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Mayara Facchini | Newsletter · Apr 21, 2026

#34 – Eu já escuto os teus sinais

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Mayara Facchini · Mayara Facchini | Newsletter

Era minha segunda noite em Lisboa. Eu estava deitada na cama procurando o sinal de wi-fi quando me deparei com uma rede chamada “Alceu Valença”. Curioso. Pensei que algum brasileiro vivia por ali e era realmente fã para escolher esse nome — um pensamento completamente trivial e desimportante naquele momento, mas que eu compartilhei com a minha, então, colega de trabalho que eu havia conhecido no aeroporto dois dias antes.

O ano era 2014, Vitória e eu estávamos em Portugal para um treinamento de um mês na editora que acabara de nos contratar. Nossa missão era aprender o máximo possível para depois retornar ao Brasil e abrir a filial da empresa em São Paulo. Aquele apartamento era nosso xodó, das saudades mais bonitas que carrego comigo. As memórias ali são todas alegres. Ao lado do Castelo de São Jorge, com vista para o Rio Tejo, escrever à beira da janela num caderno ou para o blog e as tantas andorinhas de cerâmica na parede que replico na minha casa até hoje. Comemos morangos gigantes ali e quilos de cereja com preço de banana (e pastéis de nata, claro). Meu único incômodo era o absoluto silêncio noturno. Para quem se acostumou a dormir com barulho de cidade grande, levei um tempo até entender a poesia da madrugada, o espaço para perceber o breu de dentro.

Um mês depois, já de volta em São Paulo, meu diretor me encaminhou um e-mail que dizia “Tratas?” seguido de uma mensagem de Yanê, esposa de Alceu, contando que ele tinha escrito um livro e que estavam à procura de uma editora para o projeto. Imagine só! Logo lembrei do sinal de wi-fi e pensei que, afinal, ele era mesmo um sinal. Sorri para o universo como sempre faço quando essas sincronicidades me acontecem e, algumas negociações depois, virei, com orgulho, editora do primeiro livro de Alceu: O poeta da madrugada, lançado em terras lusitanas e brasileiras simultaneamente. Durante uma reunião com ele e sua equipe, por acaso falávamos sobre Lisboa e entendi a brecha perfeita para compartilhar essa coincidência curiosa. Imagine meu espanto ao descobrir nessa conversa que o wi-fi não era de fã nenhum e, sim, deles. Que loucura! Fomos vizinhos!

Alceu entende mesmo de escutar os sinais. E eu acredito que estar atenta a eles traz outras cores para a vida.

No ano passado, quando a Histórias Bem Contadas já completava quatro anos de vida, eu constantemente recebia pedidos de autores que buscavam agenciamento literário, mas sempre recusava. Nunca tinha pensado em virar agente, meu negócio era melhorar texto, ouvir e escrever histórias, escutar autores. A ponte entre as editoras e os livros eu fazia de bom grado quando fazia sentido. Por que não? Mas o universo seguia me dando sinais de um novo caminho. Ao ponto de começarmos a receber perguntas sobre agenciamento no WhatsApp da empresa com uma frequência curiosa. Foi nessa época também que o original de uma cliente nossa foi aceito por uma grande editora. Eu tinha acompanhado o livro dela com o maior carinho desde o começo e era uma verdadeira fã do projeto! Mas também tinha sido sincera ao alertar sobre a dificuldade de se conseguir uma editora tradicional para uma autora iniciante. Curiosamente — e contra todas as práticas habituais do mercado —, a editora em questão entrou em contato comigo porque estava procurando autores iniciantes com bons projetos: particularmente algum que se encaixava muito bem com o dela. No e-mail de aceite, a frase final dizia “você vai entrar como agente literária dela?”.

Mas foi durante uma reunião com a Editora Planeta que a mensagem me pegou de um jeito diferente: “Bem que você poderia agenciar o Alceu porque gostaríamos de ter um livro dele por aqui”. Era anunciação. E era Anunciação. E eu já tinha aprendido que quando os sinais vinham de Alceu, eu não deveria ignorar. Mandei mensagem para a Yanê naquele mesmo dia. A resposta dela foi curta e direta, mas me emocionou: “nossa agente literária com orgulho”.

Às vezes penso que escrever em Portugal me conectou com algum tipo de encanto que ainda não sou totalmente capaz de decifrar. Alceu, em poema datado de 2014, sentiu também:

“Em seguida, vou para a sala e escrevo sobre o nada

Simplesmente, pelo puro prazer de escrever.

E não tendo algo ou nada mesmo a dizer,

Nenhuma dor, nem um pouco de alegria,

Invento versos para fugir da monotonia,

Nessa madrugada insossa, melosa, noturna e vazia,

Reitero o simples prazer de escrever por escrever.

Agora, olho através de uma janela do bairro do Castelo

E vejo, lá embaixo, Alfama, Mouraria e a ponte sobre o Tejo.

Nessa noite de verão invernosa quase fria,

Olho as luzes alaranjadas da cidade de Lisboa e penso:

— Quem sou eu pra incorporar Fernando Pessoa...”

(VALENÇA, Alceu. O poeta da madrugada. Lisboa: Chiado Editora, 2015. p. 105.)

Read the original on mayarafacchini.substack.com

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