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Retratos do Basilisco · May 6, 2026

Fui alvo do golpe mais sofisticado que sofri em vinte anos. E foi feito com IA

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Marcvs Couto · Marcvs Couto

Foi a última mensagem que recebi dos autores da tentativa de golpe mais sofisticada que sofri em quase duas décadas atravessando os mundos da tecnologia, da arte digital e da blockchain. Uma fraude viabilizada por inteligência artificial em cada camada e que, ironicamente, teve como disparador a publicação de um artigo meu sobre IA. A ironia do mundo pós-distopia é cortante, surreal, e indutora de sintomas palpáveis de paranoia e obsessão.

Na madrugada, recebi uma mensagem direta no X, plataforma principal para o ecossistema da criptoarte, ou que costumava ser. Um perfil verificado, conta de 2019, 29 mil seguidores. CryptoPunk como avatar, o tipo de foto de perfil que sinalizava pertencimento a um clube específico do espaço cripto desde 2017, e que justamente por isso foi também reclamado por golpistas. Bio com frase de efeito típica do novo mundo da tecnologia e referência bíblica: “Punk #5268 | Producer @BlockLayerPod | Taste is the new skill | Isaiah 41:10.” Nome: “Kevin Mercer”.

Dezenas de perfis semelhantes já tentaram me aplicar golpes no passado. Mas, desta vez, o vetor do ataque foi diferente, e bem mais elaborado.

A mensagem foi cirúrgica. Em inglês fluente, Kevin se apresentava como produtor do BlockLayer Podcast. Ele dizia ter lido meu artigo sobre o Claude Design que eu publicara dias antes no UOL. Tinha gostado, e estava interessado na minha participação para um episódio em duas partes. A primeira focaria na questão central do artigo, se as ferramentas de design assistido por AI ampliam o que designers profissionais podem fazer ou se, ao contrário, comprimem lentamente o papel humano. A segunda abriria pra autoria, gosto e trabalho criativo, “vindo de alguém atuando entre escrita, jornalismo, música e arte visual”.

A primeira coisa que impressiona é a precisão da pauta. Kevin não parecia apenas ter lido o artigo. Ele tinha também triangulado de forma altamente sofisticada o argumento do texto com a minha biografia pública (escrita, jornalismo, música, arte visual) e proposto um arco editorial em duas partes que conectava ambos.

Verifiquei o @BlockLayerPod. Conta verificada. 115 mil seguidores. Bio limpa: “Acelerando Web3, documentando criadores”. Site listado: blocklayer.co. Email institucional: info@blocklayer.co. Localização: Nova York. Categoria: “Media & News Company”. No feed, e no site, vagas de emprego abertas (Marketing Intern, Growth Manager, Senior Graphic Designer, todas remotas com salários listados em dólar). Header decorativo de evento (ETHDenver 2026). Posts sobre AI e entrevistas com nomes reconhecidos na cena.

Tudo batia. Aceitei.

A resposta do Kevin veio rápida, profissional, empolgada com a ideia da minha participação, e me direcionou pro “founder” do podcast, “Kenzi”. Este me explicou que a dinâmica seria “descontraída” e pré-gravada, entre 60 a 70 minutos. Eu já participei de podcasts semelhantes no passado, com formato exatamente igual.

Kenzi disse que mandariam a estrutura e as perguntas-chave com antecedência pra eu poder me preparar. Agendei pra segunda-feira, 4 de maio, 8h da manhã horário de Nova York.

No dia seguinte, sábado 3 de maio, recebi o email com a estrutura prometida. Veio do endereço kenzi@blocklayer.co. Assunto: “BlockLayer Podcast With Marcvs: Is AI Expanding Creativity, or Compressing the Human Role?”

A pauta tinha dez seções. Cada uma com objetivo declarado e três a seis perguntas. Era um documento de produção muito bem feito. Os tópicos cobriam Claude Design, autoria e gosto, AI na prática criativa, jornalismo e o ciclo de hype, arte visual, provenance, cripto. Uma frase do email me marcou: “This should not feel like a generic ‘AI tools for creators’ conversation”, ou “Isso não deve parecer uma conversa genérica sobre ‘ferramentas de AI pra criadores’”.

Concordei. Enviei feedback. Sugeri ajustar uma das perguntas pra puxar mais pro lado de produção musical assistida por AI, conectando com Suno. Kenzi respondeu agradecendo. Tudo dentro da cadência editorial normal. No fim do domingo, ainda pratiquei o inglês e a minha narrativa para as respostas.

Acordei mais cedo na segunda-feira. Havia um misto de ansiedade por dar uma entrevista em inglês gravada sobre assuntos tão complexos, e uma sensação de que algo parecia fora do lugar. Mas a ideia de fraude sequer passava pela minha cabeça.

