Cada gênero cinematográfico é responsável por estimular um determinado músculo em cada um de nós: a comédia é a gargalhada, o sorriso e, nas sátiras ácidas e mordazes, a compreensão de que os valores estão de ponta cabeça; o drama é a lágrima, o coração e a encenação de dores, traumas e angústias; o horror é o medo, a repulsa e o instinto de sobrevivência e sensação de que, ao término, somos capazes de sobreviver ao mundo do lado de fora. Mas e o romance?
O romance é projeção, idealização. O romance é um dos gêneros mais conservadores, é o reflexo da sociedade historicamente monogâmica e heteronormativa e da crença e esperança de que existe uma tampa para cada panela. Há uma alma gêmea, ou um par perfeito, ou um alguém que aceite nossas individualidades, preencha nossas carências e nos faça felizes. Imagina só, que com 8 bilhões de habitantes, você seja a pessoa que ganhou na loteria do amor e encontrou a pessoa certa? Ao menos é isto que o cinema alardeia aos românticos desde que é cinema. E mesmo que existam expressões de um romance não monogâmico - raríssimas! - e homoafetivo - tão raras quanto! -, em geral estes filmes, subversivos no tema, terminam por aderir aos fins do gênero.
Raramente, ainda mais raro do que raro, há elaboração no romance, há a compreensão de que não há príncipes e princesas, de que não há almas gêmeas; de que há contratos, encontros, cessões etc. Mas quando isto acontece, o gênero finge deixar de ser o que é, e ganha outro adjetivo: dramático. Romances dramáticos como Namorados para Sempre ou Closer, ou a trilogia do Amanhecer. Continuam sendo romances, mesmo quando há apenas a memória de que houve amor e os valores habitualmente presentes nos filmes clássicos do gênero. Aquela ideia de que toda traição, toda mentira, todo contratempo, toda dúvida, pode ser perdoado ou expiado pela força do amor, sabe?
Por isso, volto a afirmar: romances são projeções. O gênero em que o seu público-alvo busca o que falta na realidade e, através da fantasia, condiciona a sua visão de mundo. É que o romance é projeção e ilusão, e isto fica evidente antes e depois de assistir a O Drama - recém lançado nos cinemas com Zendaya e Robert Pattinson, interpretando o casal Emma e Charlie, a dias de um casamento ameaçado pela revelação de um evento capital do passado, e que ameaça de morte esse amor. O diretor e roteirista Kristoffer Borgli, empregando um conceito que a internet ama utilizar, preenche as camadas de sua história a partir das expectativas criadas por personagens e espectadores.
Destes a partir da publicidade que anunciou, ou pareceu anunciar, um filme que não é. Um romance com atores reconhecíveis capaz de atrair um público-alvo não preparado - talvez? - para o que o filme tenha a revelar. Não gosto de publicidade enganosa, mas, se é que podemos caracterizá-la assim, a de O Drama é eficiente, ainda mais por estar alinhada com os valores da narrativa. É que a história fala de expectativas, aquelas que nós criamos dentro de um relacionamento a respeito do outro com quem dividimos as alegrias, tristezas e a rotina, e o que acontece quando o castelo de cartas de projeções é ameaçado pelo que desconhecíamos sobre o outro.
Os personagens deste romance amam os seus amantes idealizados, que refletem mais as pessoas que são, do que as pessoas com quem estão. E esta idealização é ameaçada quando a realidade invade e o passado é revelado, a pior coisa que cada um já fez. Em nenhum momento, os personagens param para refletir como esse passado moldou as pessoas que são hoje, e por quem um ou outro se apaixonaram. O que acontece é que, diante do desapontamento, a projeção e ilusão caem por terra. A pessoas não é mais a mesma de antes. Agora, passa a ser: a pessoa mais a pior coisa que fez, ou que só (ou “só”) pensou em fazer.
O Drama, ainda que possa aderir a algumas convenções, ao menos sublinha a projeção na base do romance. Quando abrimos os olhos aos outros, e verdadeiramente vemos o que há de melhor e pior, podemos enxergar não quem esperamos encontrar, mas quem de fato está lá. É quando, imagino, o romance deixa de ser projeção ou faz de conta da Disney e da Hollywood Clássica, e passa a ser um pacto entre pessoas que decidiram dividir as suas vidas, mesmo não precisando fazê-lo para serem completas. Ninguém precisa do outro para ser feliz, ninguém precisa comprar as ilusões que arte reflexo da sociedade comercializa, ninguém precisa do outro para ser bem-sucedido e resolvido no jogo do amor.
O romance surge como este convite à projeção, na tela, da perfeição (quase perfeição) que falta no mundo real imperfeito. Ao tirar esse poder do gênero, e filmes e artistas bons desafiam isto a todo o momento, e questioná-lo usando as mesmas ferramentas ou convenções de ilusão, O Drama ergue o espelho para suas hipocrisias e limitações, que também são as nossas. Daria até para questionar isto ou aquilo dentro do filme - mas esta não é uma crítica, então evito fazê-lo agora -, e para não entrar em spoilers, paro por aqui. Ainda assim, embora pague seu tributo ao gênero, O Drama é ainda o raro exemplar capaz de tirá-lo do altar e expô-lo pelo que verdadeiramente é. E nem que o faça apenas momentaneamente.
O Drama está disponível nos cinemas e, abaixo, compartilho a crítica que fiz para o canal do YouTube.

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