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Mônica Barbosa Recebe · Aug 22, 2026

Michele De Lucchi, a vitalidade de continuar começando

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Mônica Barbosa · Mônica Barbosa Recebe

NEWS#62 - 22 AGO

O objeto é o mesmo. A percepção muda com a autoria atribuída.

Duas escovas de dentes idênticas. Mesma aparência, mesmas características, mesma função. A única diferença estava em uma informação: uma havia sido projetada por humanos; a outra, por inteligência artificial. Quando 390 participantes foram convidados a escolher entre elas tendo a sustentabilidade como critério, 76,4% ficaram com a versão atribuída a designers humanos. Mas nada no objeto havia mudado. O experimento faz parte de uma pesquisa publicada em julho no Journal of the Academy of Marketing Science sobre como a autoria interfere na percepção de sustentabilidade. Em diferentes testes, produtos apresentados como desenhados por IA foram percebidos como menos sustentáveis do que os mesmos produtos atribuídos a humanos. O estudo não demonstra, porém, que o design humano seja ambientalmente mais responsável. Demonstra algo mais interessante: basta mudar a informação sobre quem criou um objeto para mudar aquilo que enxergamos nele. Os pesquisadores quiseram entender por quê. A diferença não foi explicada principalmente por competência, esforço ou capacidade de decisão. O fator mais relevante foi o que chamaram de genuine care: a percepção de que alguém realmente havia se importado ao projetar aquilo. É um dado que amplia a discussão sobre autoria. Forma, matéria, função e desempenho continuam fundamentais, mas nunca foram tudo. Também lemos os objetos a partir da intenção que imaginamos existir por trás deles. A autoria não muda a matéria. Mas muda nossa leitura da matéria. É aqui que a pesquisa produz uma pergunta mais incômoda do que a oposição entre humano e máquina. Se acreditamos que um objeto é mais responsável porque imaginamos que alguém “se importou” ao desenhá-lo, estamos reconhecendo o valor da intenção - ou apenas substituindo evidência por narrativa? A inteligência artificial torna essa tensão mais visível porque perturba relações que durante muito tempo pareciam mais fáceis de identificar. Um nome, uma assinatura, um processo artesanal, uma origem ou uma história sempre interferiram no valor que atribuímos às coisas. O que o experimento revela é até que ponto essas informações também contaminam - para melhor ou para pior - nossa percepção de atributos que acreditamos pertencer ao próprio objeto. À medida que ferramentas, autoria e criação passam a se separar de maneiras cada vez menos evidentes, talvez precisemos reaprender a distinguir intenção de assinatura - e percepção de evidência.

Foto: Delfino Sisto Legnani

Michele De Lucchi tem uma qualidade rara entre os mestres: a descontração de quem continua curioso. Não fala do alto de uma obra consagrada, mas do lugar instável de quem ainda procura. Pensa com intuição, aproxima opostos e conserva uma vontade genuína de encontrar o que ainda não existe. Sempre que o escuto, saio energizada - e menos acomodada diante do design. Figura central da arquitetura radical italiana e um dos protagonistas de Alchimia e Memphis, foi diretor de design da Olivetti e criou, com Giancarlo Fassina, a luminária Tolomeo, premiada com o Compasso d’Oro. Hoje, é fundador da AMDL CIRCLE, estúdio multidisciplinar dedicado a uma abordagem humanista da arquitetura e do design. Uma frase sua ajuda a entender esse princípio: “Arquitetura que não considera seu efeito sobre as pessoas é arquitetura sem graça.” Em julho deste ano, tornou-se o primeiro diretor criativo da Triennale Milano e assumiu também a responsabilidade pelo Museo del Design Italiano, dentro do ciclo estratégico que vai até 2030. No ano anterior, recebeu da França o título de Officier dans l’Ordre des Arts et des Lettres, enquanto a AMDL CIRCLE conquistou o Premio Architetto Italiano 2025. Nesta conversa, De Lucchi fala de desejo, transgressão, experiência e inteligência artificial sem se refugiar no passado. Aos 74 anos, ainda trata o futuro como matéria de trabalho.

