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Todo mundo na internet falando desse lançamento do tal do Ruyter. 600.000 pessoas numa live. Lançou um SaaS chamado Lasy AI. Prometeu que as pessoas iriam ficar milionárias.
E sinceramente? Quase ninguém vai ganhar um real com isso. Mas, muita calma nessa hora. Isso não é necessariamente ruim. E eu vou te explicar o que esse movimento significa para nós e nossa bolha tech.
Se você preferir, pode assistir este artigo em vídeo.
Quando entrei na bolha do Marketing Digital, uma das primeiras lições que aprendi é sobre a tal da escada de geração de valor.
Na prática, são 3 níveis de geração de valor. Quando comparamos essa escada, com o mercado do Marketing Digital, vemos claramente onde estamos e para onde estamos indo.
Nível 1: eu te ensino a fazer.
Aqui vivem os cursos, os infoprodutos, o “compre meu treinamento”. Você aprende uma habilidade, aprende um conhecimento. É onde o marketing digital vive.
Nível 2: eu faço com você.
Aqui entram os agentes de IA. Agentes que te ajudam a escrever copy. Agentes que criam carrossel viral. Agentes que geram posts de LinkedIn.
Mas está saturando rápido. Todo mundo lançando ferramenta de IA com promessa de que “meu agente é treinado com 1 milhão de copys diferentes”. No final do dia, o grande diferencial competitivo meio que desaparece.
Nível 3: eu faço por você.
É aqui onde mora o SaaS. E é onde o Ruyter está entrando agora. É onde o Leandro Ladeira, o Primo Rico, o G4 Educação estão investindo pesado.
Porque? Porque até 2020, fazer software era coisa de dev. Você precisava contratar software house, ou pegar um indiano, ou ser programador. Sempre teve uma barreira de entrada gigante.
Agora, com IA e no-code, essa barreira diminuiu. E os infoprodutores estão entrando nessa onda.
A entrada ganhou força com o fortalecimento da IA e com a redução dos custos dos tokens. Cada vez mais, infoprodutores começaram a usar AGENTES para entrar no mercado de software. Esses agentes são utilizados de várias formas.
Agentes como ferramentas
Em um primeiro momento, muitos começaram a usar agentes como ferramentas para vários mercados. Como por exemplo, agentes para criação de conteúdo, artes, propagandas, vídeos, músicas, copy, etc
No começo, começaram vendendo como algo inovador, mas ao longo dos meses, mais e mais concorrência foi surgindo e o diferencial competitivo dos agentes “por si só” não era mais o suficiente.
Infosaas
Um segundo caminho natural, que muitos estão escolhendo é o caminho que você pluga conteúdo + agentes. Por exemplo, você assiste uma aula sobre como fazer copies que engajam. E do lado tem um agente que te ajuda a gerar copies que engajam. É a junção da escada 1 com a escada 2.
Esse modelo já tá rolando forte. Temos vários cases no ecossistema. Você vê cursos que vêm com ferramentas integradas, plataformas que misturam educação com automação.
SaaS
Aqui que o bicho começa a pegar. Alguns infoprodutores, normalmente a galera com background técnico (ou que já trabalhou/fundou uma startup) que entraram no digital, começaram a construir ferramentas para atender determinadas soluções, e acabaram construindo conteúdo em volta da ferramenta.
Por exemplo, vamos pegar o case do Kaio, nosso aluno. Ele construiu uma ferramenta para ajudar pessoas a fazerem melhores investimentos, construindo uma ferramenta que faz várias análises de mercado.
Ao longo dos anos, começou a produzir conteúdo sobre sua ferramenta, e naturalmente, dado a demanda da sua audiência, começou a produzir conteúdo que acabou virando um curso. E naturalmente, no curso, ele ensina como fazer melhores investimentos usando sua ferramenta.
E assim, todo aluno, acaba também assinando sua ferramenta. Um movimento super natural e cada vez mais presente no ecossistema.
