Onde e como começou a sustentabilidade corporativa no Brasil?
Como amante de história e de sustentabilidade, essa era uma pergunta que eu me fazia. E não sabia responder.
Comecei a viver com mais intensidade o mundo do impacto no começo da década passada.
Andava com um pequeno nicho meio hare hare da zona sul do Rio de Janeiro que falava de umas paradas estranhas, tipo empreendedorismo social, responsabilidade social e negócios sociais.
Mas eu sabia que a história da sustentabilidade corporativa no Brasil ia muito além.
Por isso, fui conversar com quem entendia mais do que eu: troquei uns áudios com o Naka e com a Anna Polatschek (sempre confiro o nome dela no LinkedIn para não errar) e o que saiu foi um compilado super legal sobre a história da sustentabilidade corporativa no Brasil.
As 5 gerações sobre as quais falo a seguir são uma conclusão final? Com certeza não. Mas foi a melhor a que chegamos.
Inclusive, se você tiver uma opinião diferente, me cata no LinkedIn e me conta. Vou adorar ouvir.
Segue o fio!
Em 1992, aos 6 anos, venci a eleição da sala para ser o representante da turminha da escola na ECO-92. Mal sabia que estava vendo nascer no Brasil minha futura carreira (sim, tem poesia nisso).
Segundo o que levantei para esse teto aqui, a sustentabilidade corporativa no Brasil começou ali, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Eco-92), realizada no Rio de Janeiro, em 1992.
Foi o primeiro evento ambiental de grande escala no país, que mobilizou todo mundo para falar de clima.
Vale lembrar que na época o debate era novo no mundo: o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), marco global da agenda, tinha apenas 20 anos (pense onde você estava há 20 anos e verá que é uma piscada).
Essa primeira geração da sustentabilidade corporativa brasileira ainda era guerreiríssima: lutava para emplacar o desconhecido debate ambiental e usava as nascentes regulações para conseguir alguma atenção para a agenda.
Na virada do século, o debate começa a sair do nicho e a ganhar mais contornos.
As empresas começam a trazer a conversa para dentro de uma forma mais propositiva: ao invés de apenas mitigar risco regulatório, fundam as primeiras áreas de responsabilidade social corporativa.
O termo “sustentabilidade corporativa” ainda estava mesclado nessa massa de “coisas que significavam um olhar da empresa para além do resultado financeiro”.
O ecossistema mundial e brasileiro também começa a se rebuscar: os Objetivos do Milênio (antepassados dos ODS) são um dos primeiros frameworks globais sobre desenvolvimento sustentável, surge o Pacto Global da ONU, o Instituto Ethos é fundado no Brasil e, quem quisesse, agora poderia ter um relatório para chamar de seu no recém-criado modelo da Global Reporting Initiative (GRI).
O mato ainda era alto, mas já dá para ver uma trilha e tinha gente fazendo carreira.
A década de 10 vê outra pequena revolução na agenda.
Agora, “sustentabilidade corporativa” já era chamada por esse nome e começava a entrar na estratégia das empresas e a conhecer as primeiras áreas dedicadas.
Prova do avanço da nomenclatura é que surge, no Brasil, a ABRAPS - Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade.
Se o olhar das empresas estava mais profundo para dentro, também ia mais longe fora: a cadeia de valor começa a virar preocupação e cresce um olhar de direitos humanos para elas.
O mundo evolui na mesma direção.
O Acordo de Paris, que previa esforços para conter o aquecimento global a 2 graus (idealmente a 1,5 grau), foi uma resposta ao avanço das mudanças climáticas.
No mesmo período, a Agenda 2030 estabeleceu metas para os 15 anos seguintes.
O que aconteceu na sua vida em março de 2020? Já imagino sua resposta.
Enquanto o vírus chegava ao Brasil e fechava tudo, as buscas por “ESG” disparavam no Google.
Porque em janeiro daquele ano, Larry Fink, CEO da BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, declarava que ESG seria um dos nortes dos investimentos da empresa.
E porque um fenômeno ambiental derrubava as economias do mundo todo a partir de março.
Esse momentum catapultou o ESG, sigla que dormia esquecida desde 2004 num documento da ONU para o mercado financeiro.
O boom do ESG acabou trazendo junto a sustentabilidade e uma quarta geração de profissionais (embora com o efeito colateral de gerar muita confusão sobre as diferenças entre os termos).
Essa geração já pegou uma agenda muito mais amadurecida e, como legado do olhar do ESG, com uma pegada mais forte para riscos organizacionais, governança e métricas.
As COPs são filhas da ECO-92: no evento da década de 90 decidiu-se que anualmente as nações se encontrariam em COPs para debater as metas de clima.
Assim como a ECO, a COP30 foi um marco na sustentabilidade brasileira e marcou uma troca de geração de profissionais.
A geração pós-COP30 pega um planeta que falhou no Acordo de Paris e está 1,5 graus aquecido.
Pega uma agenda urgente, que não pode mais apenas mitigar, mas que precisa falar sobre regeneração e biodiversidade.
E pega uma carreira de sustentabilidade crescentemente transversal e com regulações favoráveis - com o avanço das normas IFRS S1 e S2 e a regulação do mercado de carbono, por exemplo.
Uma coisa inegável é que a agenda de sustentabilidade vem evoluindo e crescendo no Brasil.
De um nicho ambiental reativo à regulação, a agenda foi virando mais transversal e estratégica.
É um mar de rosas? Não.
Levar a agenda para toda empresa ainda é briga e dor de todo mundo que trabalha com isso.
Mas já é bem melhor do que era.
Algumas pessoas têm dúvidas sobre o futuro dessa carreira.
Eu também.
Mas talvez não pelo mesmo motivo delas.
Eu tenho certeza de que, enquanto houver humanidade, haverá sustentabilidade como carreira.
O que eu não sei é até quando haverá humanidade.
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