Para compreendermos a magnitude da fraude que moldou o Ocidente, precisamos paralisar o tempo no exato instante em que a palavra trava na garganta de Sócrates. No fragmento 414b de A República, não encontramos apenas um diálogo filosófico; encontramos o registro do nascimento de uma tecnologia de dominação. Sócrates, o homem que fez da busca pela verdade o seu martírio, o pensador que preferiu a cicuta a trair a própria consciência, subitamente silencia. Ele hesita. Ele diz: "Tenho muitos bons motivos para hesitar em falar".
Sócrates: — Como poderíamos, então, encontrar um estratagema, uma daquelas mentiras que se tornam necessárias [...] uma única e nobre mentira, que convencesse, de preferência, os próprios governantes ou, se não a eles, o resto da cidade?
Glauco: — Que mentira é essa?
Sócrates: — Nada de novo, mas algo de fenício, que já aconteceu antes em muitos lugares, como dizem os poetas e em que nos fizeram acreditar, mas que não aconteceu entre nós, nem sei se poderia acontecer...
(Sócrates hesita em contar, mas Glauco o pressiona. Ele então descreve o mito:)
"Direi aos cidadãos: 'Vós todos, quantos habitais na cidade, sois irmãos. Mas o deus que vos modelou, ao misturar as vossas naturezas, introduziu ouro na gênese daqueles que são capazes de governar; por isso são os mais honrados. Nos auxiliares [guerreiros], misturou a prata; e o ferro e o bronze nos lavradores e demais artesãos.'"
Essa hesitação não é um recurso retórico. É uma hesitação ontológica. Sócrates está diante do abismo entre o filósofo, que busca libertar a alma através da luz, e o engenheiro social, que busca gerir a pólis através das sombras. Ele admite que precisa de uma "audácia extrema" e de uma "eloquência especial" para proferir o que viria a seguir: a nobre mentira.
Por que a audácia? Porque o que ele está prestes a propor é o oposto da filosofia. A filosofia é o processo de desocultamento; a nobre mentira é o processo de soterramento. Ele hesita porque sabe que está prestes a olhar nos olhos de seres humanos e dizer que a singularidade deles não existe. Ele sabe que o determinismo biológico não nasce de uma constatação da natureza, mas de uma conveniência política desesperada por estabilidade. A hesitação de Sócrates é o último vestígio de ética antes da implementação do sistema de castas. Ele sabe que está cruzando a linha entre educar e domesticar.
Após a hesitação, Sócrates desfere o golpe de misericórdia na autonomia individual. Ele propõe convencer os governantes e os cidadãos de que toda a sua existência pregressa, toda a sua formação, o suor de seus estudos e a dor de seus aprendizados foram, na verdade, "apenas um sonho".
"Direi que tudo o que lhes ensinamos, educando-os e instruindo-os, tudo aquilo de que julgamos ter conhecimento e experiência não passava, por assim dizer, de sonho; que, na realidade, eram então formados e criados no seio da terra."
Aqui reside o crime fundamental, o assassinato da biografia. Para que o sistema de determinismo funcione, ele precisa, obrigatoriamente, de uma amnésia coletiva. Se você se lembra de que se esforçou para aprender, você sabe que o aprendizado é um processo de expansão plástica. Se você se lembra de que superou seus limites, você sabe que o limite é uma fronteira móvel. Mas, se o sistema consegue convencer você de que sua trajetória é uma ilusão onírica e que sua única realidade é a "formação nas entranhas da terra", você perde sua agência.
Ao transformar a educação em sonho, Platão retira do ser humano o mérito da própria construção. Ele nos transforma em produtos acabados, saídos de uma linha de montagem geológica. O determinismo biológico é a tentativa milenar de trocar o "eu me tornei" pelo "eu fui fabricada". É o apagamento sistemático de cada cicatriz de aprendizado para que, no vazio da memória, o sistema possa carimbar o selo do "metal" correspondente. Quando a sua história é invalidada, a sua resistência morre.
Esta mecânica de invalidação do passado encontra seu eco mais aterrorizante na literatura de George Orwell. Em 1984, o Partido entende que o controle do presente é impossível sem a reescrita do passado. "Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado".
Sócrates é o precursor do Grande Irmão. Ele antecipa a necessidade de um "ministério da verdade" que atua nos arquivos da memória pessoal. O determinismo biológico é a forma definitiva de totalitarismo porque ele instala um guarda dentro da sua cabeça. Se o sistema controla a sua memória do que você foi capaz de fazer ontem, ele dita o que você será capaz de fazer amanhã. A hesitação de Sócrates é o peso da consciência de quem sabe que está instalando o primeiro sistema de vigilância interna da humanidade: o rótulo que se autoafirma. O determinismo não precisa de muros físicos se ele conseguir convencer você de que o seu potencial está "escrito no sangue". É a amnésia orwelliana aplicada à biologia.
Por que essa mentira ressoa com tanta força hoje? A resposta está na modernidade líquida de Zygmunt Bauman. Vivemos em uma era de fluidez absoluta. As instituições derreteram, as carreiras são incertas e a identidade se tornou um fardo pesado. O ser humano moderno sofre de uma angústia existencial profunda por não ter onde se segurar.
Nesse cenário, a mentira de Platão se torna uma oferta sedutora. Quando o mundo está derretendo e você não sabe quem é, e alguém chega e diz: "Você é de bronze, esse é o seu perfil, aceite seu lugar", isso te dá uma sensação de solidez. Nós aceitamos o rótulo não porque ele seja verdadeiro, mas porque ele nos dá um lugar. Preferimos a segurança de uma prisão bem definida à vertigem de sermos uma possibilidade infinita. A nobre mentira é a âncora que jogamos no mar de Bauman para não nos afogarmos na nossa própria liberdade. O determinismo é o conforto de não ter que escolher quem ser, porque o "metal" já escolheu por nós.
Para consolidar essa fraude, Sócrates introduz a figura da mãe terra. Ele diz que a região onde vivem é a sua mãe e ama. Ele opera a naturalização da política. Ao transformar o estado em "mãe" e a hierarquia social em "natureza", ele blinda o sistema contra qualquer questionamento. Se você questiona sua posição social, você está sendo "ingrata" com a sua biologia.
Ele usa o afeto para selar a submissão. Esta é a semente do que Stephen Jay Gould denunciaria séculos depois em A falsa medida do homem. Gould mostra como a ciência do século XIX apenas trocou os "metais" de Platão por "tamanho de crânio" ou "QI", mas o objetivo permaneceu o mesmo: convencer o oprimido de que sua opressão é uma característica natural.
Nesta mentoria, nós não aceitaremos o esquecimento. Nós vamos recuperar cada fragmento de biografia que o sistema tentou converter em sonho. Vamos entender que a hesitação de Sócrates foi o aviso de que uma mentira estava sendo contada. Não fomos criadas nas entranhas da terra; fomos criadas na arena da vida, através do erro, do suor e da insistência.
Se o sistema quer que você esqueça o seu esforço para te vender um destino biológico, a nossa resposta será a hipermemória. Vamos lembrar de cada degrau que subimos para provar que o nosso ouro não é um metal de nascimento, mas uma liga forjada na resistência. O determinismo biológico é a fábula dos covardes que têm medo da plasticidade humana. Nós somos a prova viva de que a biografia sempre vence a biologia.
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