, há entre as duas palavras uma diferença que vale reter, porque é ela que organiza parte da minha leitura do design. Atual é aquilo que pertence ao agora. Contemporâneo é aquilo que, ao pertencer ao agora, consegue revelar algo mais profundo sobre ele. Uma peça, uma imagem, uma casa ou uma marca podem ser atuais porque acompanham o presente. Mas só se tornam contemporâneas quando ajudam a compreender as forças que organizam esse presente. No sentido que o filósofo italiano Giorgio Agamben deu ao termo, ser contemporâneo exige outro tipo de relação com o tempo: manter o olhar fixo na própria época e, ao mesmo tempo, guardar dela uma distância; enxergar não apenas sua luz, mas também sua parte obscura. Ser contemporâneo é ler o tempo, não apenas segui-lo. O atual informa. O contemporâneo interpreta. O atual responde ao presente. O contemporâneo revela o presente. A distinção não é semântica. Ela separa dois modos de projetar, comunicar e construir valor. Um acompanha: reproduz a tendência, ocupa a vitrine, responde ao briefing imediato, entrega o que o mercado já pediu. Esse design é atual. E tende a envelhecer rápido. O outro lê: observa o que muda antes de virar consenso, percebe o que ainda não foi nomeado e traduz esse sinal em projeto, decisão, linguagem, matéria e valor. Esse é contemporâneo. Talvez seja o único que interesse a quem precisa decidir antes do mercado. Nunca estivemos tão atualizados. Alertas, relatórios, tendências, imagens, crises, previsões e diagnósticos chegam o tempo todo. Tudo parece urgente. Tudo pede reação. Mas nem tudo que é novo revela uma mudança real. A inteligência artificial já não é apenas tecnologia. Atravessa trabalho, linguagem, autoria, confiança, educação, imagem e poder. A crise climática deixou de ser apenas pauta ambiental. Alcança matéria, território, habitação, alimento, seguro, logística e modos de viver. A desinformação não é apenas problema de mídia. É também uma crise de evidência, pertencimento e confiança pública. O presente deixou de ser uma sequência de novidades. Tornou-se um sistema de impactos cruzados. Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja o que está acontecendo agora. É o que, dentro do que acontece agora, merece permanecer como leitura. Há uma diferença entre informação e repertório. A informação circula. O repertório organiza. A informação explica um evento. O repertório permite reconhecer padrões, tensões e consequências. Com dados em excesso e atenção em disputa, a escassez não está mais no acesso. Está na capacidade de discernimento. É por isso que design não é ornamento nem vitrine. É uma infraestrutura de leitura do próprio tempo e, portanto, de construção de valor. Esta edição parte daí. Não do design como objeto, estilo ou tendência. Mas do design como forma de ler a atualidade. Porque o contemporâneo não é o novo. É o presente quando começa a revelar estrutura.
Há profissionais que tornam o design visível. Outros ajudam a entender por que ele importa. Mônica Cristina de Moura pertence a esse segundo grupo. Pesquisadora, professora da UNESP e autora de uma produção bibliográfica importante no campo do design, Mônica Moura é uma das vozes mais consistentes na formulação do design contemporâneo no Brasil. Não apenas por estudar o tema, mas por ter ajudado, ao longo de décadas, a construir um vocabulário crítico para pensá-lo, ensiná-lo e ampliá-lo. Seu lugar é raro: ela não trata o design como mercado, estilo ou tendência, mas como fenômeno cultural, social e político. Sua importância está menos na ideia de assinatura e mais na construção de pensamento. Ao articular teoria, crítica, memória, sustentabilidade, inclusão, autoria, tecnologia e cultura material, Mônica ajudou a formar uma leitura mais ampla do design brasileiro - uma leitura capaz de dialogar com questões que ultrapassam o país. No circuito acadêmico e de pesquisa, sua presença é consolidada. No campo internacional, sua atuação se dá sobretudo no eixo ibero-americano. Mas o ponto mais relevante talvez seja outro: os temas que ela trabalha são hoje globais. Como pensar o design em um presente saturado de informação? O que permanece? O que produz significado? Como memória, território e diferença podem orientar novas formas de projetar? Esta entrevista parte desse lugar. Não do design como objeto final, mas do design como forma de ler o tempo.
1 - Você construiu parte importante da sua reflexão em torno da ideia de design contemporâneo. O que torna o design realmente contemporâneo hoje: a tecnologia que utiliza, a linguagem que produz ou a capacidade de ler criticamente o tempo em que está inserido?
