NEWS#60 - 08 AGO
Passaporte, por favor. A Europa acaba de abrir o balcão digital que vai registrar os passaportes dos produtos colocados em seu mercado. Em 20 de julho, entrou em operação o registro do Digital Product Passport, parte de uma mudança regulatória que pretende tornar produtos e cadeias mais transparentes. Não é um QR code com uma história bonita sobre sustentabilidade. Dependendo das regras definidas para cada categoria, o passaporte poderá reunir informações sobre materiais, durabilidade, reparabilidade e outros aspectos do ciclo de vida de um produto. O mobiliário está entre os grupos prioritários. A União Europeia prevê adotar regras específicas para essa categoria em 2028, seguidas de um período de transição de pelo menos 18 meses. Ou seja: para quem desenha, produz e comercializa móveis, essa conversa já tem endereço.
Parece distante? Para uma indústria, não é.
E para o Brasil, a coincidência é especialmente interessante. No mesmo ano em que o acordo comercial Mercosul-União Europeia começou a ser aplicado provisoriamente, ampliando as possibilidades de acesso ao mercado europeu, a Europa tornou operacional uma infraestrutura que aumentará a rastreabilidade dos produtos que entram nele. As futuras exigências também alcançarão os importados. Há um paradoxo aí: enquanto as fronteiras comerciais ficam mais permeáveis, os objetos terão de ficar mais legíveis. Para o design, isso muda uma velha conversa. Durante anos aprendemos a perguntar quem desenhou uma cadeira, quem a fabrica, qual prêmio recebeu. A próxima pergunta pode ser menos glamourosa - e muito mais importante: do que exatamente ela é feita, de onde vieram seus materiais, pode ser reparada e o que acontece quando uma peça quebra? O design brasileiro gosta de falar de matéria, origem, território e saber fazer. O passaporte pode transformar parte desse discurso em evidência. E aí a narrativa deixa de ser suficiente. O passaporte não torna um produto melhor. Mas torna mais difícil esconder suas fragilidades atrás de uma fotografia bonita. Talvez essa seja a novidade mais interessante: o design ganha documento. E documentos têm o péssimo hábito de pedir comprovação.
Conheço Marva Griffin há pouco mais de uma década e continuo impressionada com sua memória. Em Milão ou em outros encontros de design pelo mundo, ela reconhece jornalistas pelo nome, lembra conversas e nos trata com um rigor profissional impecável. E acredito que o sorriso com que me recebe seja também sincero - e carinhoso. Esse cuidado diz muito sobre Marva. Ela não parece interessada em prever para onde o design irá. Está mais interessada em preservar as condições que permitem que um designer chegue a algum lugar. Sua autoridade foi construída assim: conectando talento, indústria, imprensa e instituições. Venezuelana de El Callao e milanesa por escolha, chegou à Itália no início dos anos 1970. Poliglota - fala espanhol, inglês, francês, italiano e português - começou na C&B Italia, hoje B&B Italia, como assistente, intérprete e responsável pela comunicação, ao lado de Piero Ambrogio Busnelli e Cesare Cassina. Foi ali que conheceu por dentro a indústria italiana e conviveu com alguns dos nomes que definiam o design daquele período. Depois veio o jornalismo. Foi correspondente na Itália de publicações da Condé Nast na França e nos Estados Unidos, entre elas Maison & Jardin, Vogue Décoration, House & Garden e Vogue. Por duas décadas, dirigiu também a imprensa internacional do Salone del Mobile.Milano. Em 1998, criou o SaloneSatellite, aproximando jovens designers, escolas e indústria e transformando a iniciativa em uma das principais plataformas internacionais para novos talentos. Hoje é Founder and Curator do SaloneSatellite e Ambassador of International Relations do Salone del Mobile.Milano. Desde 2001, integra também o Philip Johnson Architecture and Design Committee do MoMA, em Nova York. Os reconhecimentos ajudam a dimensionar essa trajetória. O SaloneSatellite recebeu o Compasso d’Oro alla Carriera em 2014; Marva, o Ambrogino d’Oro de Milão em 2017, uma laurea honoris causa do Politecnico di Milano em 2021 e, em 2024, o título honorário de Doctor of Fine Arts pela Rhode Island School of Design. Nesta conversa aparece algo que sempre me chamou atenção nela: Marva não fala pelos designers. Prefere aproximá-los de quem pode transformar uma ideia em percurso. Para ela, talento importa. Mas tempo, aprendizado, indústria e persistência também.
1. Quando o SaloneSatellite foi criado, um dos principais desafios para um jovem designer era ter acesso à indústria. Hoje, alcançar visibilidade é mais fácil, mas construir uma carreira duradoura talvez não seja. O que se tornou mais difícil?
