(imagem gerada pelo ChatGPT)
Neste artigo quero introduzir a distinção de cavitar, tal como a conheci através do Possibility Management, e explorar como esta prática pode ser aplicada à evolução cultural, relações, organizações e modos de vida.
“O mundo onde quero viver ainda não existe, mas estou a criá-lo.”
Marco de Abreu, Anexo I.B do Livro “A Emergência das Sociedades de Comuns”Neste artigo podem encontrar como estou a cavitar a minha cultura, a minha vida, dia a dia.
Esta frase resume uma forma diferente de olhar para a ‘mudança’.
Habitualmente imaginamos que o futuro é algo que construímos através de planos, estratégias ou revoluções. Primeiro imaginamos, depois desenhamos, finalmente implementamos.
Mas a Vida raramente funciona assim. As florestas não são planeadas. As culturas não são desenhadas. As comunidades não podem ser fabricadas. Elas emergem.
É para descrever este processo que se usa a palavra da física - cavitação - verbo: cavitar.
Cavitar Espaço vem do Possibiity Managament e “Cavitação” é o nome do livro do Clinton Callahan, um dos originadores desta prática.
Na física dos fluidos, a cavitação acontece quando a pressão num líquido diminui abaixo de um determinado limiar, permitindo o aparecimento de pequenas cavidades preenchidas por vapor ou gás - são as bolhas das bebidas com gás.
Estas cavidades surgem, desenvolvem-se e desaparecem à medida que o sistema recupera o equilíbrio.
Embora seja frequentemente estudada pelos danos que pode provocar em hélices, bombas ou turbinas, a cavitação revela algo muito mais interessante: quando as condições de um sistema mudam, tornam-se possíveis novas formas de organização que antes eram impossíveis.
Não aparece matéria nova. Não surge magia. O sistema reorganiza-se. A novidade emerge das condições existentes.
Esta ideia ultrapassa largamente a física.
A natureza está repleta de processos semelhantes.
Uma floresta não é construída; emerge. Uma comunidade não pode ser desenhada ao detalhe; cresce através das relações que estabelece. Uma cultura não nasce por decreto; desenvolve-se através das práticas quotidianas das pessoas que a vivem.
Em todos estes casos, o elemento decisivo não é o controlo do resultado, mas a criação das condições que tornam possível o aparecimento do novo.
A cavitação deixa então de ser apenas um fenómeno físico. Passa a revelar um padrão universal de emergência.
Neste contexto, cavitar significa criar espaço para que novas possibilidades possam emergir.
Mas de que espaço estamos a falar?
Habitualmente pensamos apenas no espaço físico: uma sala, um edifício, uma praça, um território.
Contudo, existe um outro tipo de espaço, menos visível mas igualmente real: o espaço relacional e cultural.
É o espaço constituído pela qualidade da atenção, da presença, da confiança, das intenções, do propósito, dos acordos, do ritmo das interações, da escuta, das emoções e das possibilidades que um grupo consegue imaginar em conjunto.
É neste espaço invisível que as culturas vivem. E é este espaço que podemos aprender a cavitar.
Existe uma diferença importante entre mudanção e cavitação.
A mudança procura substituir uma realidade por outra. A cavitação procura criar condições para que uma nova realidade possa emergir, naturalmente:
Na mudança existe frequentemente confronto. Na cavitação existe cultivo - criar o solo social como se diz na Teoria U.
Na mudança tenta-se convencer. Na cavitação procura-se experimentar.
Na mudança parte-se da certeza. Na cavitação parte-se do desconhecido.
Por isso cavitar exige humildade:
Aceitar que ninguém conhece completamente o futuro.
Aceitar que aprender faz parte do processo.
Aceitar que muitas experiências irão desaparecer.
Tal como acontece na cavitação física, nem todas as bolhas sobrevivem. Algumas permanecem. E quando permanecem, alteram profundamente o sistema.
Uma das confusões mais frequentes consiste em pensar que criar significa controlar. Na realidade, quem trabalha com sistemas vivos sabe que isso raramente funciona:
Um agricultor não fabrica uma floresta. Cria condições para que ela cresça.
Um educador não fabrica aprendizagem. Cria condições para que ela aconteça.
Uma comunidade não pode ser desenhada. Pode apenas encontrar condições onde a confiança, a colaboração e a responsabilidade floresçam.