Realmente, o caminho da pesquisa e do ensino me levou a perceber e a me aprofundar na questão da contemporaneidade e do design contemporâneo, desenvolvendo disciplinas para graduação e pós-graduação a esse respeito há décadas, ainda quando não se falava sobre isso no Brasil. Quando eu assumi como docente do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Design na UNESP, FAAC, Câmpus de Bauru, tive a oportunidade de estruturar um laboratório de pesquisa, extensão e ensino em design contemporâneo, além de liderar o grupo de pesquisa com esse tema. E fico muito feliz de ver hoje o termo “design contemporâneo” mais disseminado e utilizado por muitas pessoas. O que torna o design realmente contemporâneo é a capacidade de o designer saber ler as mudanças que ocorrem e as que se pronunciam e afetam diretamente a sociedade, o ambiente, as relações humanas, sociais, culturais, políticas e econômicas. Ou seja, saber ler o tempo presente e prospectar o futuro próximo. E isso vai além do domínio técnico de ferramentas, tecnologias, processos e materiais. É saber observar o modo de vida das pessoas e de todo tipo de vida que habita ao nosso redor, no território próximo ou expandido. A partir dessa observação e da leitura crítica, chegar à tradução em projetos, produtos, sistemas e processos que atendam às questões contemporâneas, tais como: diversidade, inclusão, equidade, sustentabilidade, memória, autoria, artesanal, subjetividade e humanidade.
2 - Em muitos países, o design já entrou no campo das políticas públicas, da indústria, da inovação e da cultura. O que muda para uma sociedade quando o designer passa a ser reconhecido como agente de desenvolvimento - e não apenas como autor de formas?
Nos países onde o design é compreendido em sua abrangência e importância, os serviços públicos, a economia, o crescimento e muitos aspectos da amplitude dos significados do bem-estar e da qualidade de vida tornam-se palpáveis e presentes no cotidiano da maioria das pessoas ou dos cidadãos. Há muitos aspectos em que o design pode ser aplicado em um território. Se pensarmos em todas as áreas relacionadas ao sentido do que é comum, ou seja, para todos, elas deveriam envolver os profissionais de design. Seja para a atuação direta nos âmbitos culturais, políticos, sociais, econômicos, educacionais, comunitários, e poderíamos aqui listar muitos outros. Por outro lado, o design também deve estar presente nas esferas pessoais, privadas. Ou seja, o design está em tudo ao nosso redor. Além do âmbito do desenvolvimento, pois muitas vezes talvez seja necessário estagnar processos e tomar consciência a respeito dos limites, encontrando propostas que possam explorar a riqueza do simples e do des-envolver. Sendo assim, devemos tomar consciência do quanto a atuação em design está além da forma, pois o pensamento projetual envolve melhorias, aplicações, mudanças e novas propostas ou o redesenho de propostas existentes nos diversos campos do conhecimento.
3 - Como o design pode contribuir para o bem-estar das pessoas e do planeta sem reduzir essa responsabilidade a retórica sustentável?
Atuando com diversas propostas, sejam elas da preservação à inovação, e em diversas escalas. Afinal, o design pode e deve ser aplicado do micro ao macrocosmo, compreendendo as mudanças e as necessidades geradas por elas, bem como antecipando possibilidades para a melhoria da vida e não apenas das pessoas, mas de toda forma de vida que está ao nosso redor. A pandemia nos colocou, de modo trágico, diante dessa realidade. Entendendo o planeta como um sistema interligado de saberes tradicionais e altamente inovadores, que podem conviver simultaneamente, na compreensão das diferenças e na valorização do diferente. Buscando a conscientização político-social e cultural. Questionando as imposições da massificação, sejam elas de informação, produção ou modismos. Sem dúvida, a sustentabilidade ou o design para a sustentabilidade deve ir muito além da retórica, da superficialidade, e buscar o aprofundamento para compreender a amplitude do que significa o bem-estar e as tantas variáveis que envolvem esse termo. Não há uma solução pré-determinada se não se considerarem as particularidades e especificidades da comunidade e do território. Ou seja, não há um padrão, um modelo único a ser seguido, e sim atuar no sentido de se imaginar e se viver novos mundos. Uma indicação de leitura nesse sentido: ACOSTA, Alberto. O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Editora Elefante, 2016.