1. O design consegue transformar aquilo que uma sociedade aprende a desejar ou apenas encontra formas cada vez mais inteligentes de continuar alimentando o desejo?

Acredito que o design não deveria fazer nem uma coisa nem outra. Deveria, ao contrário, buscar novos sonhos para trazer ao mundo e torná-los desejáveis. No elevador do nosso estúdio, aqui em Milão, há uma placa que diz para não oferecer aos clientes aquilo que desejam, mas aquilo que nunca ousaram desejar. O verdadeiro problema, hoje, é criar uma sustentabilidade do imaginário: fazer com que os sonhos que cultivamos sejam realmente sustentáveis e não se traduzam no consumo contínuo dos recursos do planeta, sem qualquer possibilidade de reposição.

2. O que acontece quando uma geração que nasceu para contestar o sistema passa a comandá-lo? Transformar a Triennale em um “laboratório de vitalidade” e construir aquilo que o você define como uma “sustentabilidade do imaginário comum” significa que a transgressão venceu - ou que o sistema aprendeu a incorporá-la?

A transgressão vence quando se torna capaz de alimentar continuamente novas transgressões, de concebê-las e inspirá-las. Nada permanece igual a si mesmo ao longo do tempo, sobretudo quando está relacionado à sensibilidade humana e à capacidade de interpretar o mundo em que vivemos. Para mim, o percurso da Triennale, desde a contestação dos anos da arquitetura radical até hoje, significa incorporar todos os elementos que melhor interpretam e definem a alternativa. A alternativa está sempre em oposição à realidade mais consolidada, à verdade mais reconhecida, à atitude mais convencional. Ao longo dos anos, compreendi a importância dessa busca: procurar o outro lado da moeda, reunir os opostos e gerar, a partir dessa tensão, uma nova energia. Foi isso que procurei expressar em minha apresentação como diretor criativo da Triennale.

3. Depois de cinquenta anos projetando futuros, o que a experiência permite enxergar sobre o design que um jovem designer ainda não consegue - e o que ela impede de enxergar? A experiência amplia a capacidade de reconhecer as transformações reais do setor ou aumenta nossa dependência daquilo que já funcionou?

A verdadeira questão é que tudo muda. Quando comparo a realidade e a relação que eu tinha com o mundo nos anos 1970 e 1980 com aquilo que vejo e compreendo hoje, quase não consigo encontrar um fio lógico que conecte mundos em transformação contínua. A capacidade de enxergar o mundo em sua evolução e de reconhecer os grandes temas que cada época traz consigo - como, hoje, a insustentabilidade e a inteligência artificial - é o que nos permite compreender as alternativas possíveis. Cada época é repleta de recursos e de oportunidades para refletir sobre quais são as verdadeiras alternativas: aquelas sobre as quais podemos agir e para as quais podemos contribuir, tornando-as melhores. Mesmo quando não conseguimos transformar diretamente a realidade, podemos ao menos fazer emergir a energia de pensamento escondida na interpretação e no confronto entre extremos opostos. A questão, portanto, não é que a experiência, por si só, modifique nossa maneira de enxergar as coisas. O verdadeiro valor está na capacidade de observar como as coisas se transformam. Não é a experiência que altera o olhar, mas a capacidade de perceber a mudança.

4. O que acontece com a criatividade quando eliminamos progressivamente a dificuldade de fazer? Em que momento uma ferramenta deixa de ampliar as capacidades humanas e começa a determinar aquilo que o ser humano imagina?

