Quantas vezes você disse um "sim” porque tinha medo de perder uma relação? Quantas vezes você aceitou entrar em um projeto porque ficou com medo de ficar de fora? Quantos pedidos vieram como imposições porque você supôs que se não aceitasse perderia alguém importante?
Na última semana algumas situações me colocaram em contato com as tantas concessões que fazemos em nome da preservação de relações. E o quanto muitas vezes isso acaba na realidade nos afastando do outro.
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Tudo começou quando eu fui convidada para um projeto colaborativo que está muitissimo alinhado com algo que eu quero muito fazer e com pessoas que eu admiro e tenho vontade de estar mais próxima. Eu disse SIM, lógico.
Mas quando chegou o final da semana, eu comecei a refletir que apenas dizer sim seria uma falta de respeito e cuidado - comigo, com o outro e com o projeto. Eu me lembrei das tantas vezes que eu senti que alguém disse SIM para um convite de colaboração que fiz, não porque conseguiria de fato contribuir, mas porque não queria ficar de fora. Aos poucos eu fui entendendo que é muito normal dizer um sim simplesmente porque queremos pertencer, e não porque queremos e conseguimos contribuir. Resolvi então investigar: calma, para o quê eu consigo dizer sim agora e para o que eu não consigo?
Nessa semana também vivi outra situação que me desafiou nesse sentido. Recebi uma oferta de bolsa de 50% para um curso que eu tenho vontade de fazer, mas por uma série de motivos não seria um bom momento pra mim. Eu percebi que a minha principal motivação era o medo de dizer “não”e perder a oportunidade de ter a bolsa em outro momento. Eu logo entendi que a melhor resposta seria um não, porque se meu “sim” era motivado por medo, não seria um bom “sim".
Para adicionar caldo nas minhas reflexões, eu assisti o documentário da diretora Maite Alberdi na Netflix. A Child of My Own conta a história de uma mulher pressionada pelas expectativas familiares e sociais para ter um filho a ponto de chegar a cometer um crime. Até onde o medo de desagradar e de perder o outro pode nos levar? O que fazemos quando uma expectativa social se torna tão poderosa que começamos a abrir mão da nossa própria realidade para continuar pertencendo?
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Fazer algum sacrifício pelo outro, pela relação ou por um coletivo não é algo necessariamente ruim. Pelo contrário. Se relacionar é aprender a fazer concessões e entender que nem sempre vai ser do jeito que mais me agrada. Mas o que diferencia um sacrifício que vai cuidar da relação, de um sacrifício que pode ser prejudicial, é principalmente a motivação.
A literatura aponta dois motivos diferentes que explicam porque fazemos algo que não necessariamente queremos, em nome de pertencer. O primeiro é chamado de “motivação de aproximação", eu faço um sacrifício por amor, cuidado, vontade genuína de contribuir com o outro. O segundo é nomeado como “motivação de evitação", eu faço algo por medo de ao dizer não enfrentar uma consequência negativa, como perder alguém importante, entrar em um conflito ou ser excluída.
Ou seja, um "sacrifício” pode significar "eu quero fazer isso por você”, ou “eu estou com medo do que vai acontecer se eu disser não.”
Então, por exemplo, pode ser que eu não estou com muito saco de encontrar uma amiga que tomou um pé na bunda porque sei que ela vai ficar mais uma vez falando 3h sobre o mesmo assunto na minha cabeça, e mesmo assim eu opto por ir ao encontro dela porque eu quero cuidar dessa pessoa e dessa relação que é importante para mim. Ou pode ser que eu aceite encontrá-la porque tenho medo dela parar de falar comigo se eu não for. O primeiro motivo é por amor, o segundo é por medo.
Estudos realizados com casais, apontou que quando os sacríficios eram feitos por motivos de aproximação estavam associados a melhor qualidade de relação, e quando eram feitos por motivos de evitação, estavam associados a uma pior qualidade. O problema aparece quando a concessão deixa de ser uma escolha e passa a ser uma estratégia para evitar perder o outro.(Fonte)
Na minha experiência, isso acontece porque quando alguém diz um “sim” que não pensou direito se conseguiria dar, mais cedo ou mais tarde essa pessoa vai falhar em se comprometer e ainda vai se ressentir, afinal, “eu fiz tanto por você". A falha no comprometimento e o ressentimento vão então minando a confiança e a qualidade da relação.
Pesquisas demonstram que pessoas com maior sensiblidade a rejeição, tem mais tendências ao silenciamento, ou seja, a esconder opiniões, necessidade e sentimentos dentro de suas relações. Ao mesmo tempo, elas apresentam menos satisfação e comprometimento com o relacionamento. Então um exercício importante antes de dizer um “sim” é se perguntar: estou me sentindo segura nesse vínculo, ou seja, se eu disser não o vínculo irá se manter? eu sinto que tenho autonomia e escolha? eu consigo me comprometer? o que de pior pode acontecer se eu disser não?
Talvez uma das melhores formas de cuidar de uma relação seja justamente não precisar passar por cima dos nossos limites para garantir que ela continue existindo.
E você? Quando foi a última vez que disse um SIM e um NÃO conscientes?
Até breve,
Marcelle Xavier
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