Quando analisamos o lançamento da ferramenta do Ruyter, que é basicamente uma cópia de ferramentas como Lovable, Replit, Base44. Já existem várias ferramentas como essa no mercado.
O problema?
A grande maioria das pessoas que consomem essas ferramentas, são conhecidas como early-adopters. São pessoas, que por algum motivo, testam novas tecnologias antes delas caírem na boca do povo.
Quando pensamos na globalização, estamos uns 5-6 anos atrás do EUA, quando falamos principalmente da cultura de adoção de tecnologia.
Infelizmente, no Brasil, a grande maioria das pessoas mal sabem usar o ChatGPT direito. Mesmo o Brasil, sendo o segundo maior mercado, a maioria ainda usa para coisas simples (quando usa).
Você pode até pensar: “Ah, mas agora todo mundo consegue fazer software porque a barreira técnica diminuiu. Software virou commodity.”
Esse pensamento tá errado.
Se fosse verdade que só a capacidade de criar software te transforma em empreendedor de sucesso, então todo desenvolvedor deveria ser um empreendedor. E a gente sabe que não é assim.
No final do dia, SaaS não é só sobre ter um produto. É sobre saber entregar valor. Reter clientes. Criar uma estrutura que comporte seus clientes - como administração, operação, vendas, análise de dados, etc.
Além disso, as ferramentas de no-code e IA ainda têm muitas limitações. Falhas de segurança. Códigos mal escritos. A IA às vezes decide escrever da forma que ela acha melhor, mas não necessariamente é a melhor. Então ainda não dá pra simplesmente terceirizar tudo pro robô e esperar que funcione.
Eu vejo 3 cenários claros se desenhando:
Primeiro: muita gente vai falhar. Porque acham que montar um SaaS é igual lançar um curso. Não é. Você não pode só pegar uma ferramenta digital, jogar na internet, socar audiência em cima e achar que as pessoas vão ficar.
O que vai acontecer com 99% dos SaaS dos infoprodutores é que eles vão ser um balde furado. Vão vender baseado em gatilhos, baseado em hype. Vão fazer lançamentos mirabolantes, encher de usuários no primeiro mês, e ver 80% cancelarem no segundo.
E quando os infoprodutores entenderem que churn é muito mais importante que aquisição de novos clientes, vai demorar muito tempo. Porque eles estão acostumados com o jogo de lançamento: você vende 1.000 cursos em 5 dias e embolsa o dinheiro. Acabou. Não tem churn de curso. SaaS é diferente. SaaS cobra que você entregue valor todo mês, todo dia.
Segundo: muita gente vai só ficar brincando. Vai entrar na ferramenta, vai testar, vai construir umas soluções pra si mesma. Vão fazer ferramentas simples: uma calculadora aqui, um controle de estoque ali, um CRM básico pra gerenciar leads.
E sabe de uma coisa? Isso é ótimo. Porque ajuda na educação do mercado. As PMEs vão começar a entender mais sobre como construir soluções para resolver suas próprias dores internamente. Não vão vender. Mas vão aprender.
E isso, por si só, já é valioso. Porque quanto mais gente experimentando, mais o mercado se educa. Mesmo que essas pessoas não construam negócios de verdade, elas vão criar uma camada de early adopters que vai permitir que, daqui a 2-3 anos, o timing brasileiro esteja mais maduro.
Terceiro: uma minoria vai ter sucesso. Aqueles que realmente entenderem como funciona o jogo de SaaS. Aqueles que forem metódicos, que validarem, que testarem, que pivotarem. Que conversarem com clientes, que iterarem rápido, que construírem com propósito. Esses vão construir negócios sólidos.
Vão ser poucos. Mas vão existir.
Porque mesmo com tudo isso que eu falei, com a maioria falhando, com muita frustração pelo caminho, esse movimento é extremamente saudável para o mercado de SaaS no Brasil.