Acredito que essa pergunta diga respeito, sobretudo, ao uso da inteligência artificial. Sua utilização certamente elevou o patamar básico do nosso pensamento: ela nos estimula a ser mais perspicazes, a nos libertar das formas habituais de raciocínio e daquilo que já foi feito, orientando-nos mais em direção ao que ainda não existe. A inteligência artificial nos impulsiona a nos tornar, como dizemos aqui no estúdio, “mais humanos do que os humanos”. Ela nos convida a confrontar continuamente a capacidade racional com a sensorial, o artificial com o humano. Ajuda-nos a controlar melhor as coisas e a ampliar nossa visão, sem nos limitarmos a considerar temas isolados, mas relacionando-os a muitos outros elementos que normalmente não levaríamos em conta. Ao mesmo tempo, ela nos leva a colocar acima de tudo a sensibilidade e a intuição: a capacidade de reconhecer aquilo que tem valor e aquilo que não tem. Quando perguntamos à inteligência artificial o que é a intuição, ela mesma responde que é aquilo que percebemos antes de raciocinar, antes de ativar a mente racional. É justamente aí que está a beleza: antes do raciocínio, acontece algo que não controlamos e não podemos manipular, algo que nasce do conjunto das nossas experiências, das nossas emoções e da nossa memória. A intuição talvez seja a matéria mais preciosa da existência humana.

Foto: Romulo Fialdini

A 55DESIGN amplia sua pesquisa de matérias-primas com 5 Tons de Chocolate, coleção que explora cinco variações de marrom - do castanho avermelhado ao chocolate intenso - considerando não apenas cor, mas brilho, textura, caimento e comportamento ao longo do uso. A seleção introduz também os artigos Ankur e Marina. O primeiro recebe acabamento semi-anilina, que preserva parte dos desenhos naturais da pele enquanto reduz variações de tonalidade e aumenta sua estabilidade. Já o Marina trabalha o lado interno do couro, com superfície próxima à camurça, toque aveludado e maior profundidade visual. A rastreabilidade também entra nessa curadoria. Os couros fornecidos pela Leather Labs, da JBS Couros, têm origem rastreável e seguem protocolos internacionais de qualidade, gestão ambiental e condições de trabalho. Na fábrica da 55DESIGN, cada pele é selecionada individualmente, enquanto as sobras são destinadas a projetos de impacto social.

Foto: IKEA

A IKEA volta a tensionar a fronteira entre design e arte com KONSTRUNDA, coleção limitada que chega às lojas e ao online em 1º de setembro. São 22 peças de sete artistas e designers, entre esculturas, mobiliário, vidro, cerâmica e têxteis, reunidas em torno de uma ideia: aproximar a arte da vida cotidiana e permitir que nem todo objeto doméstico precise justificar sua presença pela função. A diversidade é parte do projeto. Sob a direção criativa de Karin Gustavsson, linguagens bastante distintas foram colocadas em diálogo por aproximações de materiais, formas e cores. A curadoria funciona quase como a de uma exposição coletiva: cria relações entre trabalhos concebidos de maneira independente e transforma diferentes autorias em uma coleção coerente. Mas talvez o aspecto mais interessante de KONSTRUNDA esteja em outra tensão: como preservar uma visão autoral quando ela precisa ser produzida em escala global? Akanksha Deo, por exemplo, imaginou uma escultura inspirada em Ettore Sottsass e nos brinquedos tradicionais de Channapatna, na Índia, com maior variedade de materiais. Diante das restrições de custo, matéria-prima e produção da IKEA, precisou simplificar a ideia - e encontrou na limitação uma nova possibilidade. A coleção ganha força justamente aí: no atrito entre liberdade criativa e escala industrial.

Foto: Tania Volobueva - Shutterstock / Andrew Prokos / Chen Hao / Flower Carpet Master Shoot / Pro-Ject / Claude Monet House and Gardens / Synesthesia

- Brad Pitt apresenta From Inside Out - The Architecture of Peter Zumthor, novo documentário de Wim Wenders, filmado ao longo de 14 anos. Mais do que retratar obras, o filme investiga como a arquitetura é percebida e vivida, usando inclusive tecnologia 3D. Pitt já havia defendido publicamente o projeto de Zumthor para o LACMA. O documentário estreia em setembro, fora de competição, no Festival de Veneza.

