É sexta-feira, eu sei. Mas tô revirando o baú aqui e decidi falar de uma das maiores artistas da história dos quadrinhos mundiais: Trina Robbins.
Não sei se você sabe, mas entre 2015 e 2017, quando a Mina de HQ estava nascendo, eu escrevia sobre histórias em quadrinhos para a Trip e a Tpm, enquanto fui coordenadora de mídias digitais da Trip Editora.
Publiquei várias coisas legais, como essa entrevista com Mauricio de Sousa, esses perfis de Powerpaola e Thais Gualberto, essa cobertura do FIQ, essa lista de HQs feitas por mulheres, esse texto sobre visibilidade lésbica, essas resenhas de Pílulas Azuis e de Placas Tectônicas, e até esse texto sobre a clássica treta que deu no 27º Troféu HQMIX. Tem mais coisa lá no meu nome, se você quiser ler.
Mas, sem dúvidas, uma das coisas mais legais e especiais que fiz foi essa entrevista de 2015 com Trina Robbins, ícone dos quadrinhos mundiais, a primeira mulher a desenhar a Mulher-Maravilha. Conversamos por e-mail antes dela vir ao Brasil pela primeira vez.
Nunca houve tanta mulher fazendo comics nos EUA como atualmente, e isso é incrível. Sinto como se eu estivesse testemunhando uma revolução nos quadrinhos.
Trina participou da terceira edição das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, o maior congresso HQs da América Latina, onde apresentou sua pesquisa sobre a história das cartunistas norteamericanas de 1986 até a metade do século XX, além de falar sobre a presença da mulher no mercado mundial.
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Sim, nessa entrevista fiz perguntas como Quadrinhos ainda é coisa de homem?. Me perdoem, faz mais de 10 anos e a gente ainda precisava afirmar esse tipo de coisa. Eu ainda estava aprendendo muita coisa sobre HQs e aprendi muito com Trina. Inclusive no encontro que tivemos com ela, apenas mulheres quadrinistas e pesquisadoras, logo após as Jornadas. Até hoje comentamos que se fosse qualquer quadrinista estrangeiro com 10% da importância que Trina tem a Gibiteca Henfil estaria lotada de homens insistindo para participar também.
DANIELA MARINO até escreveu sobre isso no nosso livro Quadrinhos, diversidade e insurgência - Mina de HQ 10 anos:
Meu incômodo difuso em relação ao tema começou a ganhar forma em agosto de 2015, quando participei de um encontro com Trina Robbins em São Paulo. Trina já era uma referência para mim desde a infância, por ter criado Misty (1986), minha personagem favorita. Mas foi naquele evento, na Gibiteca Henfil, em São Paulo, que sua fala se tornou um divisor de águas na forma que eu passaria a escrever críticas e pesquisar quadrinhos. Ao contar sobre a cena underground dos quadrinhos nos Estados Unidos dos anos 1970, revelou como o machismo impedia que ela e outras mulheres alcançassem espaços e reconhecimento iguais aos de seus colegas homens.
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Quando Trina morreu, em 2024, Dani Marino escreveu esse texto bonito para o Universo HQ.
Trina fez questão de marcar um encontro com autoras brasileiras para conhecer seus trabalhos e ouvir suas queixas. Mulheres de vários estados vieram a São Paulo na expectativa de encontrar com aquela que era uma referência não só para os quadrinhos, mas para a pesquisa sobre a produção feminina de quadrinhos nos EUA, à qual ela se dedicava há mais de 30 anos.
E tem também a entrevista que a Dani publicou originalmente no livro Mulheres e Quadrinhos:
Por que quadrinhos? Quero dizer, você lembra quando percebeu que seu trabalho poderia ajudar outras mulheres a lutarem por seu direito de fazer quadrinhos e terem seu talento reconhecido da mesma maneira que os homens têm?
Detesto desapontá-la, mas eu não tinha esses ideais nobres. Havia apenas uma outra mulher desenhando quadrinhos em São Francisco em 1970 e 1971; e eu só queria que pudéssemos fazer quadrinhos e ter nosso talento reconhecido.
Trina Robbins morreu em 10 de abril de 2024, aos 85 anos, após sofrer um AVC em fevereiro daquele ano. Autora norte-americana, ela foi a primeira mulher a desenhar a Mulher-Maravilha, mais de 40 anos após a criação da personagem, e também assinou os traços da Vampirella. Pioneira na produção feminina de quadrinhos, desenhou a primeira HQ estadunidense com uma personagem lésbica (Sandy Comes Out, 1972) e ajudou a lançar antologias históricas feitas só por mulheres, como It Ain't Me, Babe (1970) e Wimmen's Comix (1972). Em 1994 fundou a Friends of Lulu, associação sem fins lucrativos dedicada a incentivar a leitura de quadrinhos feitos por mulheres. Nas últimas décadas de carreira, ela se dedicou à pesquisa sobre a produção feminina de quadrinhos nos EUA, publicando mais de dez livros sobre o tema, entre eles Pretty in Ink (2013) e Great Women Cartoonists (2001).
Nunca é demais homenagear uma grande artista.
Bom final de semana e até mais,
Gabi

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