Primeiro, pela educação de mercado. Cada lançamento como o do Ruyter ajuda a criar a camada de early adopters de empreendedores de tecnologia no Brasil. Quanto mais gente testando, brincando, falhando... mais o mercado aprende. Mais as PMEs entendem que dá pra criar solução sem contratar um time de 10 devs. Mais os pequenos empresários percebem que tecnologia não é bicho de sete cabeças.
Segundo, pela concorrência saudável. A concorrência força com que os SaaS nasçam melhores. Nasçam mais focados em proposta de valor clara. Nasçam com uma base mais sólida. Quando a barra sobe, quem faz SaaS “de verdade” com método, com clareza, com foco no cliente, se diferencia naturalmente. A concorrência elimina os fracos e fortalece os fortes.
E terceiro pelas oportunidades gigantes que estão surgindo.
Se você é técnico, presta atenção: tem uma onda gigante chegando. E você pode surfar ela de forma muito inteligente.
Pensa comigo: esses infoprodutores têm audiência gigante. Eles sabem vender. Eles têm base de clientes. Mas eles não sabem construir produto de verdade. Eles não manjam de arquitetura, de banco de dados, de segurança, de escalabilidade.
É aí que você entra. E você pode fazer isso de pelo menos 3 formas:
Parceria técnica: Você entra como CTO ou desenvolvedor principal de um lançamento grande. O influencer traz audiência e vendas. Você garante que o produto funcione de verdade. Divide receita. Tem gente já fazendo isso e faturando 6 dígitos por ano só de participação.
Consultoria especializada: Oferece serviço de “revisão técnica” ou “hard-code pós validação”. Muita gente vai lançar no-code, validar a ideia com os primeiros clientes, e precisar de alguém pra reconstruir do jeito certo. Cobre por projeto. É um mercado que vai explodir nos próximos 2 anos.
White label: Você constrói a base técnica sólida (infraestrutura, segurança, APIs bem feitas) e vende como white label pra vários infoprodutores. Eles personalizam a interface e vendem como deles. Você cobra mensalidade recorrente.
Porque no final do dia, eles têm audiência e você tem conhecimento técnico. E a junção dos dois pode ser extremamente poderosa. É inevitável que essa onda aconteça. Então a pergunta não é SE você vai surfar. É COMO.
Se você já tem um SaaS ou tá pensando em fazer um, precisa entender uma coisa: o jogo mudou.
Antigamente, ter um produto melhor ou mais barato te dava vantagem. Agora não. Agora todo mundo consegue construir software. Com IA, com no-code, com outsourcing barato. A barreira técnica caiu.
O diferencial agora vai ser branding. Como você se posiciona. Qual história você conta. Como as pessoas te percebem.
Vai ser o problema. O que você resolve. E mais importante: quão claro é o problema que você resolve.
E vai ser experiência. Como você faz as pessoas se sentirem quando usam seu produto.
Pega o exemplo da Magie — ferramenta de pagamentos via Pix no WhatsApp. Você manda um áudio, faz um Pix, de forma 100% segura. A experiência é tão positiva e tão simples que você fica com vontade de compartilhar. Você quer que as pessoas se sintam bem também.
Isso é o que um SaaS precisa criar. Não é sobre ter 50 features. É sobre fazer UMA coisa 10x melhor que qualquer um. E fazer com que as pessoas sintam a diferença.
E tem mais: como falei antes, churn é mais importante que aquisição — e essa é a lição que os infoprodutores vão demorar anos pra aprender. Não adianta você ter 10.000 usuários entrando se 9.000 saem no mês seguinte.
Você tem que resolver o problema de verdade. Criar valor de longo prazo. Fazer as pessoas ficarem. E isso exige onboarding que funciona, suporte que responde rápido, produto que entrega o valor prometido, comunicação constante com o cliente, melhoria contínua baseada em feedback.
É trabalho duro. É chato. É operacional. Mas é o que separa um SaaS de verdade de um lançamento que vira fumaça em 3 meses.