- De 25 a 27 de agosto, o Salão Rio de Interiores chega à 4ª edição, na sede do IAB-RJ, com o tema “Interiores Regenerativos: do Habitar ao Pertencer”. A programação discute como arquitetura e design podem ampliar a noção de sustentabilidade para incluir bem-estar e relações humanas. No dia 25, a ABIMAD promove painel sobre o papel do mobiliário nessa agenda, com Gabriel Rosa, Marina Otte e Eduardo Trevisan.

- A arquitetura americana atravessa uma de suas mais longas retrações. Em julho, o índice de faturamento dos escritórios (ABI) caiu para 46,6 - abaixo de 50 indica contração - e já registra queda em 45 dos últimos 46 meses. Como o indicador costuma antecipar em 9 a 12 meses a atividade da construção não residencial, o dado funciona como alerta: a desaceleração dos projetos pode avançar sobre 2027.

- Lina Bo Bardi ganha sua primeira grande exposição na China. Em cartaz até 25 de outubro na Power Station of Art, em Xangai, The Poetics of Survival reúne mais de 300 peças entre desenhos, modelos, fotografias e arquivos. Na expografia, o OPEN Architecture recriou o lago artificial concebido por Lina para o SESC Pompeia, em 1977. Mais do que citar um elemento do projeto, a escolha transporta para a mostra sua ideia de arquitetura como espaço de encontro e convivência.

- Hokusai tomou a Grand-Place de Bruxelas - em dálias. Na 24ª edição do Flower Carpet, Hiro Sugiyama reinterpretou A Grande Onda de Kanagawa em 1.680 m² e mais de 700 mil flores. A obra celebrou os 160 anos de relações entre Bélgica e Japão e durou apenas quatro dias. Talvez esteja aí parte de sua força: transformar uma das imagens mais reproduzidas da história em algo monumental e, deliberadamente, passageiro.

- O vinil continua analógico, mas a entrada ficou menos complicada. A Pro-Ject ampliou a linha E1.2 com duas versões: uma traz pré-amplificador integrado; outra, Bluetooth 5.4 para enviar o som a caixas e fones sem fio. A ideia não é digitalizar o ritual, mas retirar parte da engenharia que afasta os iniciantes. Um bom exemplo de design quando ele simplifica o acesso sem desmontar a experiência original.

- O calor extremo chegou ao jardim de Monet, em Giverny. As ondas de calor que atravessam a França fizeram murchar as capuchinhas da alameda central - algo que os jardineiros dizem nunca ter visto nessa escala. Elas terão de ser replantadas para 2027. Há uma ironia incômoda nisso: a paisagem que Monet transformou em pintura agora também precisa se adaptar a um clima que ele nunca conheceu.

- A crise climática ganhou versão jogável. Em Europe Heatwave Simulator, da suíça Blue Hood Games, o jogador enfrenta 42°C, nenhum ar-condicionado e 14 dias para sobreviver - enquanto tenta manter a rotina de trabalho em um apartamento em Paris. Entre janelas abertas, mosquitos, ventiladores inúteis e compras online duvidosas, o humor negro transforma um verão europeu cada vez menos excepcional em mecânica de sobrevivência. Quando o calor vira videogame, talvez seja porque já deixou de parecer ficção.

- E se o seu nome tivesse uma paleta de cores? A designer Bernadette Sheridan associa letras e números a cores de forma involuntária - e transformou essa percepção em um visualizador que colore cada nome segundo o que ela enxerga. Não é teste de personalidade, mas é divertido. Para fechar a edição: descubra aqui a cor do seu nome.

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Read the original on monicabarbosarecebe.substack.com

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