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Marco de Abreu · Aug 2, 2026

Programa de Iniciação à Idade Adulta e às Sociedades Regenerativas

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Marco de Abreu · Marco de Abreu

(imagem criada a partir de uma imagem gerada pelo ChatGPT)

Durante a maior parte da história da humanidade existiram rituais de passagem. Em praticamente todas as culturas, havia um momento em que um jovem deixava simbolicamente a infância/ adolescência e assumia um novo lugar na comunidade. Aprendia a cuidar de si, dos outros, da natureza, do território e da cultura que recebia. Aprendia um ofício. Conhecia os limites do seu corpo e da sua mente. Descobria quem era.

Nas sociedades modernas grande parte destes rituais desapareceu. Continuamos a crescer biologicamente, mas poucos de nós somos verdadeiramente iniciados à vida adulta.

Aprendemos matemática, história, química ou informática, mas raramente aprendemos a cuidar das emoções, a resolver conflitos, a trabalhar em equipa, a organizar comunidades, a liderar processos colectivos ou a construir novas formas de sociedade.

Vivemos uma das maiores transições civilizacionais da história.

E talvez seja tempo de co-criamos rituais de iniciação para o presente e futuro, utilizando a sabedoria que todas as culturas sempre souberam: uma sociedade precisa de iniciar conscientemente os seus jovens (e as pessoas com mais de 18 anos que não passaram por estes rituais).

É esse o propósito do Programa de Iniciação à Idade Adulta e às Sociedades Regenerativas.

É um processo de transformação pessoal, colectiva e cultural necessário para cavitar as próximas culturas.

Os artigos iniciações em sociedades regenerativas e desenvolvimento humano em sociedades regenerativas fornecem as bases deste artigo, vem como os 4 sistemas operativos das sociedades.

O programa decorre durante um ano, em regime residencial. Acontece num Lugar com características de mundojogo regenerativo — uma quinta, uma ecoaldeia, um centro ecológico. De preferência um Espaço de Comuns.

Em Portugal existem já vários locais com potencial para serem Espaços de Comuns e acolher programas desta natureza, como a Biovilla, o Ten Chi, Tamera, Vale da Lama ou outros projectos regenerativos distribuídos pelo território.

O objectivo, para além de transmitir conhecimento, é viver durante um ano dentro de uma cultura diferente, que é co-criada, cavitada pelos participantes. Uma cultura onde a aprendizagem acontece em todas as dimensões da vida.

E a partir dai ‘contaminar’ a comunidade local.

Os participantes vivem num campus onde tudo é co-criado. São eles próprios que organizam o espaço:

  • Cozinham.

  • Limpam.

  • Cultivam alimentos.

  • Gerem o orçamento.

  • Fazem compras.

  • Recebem visitantes.

  • Organizam eventos.

  • Cuidam da biblioteca.

  • Mantêm os jardins de permacultura e agrobloresta.

  • Facilitam reuniões.

  • Resolvem conflitos.

  • Criam cultura.

  • Vivem em comunidade.

Tudo isto faz parte do ecosistema de aprendizagem. Porque a auto-organização não se aprende em teoria. Aprende-se vivendo.

Cada actividade quotidiana torna-se uma oportunidade para desenvolver consciência, responsabilidade e colaboração. Para co-criar. Para navegar as relações. Para lidar com os conflitos. Para viver a democracia em acção em cada gesto, em cada escolha.

O programa procura preparar pessoas capazes de cavitar os próximos mundojogos.

Cavitar significa criar, dentro da cultura dominante, pequenos espaços protegidos onde uma nova cultura pode nascer, experimentar-se, amadurecer e ganhar consistência antes de regressar ao mundo.

É assim que surgem novos mundojogos.

Durante o ano residencial, cada participante instala novos mapas, experimenta novas práticas e desenvolve novas formas de relação consigo, com os outros e com a Vida.

Mais tarde regressará à sua escola, universidade, organização, centro de saúde, aldeia ou organização. E começará aí o seu trabalho de cavitação. Não para destruir o existente. Mas para permitir que o novo possa emergir. Criar o mundojogo que irá substituir, no tempo, os anteriores - ver mapa das duas curvas.

O programa integra cinco grandes dimensões de aprendizagem.

O primeiro território é cada participante.

