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Mayara Facchini | Newsletter · Mar 17, 2025

#29 - O café e o roubo das cores

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Mayara Facchini · Mayara Facchini | Newsletter

Todos os dias eu acordo com a esperança de que o cheiro do café tenha voltado para mim. No começo, em abril do ano passado, todos os dias eu abria um pacote de café com a mesma ansiedade de uma criança que, ansiosa, pergunta se está na hora de abrir os presentes de Natal: “será que é hoje?”. Não era. E por quase um ano ainda não é.

Com o tempo, a empolgação para abrir o pacote se tornou um rancor imenso de qualquer café passado perto de mim, um lembrete matinal de que a vida não é mais como era antes. Porque se não bastasse o cheiro ter ido embora, no lugar dele veio um substituto horrível bastante similar ao de esgoto. A responsável foi uma sinusite que apelidei de Megazord porque perto das outras tantas que já tive nesses últimos cinco anos (umas quinze), essa foi mesmo braba. E eu adoraria dizer que quinze é uma força de expressão, mas não. Só no ano passado foram cinco rodadas de antibiótico e uma cirurgia.

É um luto que não supero porque revivo a perda diariamente. Acordo sem pensar em nada disso, mas basta o primeiro aroma do dia tocar no nariz para me lembrar das cores que perdi. Os aromas. Os sabores. O conforto sensorial. As comidas-aconchego. Se volto em textos antigos, percebo o quanto tudo isso era precioso nas minhas pequenas alegrias. Cheiro de chuva, de água no asfalto quente, de grama molhada, de velas aromáticas, meus perfumes favoritos e o café. O café no corredor do prédio, o café no café da manhã, o café depois do almoço ou o café da tarde. O café. Ai, que saudade gigante do cheiro de café! Como podia caber tanto afago num cheiro? Como podia existir tanto acolhimento numa caneca? Não me lembro mais dele. E é também como se tivessem me roubado as memórias.

Quando eu era criança, Rainbow Brite e roubo das cores era um dos meus livros favoritos. A história de uma menina-arco-íris, com seus amigos coloridos, que precisavam descobrir porque os tons de cinza tinham tomado conta de tudo, parece um pouco como tenho visto a vida agora. Não só eu perdi as cores, como minhas amigas coloridas também têm precisado lidar com a sobriedade da vida adulta. Estamos exaustas dos afazeres, das responsabilidades, dos cronogramas, da repetitividade das redes sociais, mas principalmente das emergências, das perdas incontroláveis e das tragédias recorrentes.

Secretamente, digo para mim que ter o cheiro do café de volta será também o sinal de que tudo voltou para o eixo. Talvez seja a voz de Rainbow Brite me incentivando a não desistir: “a gente precisa trazer as cores de volta para que o mundo seja um lugar feliz de novo”.

Read the original on mayarafacchini.substack.com

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