RSS Amplifier

devaneios.com · Nov 5, 2025

Desconhecidos conhecidos

0
Sign in to vote or save

Marina Grandolpho · devaneios.com

Já aconteceu de haver uma pessoa que você vê todo dia no ponto de ônibus ou cruzando contigo em trajetos opostos ou caminhando ao seu lado em um mesmo sentido? Desde 2022 moro próximo ao meu trabalho, na região central da cidade, e tenho me deslocado mais a pé. Nestes últimos anos vários desconhecidos se tornaram parte do meu dia a dia.

Primeiro foi uma moça que, assim como eu, andava todas as manhãs pela rua Luzitana a fim de levar seu pequeno para a escola. Às vezes andávamos na mesma direção, às vezes nos encontrávamos um pouco atrasadas (revezávamos no atraso). Depois, me mudei de apartamento, o que fatalmente fez com que eu também mudasse o caminho. Passei a fazer o trajeto começando pela outra ponta do centro da cidade. Ainda atravesso parte da rua Luzitana, mas não vejo mais a mulher com seu menino. Fico pensando o que pode ter acontecido. Talvez ela também pense, talvez não. O fato é que depois de um tempo até passamos a sorrir uma para a outra e falar bom dia, cúmplices de uma maternidade por vezes solitária.

Agora que ela não me acompanha mais, tenho novos desconhecidos: dois rapazes, com a diferença de que não cruzamos os olhares nem sorrisos. Não nos tornamos cúmplices. A relação é outra. O primeiro deles é um rapaz que pode ter de 25 a 30 anos. Difícil precisar. No início ele usava um óculos de sol parecido com o Neo do Matrix. Agora ele só usa as mesmas camisetas de bandas de sempre, entre elas uma da Alice in Chains. Às vezes ele está mais adiantado que a gente, às vezes parece superatrasado. Sabemos porque acabamos nos cruzando todo santo dia (útil) e sabemos quais os pontos de encontro significam atraso ou adiantamento de cada um de nós. Certa vez até o vi saindo de sua casa. Ele mora num prédio vizinho à escola da minha filha. Como vocês podem ver, é um desconhecido já bastante familiar.

Fico pensando se ele também já notou a mulher entre 35 a 40 anos, de franja no meio da testa e óculos, que passa por ele todos os dias carregando a mochila da filha, que por sua vez está de mãos dadas com a genitora. Fico imaginando se também sou a desconhecida conhecida de alguém, mesmo pessoas para quem não falo bom dia ou me torno cúmplice.

Ah, sim: o segundo rapaz. Ele é um cara que está sempre voltando do treino com sua garrafinha (provavelmente com whey). Quando está calor, ele está sem camisa, com os flancos e as tatuagens sempre à mostra; quando está mais fresco, ele mantém a camiseta dry fit cobrindo a parte superior do tronco. Está sempre caminhando com muita pressa, talvez o home office o esteja esperando. Diferentemente do primeiro rapaz, caminhamos na mesma direção, minha filha e eu estamos sempre atrás dele, então me parece menos plausível que eu também seja sua desconhecida conhecida.

Há, ainda, um terceiro homem, que esqueci de mencionar: o senhorzinho do estacionamento perto da minha escola. Quase todos os dias passo por ele, desejo bom dia, ele devolve bom dia e bom trabalho. Eu agradeço e sigo. Tampouco somos cúmplices. É sempre mais difícil desenvolver a cumplicidade com os homens.

Me dou conta que, andando pela cidade, podemos escolher entre observar e pertencer às ruas por onde deixamos nossos passos, sentindo falta dos rostos que acabam se tornando, de algum modo, familiares, mas podemos, também, ser alheios a tudo isso e apenas caminhar, certo dia tropeçando numa pessoa que dorme na calçada. São muitas. Isso dilacera meu coração. Quando passo, elas ainda estão dormindo, enroladas em cobertores doados pela assistência social, às vezes fazendo uma caixa de papelão desmontada de colchão. Essas pessoas, no entanto, nem sempre se fixam nos lugares. Circulam de lá para cá fugindo da guarda civil, que vira e mexe dá batida em praças e becos da cidade.

Caminhando pela cidade, trocamos bom-dias com algumas pessoas, fitamos os carros que dão preferência para pedestres (são poucos), reconhecemos as ruas e os estabelecimentos como as palmas da mão, identificamos quando algum fecha (com certo compadecimento), nos alegramos quando algo está para ser inaugurado. Hoje mesmo descobri o que parece ser uma futura cafeteria na rua da escola da minha filha.

No final das contas, tudo é meio desconhecido e conhecido ao mesmo tempo. Do bar que era o meu preferido, até o dono assassinar uma pessoa e acabar com o negócio (e com a minha simpatia), a uma padaria tradicional da cidade que dá lugar a um dos trocentos Oxxos espalhados por aí. E, para perceber um espaço desta maneira é preciso caminhar atenta, observando com cuidado, não apenas vendo tudo passar. Conceber meus trajetos assim dá mais sentido aos dias. Me gusta (des)conhecer os (des)conhecidos lugares onde piso, as pessoas que frequentam os mesmos caminhos que eu, os dias que nunca são exatamente iguais, os moradores da região passeando os seus cachorros, os ônibus ligeiros e apinhados de gente. Enfim. Tanta vida num percurso de 15 minutos.

No posts

Read the original on marinagrandolpho.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.