Ao longo do ano desenvolvem-se capacidades como:

  • consciência emocional;

  • maturidade relacional;

  • reconexão com a natureza (dentro de si);

  • responsabilidade;

  • liderança;

  • comunicação;

  • trabalho sobre trauma, sombra e luto;

  • construção de confiança;

  • presença e capacidade de segurar espaço.

Não existe transformação social sem transformação pessoal.

Talvez a mais importante das transformações é realizar que a natureza somos nós. Que a natureza existe dentro e fora de nós. Que nós somos natureza. Vida.

O Lugar torna-se sala de aula. Todos participam diariamente em actividades ligadas à regeneração:

  • permacultura;

  • agrofloresta;

  • regeneração dos solos;

  • gestão da água;

  • biodiversidade;

  • cozinha;

  • alimentação;

  • arquitectura regenerativa;

  • relação com os ecossistemas.

A natureza deixa de ser cenário ou recurso. Passa a ser professora.

Os participantes aprendem a desenhar e facilitar processos colectivos.

Exploram diferentes mapas de mudança sistémica.

Aprendem a criar organizações, comunidades e projectos capazes de regenerar pessoas, organizações e territórios.

Não aprendem apenas ferramentas. Aprendem uma nova forma de pensar. Apendem fazendo. Em equipas.

Grande parte da aprendizagem acontece na convivência diária.

As equipas organizam-se autonomamente. Experimentam diferentes formas de decisão. Aprendem a gerir conflitos. Praticam hospitalidade. Criam cultura. Celebram. Constroem relações profundas.

A comunidade torna-se simultaneamente contexto, laboratório e espelho. A comunidade interna e a comunidade externa, o ecosistema maior onde o Espaço de Comuns está inserido.

É uma transformação importante, ir para o desconhecido e aprender a criar novo conhecimento. A lidar com o novo, com o ‘não saber’.

Cada participante, em equipa, inicia a construção do seu próprio mundojogo regenerativo. Uma Organização de Comuns. Que pode acontecer na escola, munícipo, centro de saúde, alimentação, energia, uma iniciativa artística, nova forma de habitar/ organizar um bairro ou outra área.

O importante é começar. Experimentar. Aprender. Iterar. Patilhar.

Ao longo do ano os participantes contactam com um conjunto coerente de mapas e práticas que hoje representam algumas das abordagens mais avançadas ao desenvolvimento humano, regeneração e transformação social com as estruturas meméticas das sociedades regenerativas (em parte ou no todo).

Entre elas encontram-se:

  • Introdução às Sociedades Regenerativas e às Sociedades de Comuns;

  • Teoria Integral;

  • Teoria U (u.lab 1.0 e 2.0);

  • Possibility Management (Expand the Box, Possibility Labs, Torus Technology, Spaceholding, Rage Club, Fear Club, Sadness Club, Gremlin Transformation, Feelings Practitioner, Gameworld Building, entre outros);

  • ISTA — International School of Temple Arts;

  • Permacultura (PDC) e prática diária;

  • Desenvolvimento Regenerativo (TRP);

  • Art of Hosting;

  • Dragon Dreaming;

  • The Work That Reconnects;

  • Macrobiótica e culinária durante todo o ano.

O programa integra ainda práticas regulares como:

  • meditação;

  • yoga;

  • círculos de homens e mulheres;

  • círculos do residencial;

  • Possibility Teams;

  • Open Spaces;

  • World Cafés;

  • Possibility Cafés;

  • coro;

  • música;

  • aprendizagem artística;

  • caminhadas;

  • trabalho diário na natureza.

O programa não vive fechado sobre si próprio. Os participantes relacionam-se continuamente com o município onde o residencial acontece. Seguindo a pedagogia aberta do José Pacheco.

  • Realizam visitas.

  • Investigação.

  • Learning and Sensing Journeys.

  • Aprendizagem em contexto.

  • Conhecem agricultores.

  • Empresas.

  • Escolas.

  • Universidades.

  • Instituições sociais.

  • Centros de saúde.

  • Associações.

  • Projectos culturais.

  • Movimentos cidadãos.

Cada território torna-se um laboratório vivo.

Os municípios ou entidades designadas por este apresentam os seus desafios concretos para investigação, prototipagem e experimentação - podem seguiras as áreas para as sociedades regenerativas.

