A VIDA É FEITA DE ENCONTROS
Depois de levar a Monica na universidade na terça passada, passei no supermercado. Quando voltei pro carro, tinha um papel preto no limpador do para-brisa. Minha curiosidade venceu, porque podia ser só uma propaganda, mas também podia ser algo relevante. Escrito à mão com uma letra toda comprimida, alguém dizia ter ralado meu carro. Deixou nome, endereço e telefone e pediu para que eu ligasse. Só isso já demonstra uma gentileza que eu vejo faltar muito nos motoristas daqui.
Fiz uma pesquisa sobre como proceder nesses casos em relação a seguro, e liguei. Uma voz de senhorinha me atendeu (fazia sentido com a letra do bilhete). Doris Diamond, olha esse nome! Ao contrário do que é considerado o melhor jeito de proceder, ela não quis acionar o seguro, preferindo pagar do bolso pelo conserto. Ela, pelo que entendi, já tinha acionado o seguro recentemente e ia acabar dando mais problema pra ela. Como eles iam sair de viagem em breve, seria bom resolver logo, porque eles iam ficar duas semanas fora (quem pode viajar por tanto tempo assim tem fundos para pagar a funilaria, né? Né???)
Combinamos que eu ia pegar um orçamento para consertar e depois enviava para eles. Fui atrás de duas oficinas, fui muito bem atendido por elas, peguei os orçamentos, entendi os processos e mandei um SMS pra dona Doris, imaginando que eles iriam questionar, pedir pra ver o papel do orçamento, pedir pra eu levar num lugar que eles conheçam, etc. Mas ela só agradeceu e disse que daria um cheque pra cobrir o orçamento mais alto.
Combinamos de nos encontrar no estacionamento do condomínio. Chegaram de carro, dois vovozinhos baixinhos, magrinhos e bem vestidos. Dona Doris e seu Joel. Muito simpáticos, me deram um cheque, preenchido com a mesma letrinha de vó, que ela me garantiu que ia ter fundos. Ela pediu desculpas, com os olhinhos apertados atrás de uma lente grossa, e pediu pra eu repetir o que disse. Depois de ver o implante coclear, falei as próximas frases mais alto.
Eles vão viajar por países do leste europeu, que parece muito interessante e, no contexto atual, meio arriscado. Eles falaram que passaram 4 horas no meu país uma vez, foram ver as Cataratas do Iguaçu, entrando pela Argentina (acho que ouvi o seu Joel falando “Niágara”, mas deixei rolar). Falei pra eles irem pro Brasil visitar o Nordeste, tomar um solzão, curtir um calor, comer muito bem. Quem sabe eles ainda consigam ir.
Em todo esse processo, a porcentagem de confiança na dona Doris e no marido dela era sempre maior do que a de desconfiança. Sei lá, eu sou assim. Talvez por ter crescido (e continuar sendo um pouco) ingênuo, talvez por “sentir” algo sobre as pessoas. E eu fiquei muito feliz por essa breve troca com eles, porque independente de qualquer coisa, eles foram corretos e gentis, e é assim que eu busco viver minha vida. Em meio a tanta gente ruim, visões de mundo péssimas e política opressora (aqui, claro, e espero que nunca mais no Brasil - veja bem em quem você vai votar, hein?), é revigorante encontrar gente bacana.
Boa viagem, vovozinhos!
EVENTOS
Neste fim de semana, estarei na comics shop de Port Jefferson, a Red Shirt Comics. É FREE COMIC BOOK DAY, um evento semestral onde editoras enviam exemplares gratuitos para as lojas, como incentivo para vendas e aumentar o movimento das lojas físicas, que sofrem sempre e cada vez mais com o comércio online, especialmente por causa da gigante e criminosa Amazon (sou culpado, em parte, porque compramos muitas coisas lá, apesar de gostar mais de ir em lojas de pessoas reais… Assunto pra outra hora). Vou ter meus livros, artes e prints numa mesa na calçada e espero que o dia seja bonito! Ano passado foi bem legal.
No domingo, vou ao BrookCon, evento geek organizado pelo clube de quadrinhos Animated Perspectives, da Stony Brook University. Farei uma palestra, mas pela primeira vez, em vez de falar da cena brasileira ou de recursos narrativos da linguagem, vou falar de mim. Quer dizer, do meu projeto mais recente, THE LONG JOURNEY BACK HOME (do qual falei bastante na Newsletter e também nesse vídeo especial). Acho bem simbólico, já que é sobre a jornada de me reencontrar como artista num projeto que fala sobre estar à deriva e buscando um rumo de volta ao lar.
PODCAST - SUPER PODEROSOS PRA QUÊ?
Num dos episódios mais recentes do podcast da INKO, converso com o Rapha Pinheiro e o Denis Mello sobre como é difícil - ou fácil - escrever sobre super heróis. e super poderes.
SKETCHBOOK 72
Continuando a série de vídeos/vlogs, aqui vai a estreia do novo Sketchbook! O Número 72 começou e eu fiz um vídeo sobre isso, com alguns desenhos inéditos. Em primeira mão, para você que me acompanha por aqui.
DA PRANCHETA:
Falando de caderno novo, aqui vai mais um dele:
Fiz esse desenho pra um curso. Pois é, estou de volta ao alunato (como diz meu colega de INKO, Pacha Urbano). É um curso de marketing e administração. Pois é. Mais pra frente te conto mai sobre isso.
Para ler todas as edições anteriores: ARQUIVO QUEBRA-CABEÇA

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