Foi esta pergunta que me fizeram certa vez. E dava para ver o espanto nos olhos grandes e redondos da pessoa. Talvez porque a resposta seja meio óbvia para quem tem caminhos predestinados, como filhos de professores, intelectuais, artistas e afins. Eu não. Venho de uma família pouco letrada do ponto de vista artístico-intelectual. Meus pais interromperam os estudos antes de concluírem o fundamental 2 e meus avós nem sequer frequentaram escola.
A ficção que gosto de criar para a minha própria trajetória é que minha bisavó Virginia, mãe da minha avó paterna, Edith, era leitora e escritora. Uma vez perguntei ao meu pai se tinha alguém na família a quem eu poderia ter puxado nesse interesse por ler, e ele prontamente me contou que se lembra de ver sua avó lendo pelos cantos e eventualmente sendo flagrada escrevendo – cartas ou quem sabe diários que se perderam em meio a uma herança de coisas que, conhecendo essa família como conheço, não teria qualquer valor, mas que para mim seria um tesouro. Procuro imaginar minha bisavó Virginia como a personagem Valéria, do Caderno Proibido de Alba Cespedes.
Coincidentemente, minha mãe também se chama Valéria, e me recordo bem de quando estava lendo este romance pensar no quanto a personagem lembra às vezes a minha própria mãe e o quanto ela lembra a mim mesma. Dei o livro de presente a uma amiga e hoje ela me escreveu dizendo o quanto estava se identificando. O nome dela não começa com V. Poderia fingir que sim e então diria que entre esses nomes que iniciam com a letra V possivelmente consiga construir uma hipótese para este mistério por trás da pergunta: “como cheguei na literatura?”. Não faria sentido. Nem meu próprio nome começa com V, ainda que eu carregue o sobrenome “Venâncio”, que poderia me defender. Neste ponto eu confesso que embarquei numa grande viagem e que não é à toa que esta newsletter se chama “devaneios.com”.
Voltando ao arco da minha ancestralidade, preciso dizer que: a informação sobre a minha bisavó Virginia veio tarde. Triste, eu sei. O ponto é que, antes deste interesse, havia me distanciado da minha genealogia por parte de pai por motivos de: dramas familiares. Neste meio tempo, minha avó, que não vejo há alguns anos, envelheceu daquele jeito que é um pouco esperado: desprendendo-se da memória que ainda a agarra no fio da vida. Nos falamos por chamada de vídeo às vezes, no entanto ela mal me reconhece.
Decido que quero saber mais sobre minha bisavó e esboço uma pergunta para minha avó durante uma das chamadas, ela se emociona ao se lembrar da mãe, assim como se sensibiliza ao lembrar da minha infância. Ela se lembra da mãe que a pegou no colo e da neta que pegou no colo. Ter colo e dar colo parecem ser as duas pontas do fio em questão. Ao cessar a prantina, ela pede que eu a visite antes de sua morte, coisa que prometo fazer e espero que seja a tempo. A minha avó sempre foi uma pessoa complicada, cheia de preconceitos e afins, essas coisas que fazem com que a gente não queira estar tão perto depois que adquire certa consciência, mas é inegável que, fofoqueira e grande contadora de histórias, fez parte da minha infância. Gostaria de lembrar melhor dos enredos da época do sítio “Água Parada”, onde muita coisa que importa para a minha própria história aconteceu.
Chafurdo nesta espécie de digressão para tentar explicar meu amor pela literatura como algo genealógico. Gosto de imaginar que, com os acessos necessários, as fabulações de minha bisa e de minha avó, cada uma a seu modo, poderiam ter se transformado em livros. Concluo: pode ser que minha afeição literária tenha a ver com tudo isso, contudo é verdade também que os livros me abrigaram em momentos difíceis da vida, como o luto da minha outra avó, que morreu quando eu tinha apenas 14 anos, e que foram essas páginas de poesia e ficção que me carregaram para o ímpeto de marcar no papel as coisas que me vêm.
Como nem tudo é óbvio, não se espera algo muito grandioso de alguém que é a primeira da família a entrar numa faculdade, daí o espanto da autora da pergunta que não quer calar por aqui. Não era óbvio que eu tivesse curso superior, tampouco que fosse estudar Letras e depois fazer Mestrado e Doutorado em Literatura, menos óbvio ainda que me tornasse escritora publicada, ainda que por uma editora independente e ainda que ninguém na fila do pão literário.
Não sei bem como cheguei, porém cheguei, e minha relação com a Literatura é das mais genuínas. Não sou mais pesquisadora do ponto de vista institucional. Ainda assim, sigo pesquisando na Literatura e na escrita as minhas obsessões e tudo aquilo que me seduz neste universo. Eventualmente, encontro respostas muito boas que poderiam ser dadas por alguém que chegou aqui meio que sem autorização, porque não sou filha nem neta de ninguém, apenas filha dos meus pais, que sempre acreditaram em mim e incentivaram os estudos, e neta e bisneta das minhas avós e bisavós, que foram mulheres que talvez tenham tido seus caderninhos proibidos. Gosto de imaginar que sim, que essas histórias todas que me chegam foram despistadas na abstração da própria perda – da matéria, do tempo, da memória – e que ainda assim se inscrevem em mim: filha, neta, bisneta, tentando dar contorno a essa imprecisão na fronteira entre passado e presente.
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Este texto foi escrito no início de 2025, mas desisti de publicá-lo à época. Hoje me deparei com ele e acabou que. Minha avó segue vivíssima, com a memória cada mais vivente do passado e desertora do presente. Tenho a visitado com certa constância, sendo confundida com parentes de outrora (que agora é o tempo dela) e colhido histórias outras. Sim, houve tempo. Ainda bem.
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