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Segunda Vida · Dec 12, 2025

De volta & Magritte, o homem que entendia as mulheres

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Martha Batalha · Segunda Vida

De volta!

Reabri a tenda.

Perdoem o sumiço. Estou imersa num longo projeto de ficção, trabalhando na edição de um livro (lançamento em agosto de 2026!), escrevendo crônicas para o Globo e lidando com a vida.

Já faz tempo que penso em voltar. E havia sinais sugerindo a volta, como a frase de um conto lido por mim esta semana às três da manhã, hora pontual da minha insônia. Durante anos eu me incomodava com ela. Agora eu abro o kindle. Li romances inteiros de madrugada. Nessa hora quieta e escura, a guarda está baixa e a ficção transita facilmente da vigília ao subconsciente. Sonharei com estes livros depois.

Dessa vez eu estava relendo um conto de uma autora que já deveria ter sido publicada no Brasil, Grace Paley. Nele uma senhora relembra a juventude numa conversa com a sobrinha. Então ela diz:

“A essa altura você já deve se conhecer, meu amor. Seja lá o que você fizer, a vida não para. Ela só se senta um minuto e sonha um sonho.”

Por todo o tempo longe daqui eu pensava: que a Martha Batalha Substaquiana estaria fazendo? Que textos estaria produzindo? Quem seria esta outra pessoa, a se fazer empilhando (stack em inglês) aqui sua escrita?

A vida não para. Existe o que é dito e também o vácuo do não dito. E apesar da vida e por causa dela eu voltei.

Obrigada aos assinantes da newsletter.

Vocês são os tais brasileiros que não desistem nunca.

Coloquei no About (Sobre) do Substack o que pretendo com esta página, além de argumentos inquestionáveis para a leitura. Vão lá dar uma olhada (e conhecer o Walcir).

Imagino um espaço de diário/carta aos leitores/crônica/eis um pedaço da minha cabeça. Um espaço de resistência ao algoritmo e ao prazer instantâneo e raso das mídias sociais. Eu quero escrever sobre o que for.

E só prometo não ser chata.

No mais,

Quero dividir uma imagem que está comigo há duas semanas. Desde que todos nós decidimos nos indignar em conjunto com os feminicídios no Brasil. É uma pintura do Magritte.

Magritte, alguns devem saber, é “aquele pintor surrealista do cachimbo”.

Ou talvez você conheça Magrite como “aquele cara que pintou o homem de chapéu e rosto coberto por maçã”.

Mas a pintura dele que não me deixa, é muito mais forte e necessária é esta:

Chama-se Estupro (Le Viol).

É um rosto de mulher, feito pelo corpo de uma mulher. Os olhos são mamilos. O nariz um umbigo. A boca é o triângulo com pelos pubianos. O pescoço é grosso como um falo. Os cabelos têm a textura de pelos pubianos. Esta mulher-objeto de olhos esbugalhados parece querer gritar, mas ela não tem uma boca e sim uma vagina. Ela parece assustada e se parece também com uma coisa estúpida, desumana e silenciosa.

Magritte pintou esse quadro em 1934. Foi exposto na Bélgica por trás de uma cortina devido ao choque e desconforto causado, o que indica o sucesso da mensagem e a hipocrisia reinante. Essa é a década de 1930, o breve período de paz entre as duas grandes guerras mundiais quando estupros se davam à torto e a direito. O que as pessoas não queriam ver numa tela é também o que tantas vivenciaram. É o que aconteceu, acontece e acontecerá.

Dizem que Magritte foi influenciado pela morte da mãe por suicídio. Ela foi encontrada em um rio com a vestido cobrindo a cabeça. Talvez. Ou talvez ele saiba mais sobre estupros e violência à mulher do que ficou registrado para a posteridade.

Eu amo esse quadro. Pela violência da imagem, o desconforto que causa. Pela coisificação de uma mulher, vista pelos homens como um objeto sexual.

E principalmente porque esse quadro foi feito por um homem.

Matisse viu como os homens viam as mulheres.

Essa pintura faz o mesmo que a palavra feminicídio. Ao existir ela torna real algo que já conhecíamos mas não era devidamente elaborado. Isso que tínhamos, o desconforto, a consciência, os fatos, têm agora uma âncora (imagem, palavra), para se associar.

Dei agora uma busca pelas imagens do Google relacionadas à Rene Magritte. Me chegam cachimbos, maçãs, um casal de rostos cobertos se beijando. Para chegar à pintura “Le Voil” eu preciso ser didática – Le Viol + Rene Magritte.

É revelador que 90 anos depois de causar desconforto esta pintura ainda seja velada. Que Magritte seja conhecido por um cachimbo (símbolo fálico aí) e não pelo rosto-coisa de uma mulher. Não pela denúncia precisa e direta de como tantos homens veem uma mulher.

Como disse a Joan Didion (e também o meu filho aos 9 anos ao fazer uma redação) a gente escreve para entender o que pensa.

Esses parágrafos tornam real o que eu penso, da mesma forma que Magritte tornou real uma violência por uma imagem necessária e desconfortável de olhar.

Espero que esta imagem fique com vocês como está em mim. Boa arte é isso. Faz com que a gente olhe uma pintura feita há 90 anos e ainda percebê-la como essencialmente humana e profundamente atual.

É o que temos para hoje.

Obrigada pela leitura.

Tenham um lindo dia.

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