Cada residencial possui um Anfitrião - com tendência a ser uma equipa de 3 membros. O Anfitrião não é um professor. Nem um director. É o guardião do processo. Segura o espaço do residencial - é um spaceholder.

Cuida da cultura. Cuida das pessoas. Cuida da aprendizagem colectiva. Mantém o contexto onde tudo o resto pode acontecer.

Cada prática possui ainda mentores especializados que acompanham os participantes ao longo do ano.

A aprendizagem acontece através de uma comunidade de prática e não de uma estrutura escolar tradicional.

O primeiro mês possui um desenho especial. O objectivo principal é permitir que a comunidade se forme. Que as equipas encontrem o seu ritmo. Que a auto-organização emerja. Que a confiança cresça.

Que as estruturas básicas da vida colectiva fiquem instaladas.

Só depois dessa fundação o programa acelera.

Porque uma comunidade forte torna-se o melhor professor para o resto do ano.

O programa não termina ao fim de doze meses. Na realidade, é aí que começa.

Os participantes regressam aos seus Lugares. Levam consigo novos mapas. Novas práticas. Novas relações. Novas capacidades. Começam a cavitar novos mundojogos. E começaram a experimentar e a interagir com a comunidade. O Espaço de Comuns vai suportar esse processo.

Continuam a aprender em rede. Apoiam-se mutuamente.

A equipa do Espaço de Comuns está a preparar o próximo ano a medida que este avança, preparando-se para receber as próximas pessoas no ano seguinte E ajudam outros a iniciar o mesmo caminho. E toda a comunidade a se preparar para esta transformação.

Cada residencial torna-se assim um centro de propagação de novos mundojogos.

As grandes transformações da história aconteceram quando uma geração aprendeu a habitar o mundo de forma diferente - ver o segredo nórdico.

As Sociedades Regenerativas e as futuras Sociedades de Comuns exigem capacidades que hoje quase não são ensinadas.

Precisamos de aprender novamente a colaborar, a cuidar da Vida, a organizar comunidades, a regenerar territórios e a construir instituições ao serviço do Bem Comum.

Este programa nasce dessa necessidade. Não procura formar especialistas. Procura iniciar pessoas.

Porque uma Sociedade de Comuns começa sempre da mesma forma: Com um Comum que decide tornar-se guardião da Vida. E se junta a outro. E a outro. E a …

Sendo focado nos jovens, é aberto a todas as pessoas com 18 ou mais anos, de todas as idades (a minha iniciação a adulto começou aos 45 anos) - com as devidas autorizações e diligências, poderá ser aberto para pessoas com 16 ou mais anos.

O calendário seguinte é apenas ilustrativo. Cada Espaço de Comuns poderá adaptá-lo ao seu contexto, às pessoas participantes e às entidades parceiras. O importante não é cumprir uma sequência rígida, mas respeitar o processo natural de desenvolvimento da comunidade e de cada participante.

O primeiro mês é dedicado à criação da cultura do residencial.

Mais importante do que transmitir conteúdos é permitir que a comunidade se organize e aprenda a viver em conjunto. Que se crie as bases.

  • Introdução às Sociedades Regenerativas

  • Introdução à Teoria Integral

  • u.lab 1.0 (online)

  • Expand the Box (Possibility Management)

  • Primeiro Possibility Lab

  • Torus Technology

  • Rage Club

  • Introdução à Macrobiótica (3–5 dias)

  • instalar a cultura do residencial;

  • criar equipas de serviço;

  • iniciar a auto-organização;

  • aprender o funcionamento da comunidade;

  • introduzir as distinções base;

  • começar a desenvolver responsabilidade colectiva.

  • Heal from School Lab

  • The Work That Reconnects

  • Permaculture Design Course (PDC)

  • conclusão da formação em Macrobiótica

  • início do u.lab 2.0

  • reconectar com a natureza;

  • iniciar práticas regenerativas;

  • aprofundar o trabalho emocional;

  • consolidar os ritmos da comunidade.

  • Relationship Lab

  • ISTA Level 1

  • Fear Club

  • Art of Hosting

  • aprofundar relações;

  • aprender facilitação;

  • desenvolver confiança;

  • praticar diálogo e colaboração.

  • Possibility Lab

  • Men’s Lab / Women’s Lab

  • Gremlin Transformation

  • conclusão de formações iniciadas

  • desenvolver liderança adulta;

  • trabalhar sabotadores internos;

  • aumentar autonomia das equipas.