Não posso responder pelos jovens designers. No entanto, pelo que sei, todos os anos, no SaloneSatellite, quando vou me despedir dos jovens designers participantes no último dia, eles estão muito felizes com os contatos feitos durante a semana do Salone. Ao longo dos anos, muitos jovens designers iniciaram colaborações que, em alguns casos, deram certo e, em outros, não. Mas, como sempre digo a eles, é preciso ter paciência. Conversar com os produtores, aprender e adquirir experiência leva tempo. No início da minha carreira na C&B, hoje B&B Italia, vi grandes designers apresentarem seus produtos e, somente depois de três anos de estudos e pesquisas, o protótipo finalmente chegar ao mercado. É assim, com o tempo, que se constrói uma carreira duradoura.
2. Depois de acompanhar várias gerações de designers de diferentes partes do mundo, o que o sistema internacional do design ainda não consegue reconhecer nos talentos que vêm de fora de seus centros tradicionais?
Os designers é que devem responder a essa pergunta, não eu.
3. Costuma-se dizer aos jovens designers o que eles precisam aprender com a indústria. O que a indústria precisa aprender com eles hoje?
É uma troca. Quando um projeto é apresentado a uma indústria, a maioria dos produtores trabalha junto com os designers para desenvolver um produto que será lançado no mercado. Isso é muito importante para os jovens, mas o produtor também fica feliz em receber ideias novas, entender o que está acontecendo ao redor do mundo e perceber o que os jovens designers podem trazer para sua indústria.
4. A formação atual prepara designers para propor novas ideias ou para responder às demandas de um mercado que já sabe o que quer?
Nestes 27 anos de SaloneSatellite, recebemos mais de 330 escolas e universidades internacionais de design, de mais de 40 países, que trouxeram seus futuros graduados para visitar o Salone del Mobile.Milano, conhecer as indústrias e observar o que o mercado está produzindo. Pudemos conhecer os sistemas de ensino de muitas dessas instituições, que preparam designers em um nível muito elevado. Pelo que aprendi ao redor do mundo, muitos dos grandes designers que começaram suas carreiras no SaloneSatellite se formaram em escolas e universidades muito importantes.
O Best in Show da ABIMAD’42 funciona menos como um pódio e mais como uma leitura da produção brasileira apresentada nesta edição. Sob a curadoria de Thaís Lauton, diretora de redação da Casa e Jardim, a seleção reúne peças que investigam materiais, processos e diferentes modos de construir identidade no mobiliário. Entre técnicas tradicionais, experimentação formal e capacidade industrial, os trabalhos escolhidos mostram um design que busca autoria sem abrir mão da produção em escala. Mais do que eleger destaques, o conjunto ajuda a perceber quais ideias, linguagens e soluções começam a ocupar espaço no mercado - e quais têm consistência para permanecer.
Aprendi cedo que não se senta no lugar do outro. No trabalho, principalmente na cadeira de um superior, aquilo me foi ensinado como atrevimento, abuso de intimidade, quase uma pequena invasão de território. Nunca mais tinha pensado muito sobre esse código até conhecer uma história de Yinka Ilori. Na casa onde cresceu, em Londres, cada pessoa da família tinha sua cadeira. Não era preciso escrever o nome: todos sabiam a quem pertencia cada lugar. Ilori conta que até sentia culpa ao ocupar a cadeira da irmã, como se tivesse atravessado uma pequena fronteira pessoal. A lembrança ajuda a entender por que um objeto tão cotidiano ocupa lugar central na trajetória do artista e designer britânico-nigeriano - e agora em Chairman, livro que reúne mais de uma década de sua produção dedicada às cadeiras. Poucos objetos foram tão insistentemente revisitados pelo design. Mies van der Rohe chegou a dizer que uma cadeira era extremamente difícil de projetar; um arranha-céu seria quase mais fácil. Faz sentido. Em poucos centímetros precisam coexistir corpo, equilíbrio, estrutura, material, fabricação e linguagem. A cadeira também registra seu tempo. Thonet transformou a madeira curvada em sistema industrial no século XIX. O modernismo experimentou aço tubular, compensado e plástico. Mais tarde, Martino Gamper - que participa de Chairman - desmontaria móveis descartados para criar as cem peças de 100 Chairs in 100 Days. Ilori parte desse território, mas desloca a pergunta. Muitas de suas primeiras cadeiras também nasceram de móveis encontrados e abandonados. Ele desmonta, pinta, altera e reconstrói. Só que o que procura preservar ou acrescentar não é apenas matéria: são histórias. Memórias da infância, parábolas nigerianas, migração, identidade e pertencimento passam a fazer parte da estrutura. A prática começou ainda na universidade, quando Jane Atfield propôs que ele combinasse cadeiras antigas sem descartar seus componentes; Two Become One, de 2006, nasceu desse exercício. Em Chairman, a cadeira aparece quase como um arquivo cultural. E talvez esteja aí a razão de continuarmos voltando a um objeto aparentemente resolvido há séculos. Uma cadeira nunca sustenta apenas um corpo. Ela também revela quem somos, como nos relacionamos - e o lugar que acreditamos ocupar.
