Hola, amigos!
Saudações recentes do México, onde estive por uma semana e tirei este selfie de uma das pirâmides de Teotihuacán, no qual realizo o feito de tapar uns 900 turistas com as minhas costas:
O lugar é na verdade assim:
Viagens de turismo comprovam a máxima do Groucho Marx: “eu desconfio de qualquer clube que me aceite como sócio”. Todo mundo deseja ir para outro lugar, mas ninguém quer ser o outro do lugar. Ninguém viaja para ser considerado turista, para só ir a lugares de turista, comer comida de turista, comprar porcarias de turista. O que a gente quer é a experiência raiz, e rola um desprezo quando vamos para longe e só vemos gente como a gente.
Em Teotihuacán foi diferente. Ali muito amei meus irmãos turistas. Porque, do alto da pirâmide, ao ver essa gente feliz com roupa colorida, eu tive uma ideia de como era a cidade quando abrigava 200 mil pessoas. Foi como usar meus irmãos turistas como figurantes de outros tempos:
Teotihuacán chegou a ser a sexta maior cidade do mundo, existindo de uns 200 anos AC até 700 DC. Era um lugar sofisticado, com casas de múltiplos andares, templos magníficos e prédios públicos cobrindo uma extensão de vinte e um quilômetros quadrados. Quando os astecas chegaram na região, a cidade estava desabitada. Eles se instalam ali perto e depois também somem pela conquista espanhola.
Eu acredito na mensagem subliminar das viagens. Que na superfície a gente cumpre a lista do – Tem que ver – enquanto algo maior se revela.
No México, enquanto eu comia taco, bebia cerveja e namorava vestido, batia a questão:
Quando uma cultura morre, o que se perde e jamais chegará até nós? O que encontra meios de se manter e se torna por acréscimo, original?
É uma pergunta de resposta ao mesmo tempo impossível e pontual. Impossível pela dimensão abstrata do tema, pontual porque, pela arte, pode-se literalmente apontar o dedo e dizer: isso tem algo de novo e de antes.
O produtor musical Rick Rubin colocou desta forma:
A fonte da criatividade
Nós começamos com tudo.
Tudo visto,
Tudo feito,
Tudo pensado,
Tudo sentido,
Tudo imaginado,
Tudo esquecido,
E tudo que permanece sem palavras e sem pensamento, dentro de nós.
Aqui um exercício, baseado em duas imagens.
A primeira é de um quadro no meu airbnb no México: Vemos neste cândido mosaico um asteca oferecer um coração fresco aos deuses, após retirá-lo de um outro asteca. O ritual se dava com a pessoa a ser sacrificada sentindo-se tão viva quanto eu e você, com alguém chegando na mão grande para arrancar-lhe o coração.
A segunda é uma figura de Cristo na catedral do México. São duas imagens fortes, visual e culturalmente. Somadas com algo mais o resultado é esse:
Frida.
O primeiro que eu penso ao ver Frida é: me passa o endereço da loja. Eu quero os teus xales, cabelo, saias, batas, me arranja esse brinco, eu quero ser você.
O segundo é: como eu consigo ser do meu jeito, você? Como daqui deste canto, digitando as minhas coisinhas de escrita, eu consigo chegar ao máximo de mim mesma, a minha versão energética Frida Kahlo?
Muito de Macunaíma, na Frida. De feijoada e canibalismo. De habitantes de Teotihuacán sobrevivendo no povo asteca, de astecas sobrevivendo nos mexicanos. Sacrifício, cores, paixão, sofrimento, intensidade. De se impor pela continuidade e diferença e principalmente por uma certeza de si.
Esta mulher não fazia as sobrancelhas.
Não fazia o buço.
Era manca e depois teve a perna amputada.
Ela entendia a força estética de sua presença.
Frida quase não saiu do México e quase não saiu de casa. Quando artistas estavam criando o surrealismo na Europa, ela estava criando o seu próprio surrealismo do quarto. Estudou pouco e por muito tempo foi a exótica mulher do Diego. Teve um montão de amantes, mulheres, homens, Trotsky.
Como Van Gogh, a vida de Frida estará para sempre ligada à sua arte. A pequena mulher debilitada e febril, pintando deitada e por um espelho preso no alto da cama, é parte do processo e do resultado.
Destas mulheres que saem da vida para entrarem na mitologia.
A popularidade de Frida Kahlo fala mais da gente do que dela. A sua imagem reproduzida em posts e camisetas parece dizer: eu fui original. E você? Quando você vai ignorar os posts, memes, likes, comentários, seguidores, a porra do Zeigeist, IA, ego, resenha, influencer? Quando você vai se desligar do barulho para fazer algo de resultado incerto e só seu?
Existe algo de tranquilidade ao ser original. De se saber dona de uma verdade pessoal e irrefutável. Mas a consciência só chega depois. O caminho é longo, escuro, solitário, um labirinto. Repleto de ruas sem saída e falsos começos. De clichês de hábito e pensamento, derrapagens, fracassos, tédio. Sem garantia de chegada ou resultado.
Eu desejo para a gente a atitude desta senhora dançando numa rua da cidade do México. Divertindo-se muito mais do que os outros, não ligando e sendo, essencialmente, original.
No posts

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.