E aqui vai outra: validação manual vem antes de automação. Você não constrói um SaaS e automatiza tudo no dia 1. Você resolve o problema manualmente primeiro. Você valida se as pessoas realmente veem valor. Depois você automatiza. Depois você escala.
Olha o exemplo do Andre Servaes da Selvia (contabilidade via WhatsApp). Ele emitiu TODAS as notas fiscais manualmente no primeiro ano. Cliente pedindo 300 notas por mês? Emitia na mão mesmo. Por quê? Porque ele queria entender o comportamento real. Queria sentir a dor do cliente. Queria ver como eles usavam.
Aí desenvolveram um app completo. Lindo. Funcional. Mostraram pros clientes. E sabe qual foi a resposta? “Adorei o app. Mas posso continuar pelo WhatsApp?”
Jogaram o app no lixo. Pivotaram 100% pro WhatsApp. Resultado? NPS de 9.76/10. Alguns meses batem 100. Por quê? Porque ele entendeu o que o cliente REALMENTE queria. Não o que ele achava que o cliente queria.
Vou ser sincero aqui. Eu acho que o Lazy AI não vai dar certo. Não quero criticar o lançamento. É minha mera opinião sobre o produto.
Mas olha o que tá acontecendo com Lovable, Skip, Base44. Eles tiveram uma curva gigante de crescimento no hype de IA. Mas estão sangrando violentamente na retenção. A curva tá caindo na mesma velocidade que cresceu.
Por quê? Porque as pessoas ainda não têm maturidade para entender como usar essas ferramentas de forma eficaz. E essas ferramentas não são avançadas o suficiente hoje para resolver problemas de médio e grande porte.
No melhor cenário, a galera vai conseguir construir ferramentas pra si mesma. Uma ferramenta pra calcular alguma coisa. Uma ferramenta pra montar um CRM interno. Algum tipo de controle, algum tipo de processo.
Isso é super legal. Vai ajudar na educação do mercado. Vai fazer as pessoas entenderem melhor o que é possível. Vai criar uma base de conhecimento que não existia antes.
Mas que as pessoas vão ganhar grana de verdade e crescer? Construir negócios escaláveis que geram 6 dígitos por ano? Vão ser muito poucos casos. Porque a distância entre “fazer uma ferramenta funcionar” e “construir um negócio sustentável” é gigantesca.
No final das contas, não importa quantas pessoas do marketing digital ou do infoproduto entrem no mercado de SaaS. O jogo continua sendo o mesmo para quem faz SaaS de verdade.
Você tem que entender como funciona o jogo. E o jogo do SaaS é um jogo que exige paciência, método, validação, iteração, foco em retenção, e clareza absoluta do problema que você resolve.
Não é só jogar uma ferramenta na internet e esperar que funcione. Não é só pegar sua audiência e empurrar um produto pra eles. Não é só fazer um lançamento bombástico e achar que resolveu.
É criar uma experiência que as pessoas nunca vão esquecer. É resolver um problema 10x melhor que qualquer um. É fazer com que as pessoas se sintam bem quando usam seu produto. É construir relacionamento de longo prazo com seus clientes.
E isso só vem com tempo, com erro, com aprendizado, com humildade pra pivotar quando precisa, com coragem pra jogar código fora quando não tá funcionando.
Então sim, é possível você construir ferramentas de no-code. É possível você ir a mercado e validar. É possível você ter seus primeiros usuários pagantes. E você deveria fazer isso. Porque validar com no-code é rápido, barato e eficaz.
Mas depois que você validou sua ideia e teve seus primeiros clientes, você tem que investir. Trazer um desenvolvedor. Melhorar o código. Revisar tudo. Corrigir as falhas de segurança. Refazer a arquitetura se necessário.
Deixar a casa arrumada para a segunda etapa do seu negócio. E entender que o jogo é de longo prazo. Você não vai ficar milionário em 6 meses. Mas você pode construir um negócio sustentável em 2-4-5 anos. E isso vale muito mais.
Obrigado por ler até aqui :)

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