Banho. Enchi meu copo de café, garrafa de água na mesa do escritório. Abri o Mac. Acessei o e-mail com o convite para a reunião. Então as coisas começaram a ficar estranhas. Rapidamente.

Cliquei no link da reunião. Assim que a página se abriu, um arquivo zip começou a baixar automaticamente, sem clique adicional, sem confirmação. O nome do arquivo sugeria um instalador do StreamYard, uma plataforma conhecida de streaming e gravação.

No website, apareciam logo, título “You are invited to Webinar”, mais uma série de instruções que supostamente me auxiliariam na instalação do software do StreamYard para a reunião, algo semelhante ao que por vezes ocorre em outros programas, como o Zoom.

O detalhe é que, neste caso, a instalação envolvia abrir o Terminal do Mac e inserir um comando altamente suspeito. Zip baixando automático? Comando no Terminal do Mac?

Percebi então que criminosos sofisticados estavam tentando roubar minhas informações.

Compartilhei a página e o comando com o Claude, que foi taxativo no diagnóstico:

Aquela cadeia de caracteres, se executada, baixaria um script da internet e o executaria direto no shell, sem mostrar conteúdo, sem confirmação, sem janela do macOS, sem o Gatekeeper do sistema pedir permissão. As instruções eram metodicamente sinistras: ignorar certificado SSL inválido; falhar silenciosamente, sem mensagem de erro; modo silencioso, sem feedback visível ao usuário; seguir redirects pra onde o servidor mandar; execução imediata.

Esse golpe é conhecido, e tem nome: ClickFix, ativo em campanhas direcionadas a criadores de conteúdo no macOS desde meados de 2024. O programa que operacionaliza a coleta de informações é, tipicamente, o Atomic macOS Stealer (AMOS), malware que extrai senhas do Keychain, cookies de Safari/Chrome/Brave/Firefox, carteiras de cripto (Exodus, Electrum, MetaMask, Phantom), chaves SSH, e arquivos sensíveis do desktop. Em segundos. Sem aviso.

Se eu tivesse rodado, em poucos segundos, do outro lado da rede, alguém teria acesso a tudo: Gmail, Instagram, X, carteiras cripto…

Poucos minutos depois do horário combinado, enquanto eu ainda destrinchava a tentativa de fraude, recebi um email do Kenzi: “Hey! Você está vindo? Estamos esperando por você.” No anexo, uma captura de tela, da suposta chamada em andamento, onde os dois hosts “me aguardavam”. A imagem era falsa.

Um arrepio na espinha, de pensar em perder controle de todas as minhas contas. Ao mesmo tempo, a curiosidade: aquelas fotos eram criadas por IA? As cenas dos episódios anteriores, que estavam no perfil, também? Como foi a arquitetura do golpe?

Comecei a investigar.

Postei no X, ainda processando o susto:

Heads up: malicious actors are using the @BlockLayerPod name to push malware onto creators. I was targeted by this guy @punk5268. I’ll write up a detailed breakdown of the attack soon — it was well crafted. Thankfully, I caught it in time.

Cinco horas depois, recebo uma DM. Da conta @BlockLayerPod oficial, aquela mesma com 115 mil seguidores, verificada, listada como Media & News Company.

O escárnio:

“hahahaha”

Agora estava claro. O @BlockLayerPod não é um podcast cuja marca foi roubada por um golpista. O @BlockLayerPod é o golpe. A conta inteira, com seus 115 mil seguidores e selo verificado, é fachada. Kevin Mercer e Kenzi Watanabe são duas extensões da mesma operação.

Com ajuda do Claude, descobri que o site blocklayer.co clonava a página de uma aceleradora real chamada Beacon (0xbeacon.com). A descrição era idêntica, palavra por palavra: “aceleradora web3 construída por fundadores web3”. As vagas de emprego do BlockLayer ainda mencionavam, em copy-paste mal revisto, “Beacon blog” e “Web3unchained”, texto roubado direto do site da Beacon. Os “hosts” do BlockLayer Podcast, Kenzi (com sobrenome japonês fabricado, “Watanabe”) e Sachi Takahara, eram clones com primeiros nomes reais da equipe da Beacon (Kenzi Wang, Sachi Kamiya) e sobrenomes trocados.

A Beacon Accelerator é real. Foi fundada em dezembro de 2022 por Sandeep Nailwal, co-fundador da Polygon, com cobertura na CoinDesk, The Block, SiliconANGLE. O podcast deles, Web3 Unlocked, lançou em novembro de 2023.

