Pensei muito se traria esse assunto por aqui. Nas últimas semanas, ele já foi exageradamente dissecado nas redes sociais, com direito a opiniões, críticas, memes e, como quase sempre acontece quando uma mulher está no centro da conversa, uma quantidade impressionante de gente se sentindo autorizada a dizer o que ela deveria ou não fazer com o próprio corpo.
Tudo começou quando Xuxa voltou aos palcos com a turnê O Último Voo da Nave, espetáculo que revisita diferentes momentos de uma carreira construída diante dos olhos de milhões de brasileiros. Entre referências à sua trajetória, músicas que atravessaram gerações e figurinos que recuperam a estética que ajudou a transformá-la em um dos maiores ícones da televisão brasileira, um elemento específico acabou roubando a cena: a sua virilha.
Xuxa, que em diversas entrevistas já contou que esses últimos shows nasceram muito mais de um desejo dos eternos baixinhos — como são carinhosamente chamados seus fãs — do que de uma vontade pessoal de retomar a rotina dos palcos, decidiu entregar justamente aquilo que eles esperavam encontrar: uma grande viagem nostálgica pelo universo que construiu ao longo de mais de quatro décadas de carreira. E, quando digo viagem, é quase literalmente. O espetáculo tem direito até à icônica nave da apresentadora sobrevoando o estádio — uma estrutura inflável de cerca de 400 quilos, produzida pela mesma empresa responsável pelo cavalo que Beyoncé levou aos palcos na Renaissance World Tour.
Do clássico Xou da Xuxa à era do Xuxa Só Para Baixinhos, o repertório atravessa diferentes fases de sua trajetória com músicas como Lua de Cristal (minha favorita de todos os tempos), Abecedário da Xuxa, Soco, Bate, Vira; Txutxucão e tantos outros hits que diferentes gerações sabem praticamente na ponta da língua.
No palco, ela recupera códigos visuais que ajudaram a construir sua imagem desde os anos 1980: muito brilho, botas, e, claro, os bodies cavados que se tornaram praticamente parte do uniforme.
Depois do primeiro show da turnê, as imagens de Xuxa usando um body cavado começaram a circular pelas redes sociais. Em pouco tempo, a nave de 400 quilos, a superprodução, as músicas e a nostalgia ficaram em segundo plano. O assunto era outro: a virilha da Rainha dos Baixinhos.
Ou melhor, o fato de Xuxa continuar mostrando o corpo aos 63 anos como fazia quando era jovem — sem o menor interesse em adequá-lo ao que se espera de uma mulher que envelheceu.
Os comentários vieram aos montes. Gente dizendo que o figurino era cavado demais, que não valorizava seu corpo, que ela deveria usar algo mais “adequado” para a idade. Outros analisavam seu bumbum, a flacidez, a pele. Como costuma acontecer nesses tribunais improvisados das redes sociais, cada centímetro do corpo feminino vira evidência para sustentar um veredito que ninguém sequer pediu.
Mas em que momento envelhecer passou a significar também aprender o que já não nos é permitido?
Existe uma espécie de cartilha invisível que acompanha o envelhecimento feminino. Ninguém a entrega oficialmente, mas suas regras aparecem aos poucos, quase sempre disfarçadas de conselho. Chega uma hora em que o cabelo comprido “pesa”, a minissaia “não combina mais”, o decote precisa ser revisto, o biquíni deveria ganhar alguns centímetros de tecido. O vocabulário costuma ser gentil, elegante, apropriado, sofisticado, mas por trás dele permanece uma ideia bastante antiga: à medida que envelhece, espera-se que a mulher também se contenha.
O que está em jogo é uma expectativa de comportamento. Há uma idade socialmente aceita para experimentar, provocar, exagerar, ser sexy, chamar atenção. Depois dela, essas mesmas atitudes passam a ser lidas de outra maneira. Aquilo que em uma mulher jovem pode ser considerado ousadia, em uma mulher madura facilmente vira “falta de noção”.