Cavitar consiste precisamente nessa arte. Preparar o espaço onde esse resultado possa emergir.
Cavitar espaço (Cavitating Space) consiste em abrir um espaço que anteriormente não existia — um espaço onde novas relações, novos acordos e novas culturas possam começar a emergir. Para mundojogos como relações, organizações, culturas, ao nível individual, equipa ou todo.
Quem cavita está a fazer sourcing de um espaço para um mundojogo.
Foi esta compreensão que inspirou o texto Cavitando a minha Cultura. Quando pergunto:
Como me relaciono com os meus filhos respeitando a cultura que emerge neles?
Como criar relações para além dos modelos herdados?
Como distribuir poder em vez de o concentrar?
Estou a abrir um espaço onde outras formas de relação podem nascer.
Cada conversa torna-se um laboratório. Cada conflito torna-se uma possibilidade de aprendizagem. Cada relação torna-se um lugar de emergência cultural.
O mesmo acontece nas organizações. Durante muito tempo acreditámos que organizações eficientes dependiam sobretudo de hierarquia, planeamento e controlo.
Hoje percebemos que muitas das organizações mais inovadoras funcionam através da auto-organização, da inteligência coletiva, da liderança distribuída e da aprendizagem contínua.
Estas organizações não surgem porque alguém desenhou um modelo perfeito.
Surgem porque alguém cavitou um espaço suficientemente fértil para que novas formas de colaboração emergissem.
Ver o artigo sobre organizational stweardship.
Uma cultura muda quando começam a aparecer novas práticas suficientemente consistentes para gerar novos hábitos, novas narrativas e novas formas de viver.
Cada comunidade regenerativa. Cada mundojogo colaborativo. Cada escola diferente. Cada nova forma de produzir alimento. Cada experiência de economia de partilha.
Alguém teve que cavitar cada um destes espaços. E são nestes espaços que o futuro começa discretamente a existir, agora.
A cultura não é aquilo que cavitamos. A cultura é aquilo que emerge do espaço que cavitamos.
Por exemplo, ver os 4 sistemas operativos das sociedades e as estruturas meméticas que suportam essas culturas.
Foi por isso que escrevi:
“O mundo onde quero viver ainda não existe, mas estou a criá-lo. Cada dia, cada segundo da minha vida é um laboratório vivo para experimentar este mundo.”
Esta frase não descreve um plano. Descreve uma prática.
Cada decisão quotidiana torna-se uma oportunidade para experimentar uma cultura regenerativa:
Como habitar?
Como consumir?
Como amar?
Como trabalhar?
Como aprender?
Como celebrar?
Como cuidar da Vida?
Cada resposta deixa de ser uma teoria e transforma-se numa experiência concreta.
Vivemos uma época em que muitos dos modelos culturais herdados revelam sinais de esgotamento. As crises ecológicas, económicas, sociais e existenciais mostram que não basta optimizar aquilo que já existe. Precisamos de permitir que novas formas de viver possam emergir.
Talvez seja precisamente isso que significa cavitar.
Não esperar pelo futuro. Nem tentar controlá-lo. Mas começar a habitá-lo. Cada relação. Cada projecto. Cada comunidade. Cada território. Cada decisão.
Cavitar é transformar a própria vida num espaço onde o futuro pode nascer, pode emergir. E nós podemos aprender a criar as condições para essa emergência.
As distinções são vivas. Quando nos transformam, também nós somos chamados a continuar a investigá-las.
Os meus serviços…
Trabalho Memético: Consultoria e Treinos (artigo de Jan.2026)
Trabalho de Equipas: Mentoria e Treinos (artigo de Fev.2026)
Trabalho Emocional: Coaching e Treinos (artigo de Dez.2025)
Segurar espaço é a competência transversal que, ao nível individual, se manifesta como trabalho emocional; ao nível cultural, como trabalho memético; e ao nível relacional, como trabalho de equipas.
“We have paleolithic emotions, medieval institutions, and godlike technology”
Edward O. Wilson, biólogo
Grato por leres este texto. Faz parte do trabalho de exploração sobre Sociedades Regenerativas e Sociedades de Comuns. Todos os conteúdos são gratuitos. E podes apoiar o meu trabalho com a leitura/ comentários, a divulgação por outras pessoas e/ou com um donativo monetário a fazer em…

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