4 - Se o design ganhou espaço em marcas, experiências, tecnologia, serviços e novos modos de vida, por que tantos designers ainda têm dificuldade de viver da própria profissão? Onde está a falha: na formação, no mercado ou na forma como a sociedade ainda entende o design?
É uma pergunta complexa, e a resposta também não é simples nem única. No caso do nosso país, por um lado, podemos apontar a falta de políticas públicas e da valorização do design e de seus profissionais, estudiosos, professores e pesquisadores da área. Por outro, temos de nos lembrar que a formação para essa profissão não ocorre apenas dentro (intramuros) das instituições educacionais, pois depende de um repertório amplo que cada profissional vai desenvolvendo ao longo de sua vida, o que vai possibilitando o entendimento e o desenvolvimento de propostas diferenciadas, mais complexas, por exemplo. Há um outro grande embate, que é a importância da formação cultural, filosófica e sociopolítica, que muitas vezes é deixada de lado em detrimento do que é mais superficial, tecnológico e dos modismos de um momento ou outro. E o mundo do trabalho também não é simples, mas muitas vezes subverte a capacidade criativa em razão do lucro exacerbado, não investindo em pesquisa & desenvolvimento, em setores nas empresas destinados ao design. Muitas vezes, prostitui-se o mercado na busca de soluções rápidas, fugazes e sem dar a devida importância às pessoas, desde o profissional até o consumidor.
Há peças que pertencem ao agora, mas não dependem dele. São atuais porque respondem ao desejo do presente; tornam-se contemporâneas quando conseguem atravessar a tendência e permanecer como gesto, matéria e forma de uso.
Poltrona Puffer - Estúdio Mula Preta
Os volumes acolchoados traduzem a referência dos casacos de inverno em dobras, maciez e gesto visual. O resultado é uma peça envolvente, em que conforto e identidade caminham juntos.
Poltrona Aida - Estudiobola
Curvas suaves, volume generoso e revestimento levemente franzido criam uma presença descontraída, mas precisa. O conforto não aparece como excesso: nasce do equilíbrio entre acolhimento, leveza visual e desenho cotidiano.
Poltrona Ondira - Gabriel Rosa - Breton
As curvas contínuas transformam a fluidez das ondas em linguagem orgânica. O desenho envolve o corpo com suavidade e cria uma presença sensorial, entre acolhimento, movimento e memória formal.
Poltrona Serata - Linda Martins
Com desenho equilibrado e materiais escolhidos pela durabilidade, a peça privilegia o descanso sem abrir mão da presença. Há nela uma ideia clara de maturidade: conforto, matéria e cotidiano tratados como permanência.
Cadeira Kea - Ronald Sasson - Tecline
Inspirada na imponência da paisagem natural, a peça trabalha volumes amplos e presença escultórica. Em edição limitada, aproxima conforto, força formal e desejo de permanência sem perder a escala do corpo.
Depois dos livros, outro elemento me chamou atenção na CASACOR São Paulo 2026: o tecido. Não como acabamento. Não como solução final para suavizar ambientes, acrescentar conforto ou concluir uma composição já definida. O que me interessou foi perceber como, em alguns projetos, o tecido parecia ocupar uma posição anterior. Menos consequência, mais ponto de partida. Foi a partir dessa observação que fui conversar com Felipe de Almeida, um dos designers de interiores que mais me chamou atenção pela forma como trabalha essa lógica. Em seu escritório, os tecidos aparecem desde o início do processo. Felipe trabalha com moodboards físicos montados em parede, onde amostras convivem com referências, cores e materiais muito antes da definição final dos ambientes. Em alguns casos, o tecido surge antes da paleta cromática. Em outros, antes do mobiliário. “Eu entendo o tecido como espinha dorsal de muitos projetos”, afirma. Em vez de pensar o material apenas por desempenho ou aparência, ele o utiliza como ferramenta narrativa - uma forma de traduzir histórias, memórias e identidades em linguagem espacial. Em um projeto recente, a cliente era descendente de japoneses e o marido, de nordestinos. Durante o briefing, ela compartilhou uma inquietação específica: a casa não conseguia reunir a família. Felipe não respondeu com uma planta. Respondeu com pesquisa. Ao investigar referências ligadas à história da cliente, chegou ao grou-da-manchúria, ave simbólica da cultura japonesa. A descoberta conduziu à escolha