“Eu pago para fazer o meu trabalho”, é uma das frases do escritor Lourenço Mutarelli durante a entrevista para o canal do Yuri Moraes, no mês de abril. Ao ser questionado a respeito do que significa ter uma carreira, o autor destacou o fato de que, muitas vezes, paga para trabalhar e chega a se considerar um fracassado por recorrer à própria mãe para pagar as contas. Faz mais de um mês que as palavras do Lourenço me acompanham. Se você não o conhece, recomendo que faça isso o quanto antes. Falo de um autor publicado por editora graúda, com currículo extenso, adaptação para o cinema e outras conquistas.
Não vejo beleza em se sentir um fracasso, só vejo tristeza.
Na mesma semana da entrevista do Lourenço, chegou a mim o apelo de uma escritora brasileira premiada, divulgando nas redes sociais vaquinha para pagar o tratamento de saúde do marido. O que significa ser escritor afortunado?
Se você conversar com profissionais da literatura, verá que muitos (a maioria?) ofertam serviços para se manter (financeiramente) em movimento: leituras críticas, preparações de texto, mentorias. Poucos podem elaborar uma oficina, por exemplo, e vendê-la tão somente pelo prazer, pelo amor à arte.
Neste mês, comecei a viajar pelo Brasil para conduzir oficinas de escrita pelo projeto “Arte da Palavra”, do Sesc. Aproveitei os momentos de espera em aeroportos para reler “Cartas a um jovem poeta”, do Rainer Maria Rilke. Numa das correspondências, o aspirante a escritor Franz Kappus confidencia a Rilke as inseguranças em relação à carreira militar. Na sequência, como quem se justifica, Kappus escreve:
“Mas como preciso exercer uma profissão que me alimente e, além disso, minha próxima guarnição será Viena, não estou totalmente insatisfeito. Quem me conhece espera uma carreira militar brilhante, o que nunca foi minha intenção”.
Rilke responde em tom de aconselhamento:
“É bom que o senhor inicialmente desemboque em uma profissão que o torne autônomo e o coloque totalmente dependente de si mesmo, em todos os sentidos. Aguarde pacientemente para ver se a sua vida mais íntima se sente limitada pela forma dessa profissão”.
Observe que Rilke não manda o pupilo largar tudo para viver de arte. E embora compreenda a necessidade de aprovação do novato, o que se enfatiza é a importância de olhar para dentro.
Nem sempre a profissão que te alimenta, que enche tuas despensas, alimentará teus sonhos. E o que alimenta teus sonhos talvez nunca se transforme em fonte de renda. Mas quem disse que trabalho precisa alimentar os sonhos de alguém? O capitalismo vendeu essa ideia e nós compramos.
Por mais iniciativas que devolvam tempo à classe trabalhadora. Pelo fim da escala 6x1!
O poeta Carlos Drummond de Andrade trabalhou no serviço público por mais de quarenta anos. Em 1943, ele recebeu carta-poema escrita por João Cabral de Melo Neto, que havia começado a trabalhar num órgão estatal. Eis os versos:
Difícil ser funcionário/ Nesta segunda-feira/ Eu te telefono, Carlos, pedindo conselho.
Não é lá fora o dia/ Que me deixa assim/ Cinema, avenidas/ E outros não-fazeres.
É a dor das coisas/ O luto desta mesa/ É o regimento proibindo/ Assovios, versos, flores.
Eu nunca suspeitaria/ Tanta roupa preta/ Tão pouco essas palavras/ Funcionárias, sem amor. Carlos, há uma máquina/ Que nunca escreve cartas/ Há uma garrafa de tinta/ Que nunca bebeu álcool.
E os arquivos, Carlos/ As caixas de papéis/ Túmulos para todos/ Os tamanhos de meu corpo.
Não me sinto correto/ De gravata de cor/ E na cabeça uma moça/ Em forma de lembrança.
Não encontro a palavra/ Que diga a esses móveis/ Se os pudesse encarar.../ Fazer seu nojo meu...
Carlos, dessa náusea/ Como colher a flor?/ Eu te telefono, Carlos, pedindo conselho.”
Tenho um trabalho que me alimenta, dele não posso abrir mão. Por isso, demoro mais para colher a flor; às vezes, preciso me embrenhar entre espinhos perigosos, daqueles que tornam a colheita mais arriscada. Demoro, mas colho. Queria ter mais tempo para visitar o jardim todos os dias e enfeitar a casa de belezas, mas há um abismo entre o que quero e o que tenho. Se o tempo me sobrasse em boas porções, já teria eu transformado a casa em verdadeira estufa de flores?
A arte pode não estar no centro da minha vida profissional, mas é meu centro enquanto indivíduo e sustenta o peso dos expedientes, momentos em que sou obrigada a usar as palavras sem amor.
Rezo todos os dias para ser perdoada pelas palavras.
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