O BlockLayer roubou a identidade da Beacon. Cada elemento. O nome dos hosts, a descrição da empresa, o template das vagas, possivelmente até as entrevistas. Daí veio a captura de tela que foi enviada a mim pelo e-mail. O vídeo de Nick Emmons da Allora Network que aparece no perfil do BlockLayer parece ser recorte da entrevista real do Beacon Podcast em agosto de 2024, republicada sem autorização.

E o domínio blocklayer.co? Segundo o WHOIS, foi registrado em 7 de fevereiro de 2026. Três meses atrás. O registro é WebNic.cc, baseado na Malásia, conhecido por tolerar phishing. A infraestrutura está atrás do Cloudflare, escondendo o servidor real.

Em três meses, alguém: registrou o domínio, configurou Cloudflare, montou o site, copiou identidade visual e textual da Beacon, plagiou template de vagas, criou Calendly fabricado, montou email institucional, conectou tudo a uma conta no X que já tinha 115 mil seguidores (provavelmente comprada ou “farmada”), construiu uma conta paralela de “produtor” (@punk5268) com mais 29 mil seguidores e um post fixado de março sobre Meebits/Larva Labs pra dar credibilidade histórica falsa, e começou a caçar criadores.

Eu fui um deles.

Aqui é onde a coisa morde a própria cauda.

O artigo que fez o BlockLayer me identificar como alvo era um artigo sobre AI. A reflexão do artigo era exatamente sobre o que essas ferramentas fazem com o papel do criador humano, aumentá-lo ou aos poucos limitá-lo. O que veio como resposta não prevista foi uma experiência em primeira pessoa sobre como a IA pode ajudar no ataque a criadores, aumentando a capacidade de criminosos. Potencialmente drenando as contas bancárias e carteiras digitais de artistas.

O golpe que tramaram contra mim foi viabilizado, em cada camada, por essa tecnologia.

A pauta de dez seções escrita em inglês fluido e contextualmente preciso, calibrada com base na minha biografia pública? Provavelmente gerada com modelo de linguagem. O texto do site blocklayer.co clonado da Beacon com adaptações cosméticas? Fácil de gerar com modelos atuais. O persona “Kevin Mercer” coerente em DMs ao longo de cinco dias, em inglês profissional sem vacilos? Trivialmente assistido por AI. O email da “Kenzi” respondendo de forma natural ao meu feedback editorial? AI. As respostas em tempo real a qualquer ajuste que eu pedisse? AI.

O StreamYard fake, a página de webinar com o comando malicioso, pronto para ser copiado e colado, a interface convincente, tudo que dois anos atrás exigia um time pequeno mas dedicado pra produzir. Hoje, dá pra produzir num final de semana com Claude, Cursor, e obstinação.

Não rodei o comando. Por reflexo de quase duas décadas atravessando esses ambientes. Mas escapei por margem fina. A um clique, literalmente, de comprometer muita coisa.

Ao longo da semana, pude sentir a paranoia escalando meus ombros. Até as pessoas na rua pareciam me olhar de forma diferente, maliciosa. Tramando algo contra mim. Eu havia sido estudado. Minha biografia pública processada, triangulada, medida cuidadosamente para a construção de uma armadilha sob medida. Com ajuda de uma das tecnologias mais poderosas que a humanidade já viu.

Mas, por outro lado, foi também a IA que me ajudou a escapar. Acionei o Claude no segundo em que parei diante do comando, e ele não só confirmou que era armadilha como me ajudou a mapear a operação inteira nas horas seguintes: o WHOIS, a clonagem da Beacon, os hosts fabricados, a engenharia da fachada. Li recentemente que as próximas guerras cibernéticas serão travadas por IAs, ofensoras de um lado, defensoras do outro, e que humanos serão cada vez menos os agentes diretos e cada vez mais os alvos. Vivi isso em pequena escala numa segunda-feira de manhã.

Escrevo isso, então, porque a denúncia é o atrito mínimo que essas operações devem pagar. Outros artistas brasileiros, no mesmo cruzamento que eu, devem estar sendo alvejados agora, pelas mesmas pessoas, ou por operações idênticas. Para mim, é também material para novos mergulhos poéticos nos meandros ciberpunks do nosso novo real.

Quanto ao @BlockLayerPod, ao @punk5268 e a “Kenzi Watanabe”, seguem soltos, anônimos. Escondidos sob camadas de criptografia. Mesmo que os atuais domínios sejam derrubados, suas operações serão migradas em pouco tempo. Com a ajuda de modelos de IA cada vez mais poderosos. O riso está explicado:

“Hahahaha”.

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Read the original on marcvscouto.substack.com

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