Essa é uma das formas mais sutis do etarismo: ele raramente se apresenta dizendo que uma mulher deve desaparecer. Em vez disso, sugere que ela deveria saber se colocar. Saber o que vestir. Saber o que mostrar. Saber até onde ir. A responsabilidade pela adequação recai sobre ela, enquanto o olhar que a fiscaliza permanece convenientemente fora da discussão.
Há ainda uma contradição difícil de ignorar. Vivemos em uma cultura que transforma o envelhecimento da mulher em algo a ser combatido desde muito antes de ele chegar. Aos 20 e poucos, já se fala em prevenção de rugas e em botox. Depois vêm o retinol, o colágeno, o resto dos procedimentos, as dietas, os exercícios, as tinturas e uma infinidade de produtos vendidos sob a promessa de retardar aquilo que, inevitavelmente, acontecerá com todos nós. Envelhecer tornou-se quase uma falha de manutenção.
Mas há outra coisa nessa história que me incomoda, e talvez diga ainda mais sobre o momento em que estamos vivendo: em algum ponto do caminho, parece que encaretamos demais.
É curioso pensar que Xuxa usava bodies cavados e outras vestimentas curtas diante de milhões de pessoas na televisão aberta há mais de três décadas e que, em 2026, alguns centímetros a menos de tecido sejam capazes de provocar tamanho escândalo. Há algo de contraditório em uma sociedade que gosta de se imaginar cada vez mais livre e progressista, mas que, diante do corpo de uma mulher envelhecendo, parece recuperar rapidamente um repertório bastante conservador sobre pudor, decoro e aquilo que seria ou não “apropriado”.
Pra mim, o mais sintomático desse burburinho todo tenha sido observar de onde vinha boa parte dessa fiscalização. Durante semanas, o que se viu nas redes foram muitas mulheres apontando, ampliando, comentando e debatendo sobre o corpo de outra mulher. Não porque mulheres sejam naturalmente mais cruéis umas com as outras, uma explicação simplista demais para um problema estrutural, mas porque também aprendemos a reproduzir sobre outras mulheres as mesmas regras às quais fomos submetidas. A patrulha do corpo feminino não precisa ser exercida apenas por homens quando nós mesmas fomos ensinadas tão bem a reconhecer suas infrações.
A dimensão que a discussão tomou também parece desproporcional quando olhamos para fora da tela. Estamos em um ano de eleições, diante de decisões que terão consequências concretas para os próximos 4 anos. Acompanhamos guerras que continuam destruindo cidades e vidas, uma crise climática que deixou de ser uma ameaça distante para atravessar nosso cotidiano e tantas outras questões que dizem respeito à maneira como queremos viver coletivamente.
E, ainda assim, por algumas longas semanas, parecia urgente decidir se a virilha de Xuxa deveria estar sendo mostrada ou não.
O que me interessa debater é a facilidade com que o corpo feminino ainda mobiliza uma espécie de vigilância coletiva. Em meio a tantas questões que exigem de nós atenção, indignação e posicionamento, ainda encontramos tempo e energia para fiscalizar quantos centímetros de pele uma mulher de 63 anos deveria ou não mostrar, ainda que por um mero descuido. Como se o corpo feminino, em qualquer idade, continuasse sendo uma questão de interesse público.
Nós avançamos muito no discurso da liberdade individual, mas nem sempre na nossa capacidade de conviver com a liberdade alheia. Repetimos que cada mulher deve vestir o que quiser, envelhecer como quiser, fazer ou não procedimentos, pintar ou não os cabelos, mostrar ou esconder o corpo. Na prática, porém, essa liberdade parece vir acompanhada de uma extensa lista de condições. Faça o que quiser, contanto que o resultado não nos incomode.
E isso, evidentemente, não começa e nem termina em Xuxa.