  • Feelings Practitioner Core Lab

  • Sadness Club

  • Introdução aos Comuns

  • Spaceholding

  • compreender a passagem do indivíduo para o Comum;

  • aprender a segurar espaço;

  • aprofundar maturidade emocional.

  • Gameworld Builder Lab

  • Dragon Dreaming

  • início do TRP

  • primeiros encontros mensais com o município

  • aprender a construir mundojogos;

  • iniciar investigação no território;

  • identificar oportunidades para protótipos.

  • continuação do TRP

  • ISTA Level 2

  • Possibility Labs

  • Gremlin Transformation

  • mentorias individuais

  • investigação aplicada

  • sensing journeys

  • trabalho com organizações locais

Cada participante começa a desenvolver o seu próprio mundojogo regenerativo.

As equipas trabalham directamente com:

  • escolas;

  • municípios;

  • empresas;

  • agricultores;

  • universidades;

  • associações;

  • bairros;

  • projectos locais.

É neste período que começa verdadeiramente a cavitação: pequenas experiências são lançadas em organizações reais, mantendo ligação permanente ao Espaço de Comuns.

  • continuação do TRP

  • Possibility Labs

  • acompanhamento dos projectos

  • preparação da saída do residencial

  • consolidar aprendizagens;

  • fortalecer os mundojogos criados;

  • preparar a integração dos participantes nas suas comunidades;

  • construir a rede de alumni.

No final do ano realiza-se uma celebração pública onde cada equipa apresenta o seu mundojogo regenerativo e o plano de cavitação que pretende desenvolver no seu Lugar.

O residencial segue um ritmo relativamente estável. Po exemplo:

  • 07:00 – 07:30 · Meditação

  • 07:30 – 08:00 · Yoga / Chi Chung

  • 08:00 – 09:00 · Pequeno-almoço e tempo pessoal

  • 09:00 – 13:00 · Formação, prática, trabalho comunitário ou equipas de serviço

  • 13:00 – 14:00 · Almoço e tempo pessoal

  • 14:00 – 18:00 · Oficinas, aprendizagem prática, jardim, floresta, investigação, projectos ou equipas de serviço

  • 18:00 – 20:00 · Jantar e tempo pessoal

  • 20:00 – 23:00 · Círculos, Possibility Teams, Possibility Café, Open Space, World Café, Biodanza, cinema, música, coro ou outras actividades culturais

  • 23:00 – 07:00 · Descanso

  • Alimentação 100% baseada em plantas e seguindo as linhas da alimentação nas sociedades regenerativas como o máximo de alimentos plantados e confeccionados pelos participantes.

A comunidade organiza-se em equipas rotativas responsáveis por todas as actividades necessárias ao funcionamento do residencial.

Entre outras:

  • cozinha;

  • compras;

  • gestão do orçamento;

  • limpeza do local;

  • lavadaria pessoal e colectiva

  • acolhimento;

  • biblioteca comunitária;

  • jardim e floresta;

  • manutenção;

  • comunicação;

  • plataforma digital;

  • organização de eventos;

  • documentação;

  • ligação ao município;

  • relação com parceiros.

Não existem “tarefas de apoio” ou pessoal auxiliar. Todas são oportunidades de aprendizagem. Os adultos presentes são mentores e spaceholders.

Cada responsabilidade torna-se um laboratório vivo para desenvolver autonomia, colaboração, liderança, organização e consciência.

Cada participante terá dias pessoais a articular com a comunidade, em função da agenda dos treinos e das tarefas locais.

Os meus serviços…

Segurar espaço é a competência transversal que, ao nível individual, se manifesta como trabalho emocional; ao nível cultural, como trabalho memético; e ao nível relacional, como trabalho de equipas.

“We have paleolithic emotions, medieval institutions, and godlike technology”

Edward O. Wilson, biólogo

Grato por leres este texto. Faz parte do trabalho de exploração sobre Sociedades Regenerativas e Sociedades de Comuns.
Todos os conteúdos são gratuitos.
E podes apoiar o meu trabalho com a leitura/ comentários, a divulgação por outras pessoas e/ou com um donativo monetário a fazer em…

Read the original on marcodeabreu.substack.com

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