- No dia 11 de agosto, participo do primeiro encontro da nova série online da ABD, ao lado de Mirelle Koelzer. A conversa parte dos grandes eventos internacionais de design de 2026 para discutir o que, de fato, começa a indicar mudanças no setor - entre comportamento, mercado e novas formas de projetar. 11 de agosto, das 13h30 às 15h, online. Gratuito para associados ABD; R$ 59,90 para não associados. Clique aqui para se inscrever.
- E, para quem estiver em Nova York, um Leonardo da Vinci está discretamente por lá. Desde a primavera, o Metropolitan Museum of Art exibe Madonna of the Yarnwinder, de cerca de 1501, sem grandes anúncios ou cerimônia. A obra, atribuída a “Leonardo da Vinci e ateliê”, pertence à coleção de Kenneth Griffin e está em empréstimo de longo prazo ao museu. Uma raridade ainda maior considerando que menos de 20 pinturas de Leonardo chegaram aos nossos dias. Para quem passar pelo Met: galeria 609, segundo andar - e, por enquanto, sem multidões.
- Agora imagine um Walmart dos anos 1980, inteiro de feltro. Em Bentonville, Lucy Sparrow recriou mais de 20 mil produtos à mão, transformando um dos maiores símbolos do consumo americano em instalação. É pop, divertido e um pouco desconcertante: às vezes, é preciso transformar o cotidiano em brinquedo para enxergar melhor o que ele diz sobre nós.
- Talvez por isso eu goste tanto de cidades que se permitem brincar. Em Konagai, no Japão, 16 pontos de ônibus têm a forma de morangos, melancias, melões, laranjas e tomates. Criados em 1990, continuam espalhados por uma estrada à beira-mar, transformando a espera pelo ônibus em algo inesperado. Pequenos gestos também fazem uma cidade mais humana - e um pouco mais divertida.
- Em setembro, o Vitra Design Museum abre a primeira grande retrospectiva de Geoffrey Bawa em duas décadas. Nascido no Sri Lanka e formado em Londres, Bawa foi um dos nomes centrais do modernismo tropical, combinando arquitetura moderna, clima, paisagem, materiais e saberes locais. Architecture for the Senses reúne mais de 250 peças, com novas imagens de Iwan Baan e cenografia de Lina Ghotmeh.
- E há projetos em que é o próprio lugar que determina tudo. Perto do Lake Tekapo, na Nova Zelândia, uma casa foi construída fora do local e transportada em grandes módulos até uma área remota, a 850 metros de altitude, atravessando estradas íngremes e até um riacho. Um bom lembrete de que, muitas vezes, a inovação no projeto começa menos na forma e mais em como tornar possível construir onde parecia impraticável.
- Também vale acompanhar o que está acontecendo com os materiais. Pesquisadores chineses desenvolveram um tecido vivo a partir do micélio do fungo Cordyceps militaris, capaz de se regenerar, receber novas funções e depois se biodegradar. Mais do que um vestido experimental, o projeto aponta para uma virada: materiais que, em vez de apenas serem extraídos e fabricados, podem ser cultivados, reparados e devolvidos à natureza.
- Enquanto isso, o clima já começa a impor outras urgências. Sete unidades do Smithsonian, em Washington, suspenderam as visitas após uma falha no sistema de resfriamento, em meio a temperaturas extremas. O episódio expõe uma questão cada vez menos excepcional: edifícios, cidades e até a preservação de acervos terão de se adaptar a um clima para o qual muita infraestrutura simplesmente não foi projetada.
- Outra mudança está acontecendo de maneira bem menos visível. A verificação de idade avança em diferentes países e pode exigir documento ou reconhecimento facial para acessar conteúdos online. A discussão vai além da proteção de menores: estamos criando uma nova infraestrutura de identidade digital. E vale atenção a um detalhe pouco abstrato - esses controles acontecem dentro de casa, na tela que usamos todos os dias.
- E termino com uma pergunta da Wired: por que as pessoas comuns ainda não estão usando agentes de IA? Talvez porque ninguém queira aprender uma nova tecnologia: quer apenas resolver coisas com menos esforço. O futuro da IA pode depender menos do que ela é capaz de fazer e mais de um velho princípio do design - funcionar tão bem que quase desapareça.
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