Basta olhar para a televisão brasileira atualmente e perceber como o envelhecimento feminino continua sendo administrado também institucionalmente. A saída da jornalista Astrid Fontenelle do Saia Justa, no GNT, reacendeu uma discussão que vai muito além de uma apresentadora ou de um programa específico: onde estão as mulheres mais velhas na televisão? Quantas permanecem ocupando espaços de protagonismo na TV aberta e fechada sem que a idade se transforme, em algum momento, em uma questão? E, principalmente, por que o envelhecimento parece reduzir as possibilidades profissionais das mulheres enquanto tantos homens atravessam décadas diante das câmeras sem que a permanência deles precise sequer ser explicada?
A televisão, nesse sentido, funciona quase como um espelho ampliado daquilo que acontece fora dela. Gostamos de falar sobre representatividade, diversidade e pluralidade, mas ainda temos dificuldade em imaginar mulheres mais velhas existindo para além de papeis muito específicos. E não basta que estejam presentes. Existe também uma expectativa sobre como devem ocupar esses espaços: elegantes, discretas, envelhecendo “bem” e, de preferência, sem desafiar demais aquilo que associamos à idade.
É por isso que volto a sua atenção para Xuxa.
Eu não convivo com Xuxa. Tive a sorte de encontrá-la algumas vezes em ocasiões de trabalho, mas tudo o que escrevo aqui parte, evidentemente, de um olhar externo sobre sua trajetória. E, dessa distância, é difícil não perceber o quanto sua vida parece ter sido atravessada por diferentes formas de cerceamento.
Primeiro, de maneira muito mais concreta, por pessoas que administravam sua carreira e que, como ela própria já relatou publicamente, interferiam também em aspectos de sua vida pessoal. É um capítulo suficientemente conhecido e, por isso, não me interessa nomear ou devolver protagonismo a quem ocupou esse lugar. O que importa aqui é perceber como, desde muito jovem, Xuxa teve sua imagem, suas escolhas e até seus comportamentos condicionados às expectativas e decisões de quem estava ao seu redor.
Com o passar dos anos, porém, essa vigilância parece apenas ter mudado de mãos. Já não é preciso estar nos bastidores de sua carreira para dizer o que deveria fazer. O público assumiu essa função com impressionante desenvoltura.
Para milhões de pessoas, ela ocupa um lugar afetivo que atravessa infância e a nostalgia. Quem cresceu assistindo aos seus programas sente que a conhece. Acompanhou seus relacionamentos, sua maternidade, suas mudanças de aparência, seus sucessos e suas crises. Essa proximidade construída pela televisão pode produzir uma sensação curiosa de intimidade com alguém que, na realidade, não conhecemos.
Também é difícil pensar em muitas mulheres brasileiras que tenham vivido tantas etapas da vida sob tamanha exposição. O nascimento de Sasha, por exemplo, extrapolou as páginas das revistas de celebridades e ganhou espaço no Jornal Nacional. Seus relacionamentos amorosos também se confundiram com a própria cultura popular brasileira: Xuxa namorou Ayrton Senna, o maior nome da história do automobilismo nacional, e Pelé, um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. Sua vida profissional, amorosa, familiar e até suas dores foram acompanhadas por um país inteiro como capítulos sucessivos de uma história que parecia pertencer um pouco a todos nós.
E é aí que mora grande parte do problema. Quando assistimos a praticamente quase todos os capítulos da vida de alguém, podemos começar a acreditar que também temos algum direito sobre os próximos.
Por isso, ao olhar para Xuxa hoje, devemos considerar menos a virilha que apareceu durante um show e mais na ideia de liberdade que ela representa dentro da própria trajetória. Depois de uma vida tão exposta e, em diferentes momentos, tão condicionada às decisões e expectativas de terceiros, há algo muito singular em vê-la chegar aos 63 anos aparentemente pouco interessada em corresponder ao que esperam dela.