de um tecido da Entreposto estampado com garças, que se tornou o elemento estruturador do conceito. A partir dele vieram cores, combinações e desdobramentos que organizaram o restante da proposta. O episódio revela uma característica recorrente de seu trabalho: a ideia de que materiais carregam significados antes mesmo de cumprir funções. Essa atenção ao significado também explica sua atração por bordados, veludos e tapeçarias ligados a culturas tradicionais. Determinados tecidos ativam memórias de forma quase imediata - sem a necessidade de explicação ou mediação. Mas há uma distinção importante no modo como Felipe fala de acolhimento. Para ele, aconchego não é sinônimo de neutralidade. O tecido, em seu trabalho, não é o elemento que suaviza o projeto. É frequentemente o que o provoca. “Ele é um elemento de instigar, de sair da obviedade.” Na CASACOR, essa lógica apareceu de forma precisa em uma cadeira em camurça que Felipe posicionou na sala de jantar. Ali, o tecido não funcionava apenas como revestimento. Ele criava uma pausa. As pessoas paravam antes de sentar. Passavam a mão. Quando finalmente se acomodavam, faziam isso de forma diferente do que fariam em uma cadeira de couro ou de madeira. O material intervém no comportamento antes mesmo de qualquer decisão consciente. O design da cadeira define a forma. A escolha do tecido define a experiência. É por isso que o tecido aparece em seus projetos muito além de cortinas, estofados ou enxovais - em paredes, detalhes arquitetônicos e superfícies onde não seria esperado. Não como decoração, mas como instrumento de construção de significado. Durante muito tempo, o tecido entrou para concluir um projeto. Na leitura de Felipe de Almeida, ele entra antes: para organizar memória, provocar percepção e iniciar uma narrativa espacial. Na CASACOR, esse talvez tenha sido um dos sinais mais interessantes: quando o tecido deixa de vestir o ambiente, ele começa a pensar o projeto.
- Trinta anos depois de adotar sua primeira praça, a Entreposto amplia seu apoio à cidade com a primeira quadra pública de pickleball de São Paulo, na Faria Lima com a Rua Tucumã. Gratuito, o espaço soma esporte, convivência, energia solar e captação de água da chuva - mais um gesto de cuidado urbano que transforma área pública em uso coletivo.
- O escritório Débora Aguiar venceu a categoria Main Salon do The International Yacht & Aviation Awards 2026, em Veneza, pelos interiores do T450 M/Y Singolare, superiate de 45 metros da Tankoa Yachts. O projeto traduz a ideia de casa sobre as águas, com atmosfera residencial, materiais naturais e integração com a paisagem marítima.
- A 7-Eleven entrou na Justiça contra a Nike para barrar o Air Max 95 “Konbini”, com lançamento previsto para 11 de julho, o 7-Eleven Day. A rede alega que o tênis usa sua paleta verde, laranja e vermelha de forma capaz de sugerir uma colaboração oficial. Um caso sobre cor, marca e apropriação visual.
- A Bugatti transformou o W16 Mistral Blanc Éternel em peça única com porcelana real, criada com a KPM. O desafio foi técnico: como o material encolhe cerca de 17% na queima, cada componente precisou ser produzido maior, queimado em forno e finalizado com precisão para se ajustar ao hipercarro.
- O Obama Presidential Center abriu ao público em 19 de junho, em Jackson Park, Chicago, e já divide a crítica: monumentalidade excessiva, torre opaca, escala personalista, custo alto, impacto no South Side, risco de gentrificação. A discussão revela a força da arquitetura e do design na construção de poder simbólico. Para um projeto apresentado como campus cívico, a pergunta fica: essa forma é compatível com a ideia republicana de legado público de Obama?
- No TikTok, o Chinamaxxing transforma a China em imaginário aspiracional para a Gen Z ocidental: chá, jianbing, mahjong, Labubu, skincare e medicina tradicional. O fenômeno importa porque mostra como design, estética e rotina viram vetores de desejo e soft power - muitas vezes mais rápidos que a própria geopolítica.
- Na primeira boutique da Alaïa em Miami, assinada pelo Halleroed, o mosaico rosa envolve fachada, pisos e paredes. Mas o ponto mais interessante está no mobiliário: Martin Brûlé reúne peças raras do século XX e designs atuais, de Philippe Starck a Ron Arad e Tom Dixon. Aqui, o móvel deixa de ocupar o espaço. Torna-se camada da arquitetura.
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