Não cabe a mim, e não deveria caber a ninguém, especular sobre os efeitos psicológicos de tudo o que viveu, até porque seria impossível fazê-lo a partir de fora. Mas não é preciso entrar nesse terreno para reconhecer uma contradição bastante visível: depois de passar décadas tendo sua imagem observada, administrada e comentada, Xuxa envelhece diante dos holofotes e se depara com uma nova forma de fiscalização, agora pulverizada entre milhares de desconhecidos munidos de um celular, acesso às redes sociais e a convicção de que suas opiniões sobre o corpo alheio precisam ser ouvidas.
E aqui pouco importa se você gosta de Xuxa, se cresceu assistindo aos seus programas, se admira sua trajetória como apresentadora infantil, seu trabalho em defesa dos animais ou se nunca teve qualquer identificação com sua figura pública. A questão ultrapassa a personagem e até a própria mulher. Vale pensar no que essa nova prisão social construída ao redor dela revela sobre a maneira como continuamos tratando mulheres que envelhecem diante de nós.
E Xuxa é apenas a face mais visível de uma experiência que se reproduz, em proporções diferentes, na vida de mulheres todos os dias. Talvez valha pensar no que significa atravessar uma existência cercada por diferentes tipos de prisões, algumas concretas, outras impostas pelo olhar alheio, e chegar à velhice ainda submetida à expectativa de corresponder ao que os outros consideram aceitável.
Envelhecer é parte natural da experiência de qualquer pessoa que tenha o privilégio de continuar viva. Ainda assim, quando falamos de mulheres, nem mesmo a passagem do tempo parece garantir a liberdade de simplesmente ser quem se é. Pelo contrário: à medida que os anos avançam, surgem novas regras, novos limites e uma lista cada vez maior de comportamentos que supostamente deveriam ser abandonados.
Passamos a juventude aprendendo como devemos parecer, como devemos nos vestir, quanto devemos pesar, de que maneira devemos nos comportar. E poderíamos imaginar que, depois de décadas cumprindo, negociando ou rejeitando essas expectativas, chegaria um momento em que o olhar externo perderia importância. Uma espécie de trégua concedida pelo tempo.
Mas ela não chega.
A mulher envelhece e a forma de controle apenas muda de vocabulário. O que antes era “bonito” ou “feio” passa a ser “elegante” ou “inadequado”. O que antes era uma cobrança para ser desejável se transforma em uma cobrança para envelhecer com discrição. Como se realmente houvesse uma última etapa de obediência reservada às mulheres: depois de passar a vida tentando corresponder ao olhar dos outros, aprender também a desaparecer dele.
Talvez seja por isso que uma discussão aparentemente tão pequena tenha me consumido tanto. Porque, no tribunal das pequenas grandes causas do nosso cotidiano, uma virilha de uma mulher madura consegue carregar questões muito maiores do que ela própria. Estamos julgando Xuxa, mas também julgamos, por tabela, quem pode mostrar o quê, até que idade um corpo pode ser sensual e em que momento uma mulher deveria começar a se retirar silenciosamente de determinados espaços.
Se este texto precisasse terminar com um veredito para o julgamento de Xuxa vs. a patrulha do envelhecimento feminino, eu não teria muita dúvida sobre de que lado ficaria.
Que vença Xuxa, Astrid e tantas outras mulheres que ainda se encontram aprisionadas por expectativas que nunca escolheram para si. Que vençam as que querem mostrar o corpo e as que preferem escondê-lo, as que pintam os cabelos e as que os deixam embranquecer, as que fazem procedimentos e as que recusam qualquer intervenção. Porque a verdadeira liberdade de envelhecer mora nesta ideia: a de não em encontrar uma nova maneira correta de fazê-lo, mas em finalmente não precisar existir de maneira alguma para agradar aos outros.
No tribunal das pequenas grandes causas, que a sentença seja definitiva: absolvam-se as mulheres e condene-se a patrulha que insiste em ditar como elas devem envelhecer.
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