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Malabarista de Palavras · Jul 19, 2026

A única certeza é a sua casa

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Larissa Campos · Malabarista de Palavras

Fui atraída pela premissa: a mulher sozinha em meio à selva colombiana. Rosa habita a casa improvisada, sem portas, enquanto aguarda o retorno do companheiro, Gene. Ele é irlandês e teve que ir à cidade resolver questões do visto.

Rosa deixou o trabalho como publicitária numa agência de Cali para viver o sonho da existência pacata na natureza, onde ela e Gene pretendem plantar a própria comida, utilizar práticas sustentáveis e colaborar com a preservação do local.

Com a partida do marido, os perigos da selva se agigantam, vemos a protagonista vulnerável, preocupada com os vizinhos, os animais, as armadilhas da própria casa. A mulher esquadrinha a personalidade de Gene ao repassar memórias; a maneira como se conheceram acende o alerta de que ele pode não voltar. Os vizinhos, tão respeitosos na presença do homem, transformam-se.

E ela aqui sozinha, comendo arroz frio e cercada de vizinhos horríveis que olham para sua bunda e fazem insinuações.

Bastou que seu marido saísse para que todos ficassem descarados, até os que pareciam sérios.

Era por causa de Gene que a tratavam com deferência. Eles não a respeitam.

O marido a deixa e a selva a come.

(trechos da obra)

A partir disso, a autora constrói o clima de suspense que acompanha todo o livro. O que parece apenas uma obra sobre abandono e os riscos aos quais uma mulher está sujeita, mostra outras nuances. A corda estica, o leitor se tensiona a cada presença de vizinho, de animal, esperando pelo momento em que Rosa será, finalmente, atacada.

Gosto da maneira não linear como Pilar Quintana apresenta essa personagem, por meio das lembranças resgatadas enquanto aguarda o retorno do marido. Pelas lembranças da protagonista conhecemos o ex-namorado, Fermín, um revolucionário disposto a tudo por seus ideais; conhecemos o pai de Rosa, o médico que visitava a filha esporadicamente porque tinha outra família.

O medo e a solidão fazem com que a protagonista sinta angústia, descrita na obra como uma aranha de pernas longas vivendo em seu estômago. Em alguns momentos, essa aranha sobe e se instala na garganta, parece que vai saltar pela boca. Gosto de pensar nas imagens que ficam comigo depois que uma leitura se encerra. No caso de “Noite negra”, a imagem da aranha no estômago é a mais forte.

A história se passa entre domingo, dia da partida do marido, e quarta-feira, sendo que a noite de quarta é anunciada ao longo da trama como a noite mais escura. A princípio, pensamos ser apenas algo do mundo externo, um fenômeno relacionado às fases da lua; não demora, notamos a conexão entre essa noite e os sentimentos da personagem. A quarta-feira também é mencionada por Rosa como prazo, o tempo limite em que ela espera que Gene faça algum contato.

E então ela fica sozinha na noite sem selva, ilhas ou mar, sozinha e minúscula na eterna noite negra.

Então esta é a noite mais escura, diz a si mesma. Um abismo onde só ela existe. A verdadeira solidão. Ela e o rombo da sua imensa dor.

(trechos da obra)

Estar sozinha com a própria dor. Minha leitura de “Noite negra” aponta para a obra como metáfora dos momentos em que vacilamos, em que não vemos saída, em que o sofrimento nos paralisa. Então, no caso da trama de Pilar Quintana, o mundo externo e o interno se encontram na figura da aranha real, atormentando a personagem em sua casa. Ao capturá-la, Rosa sabe o que venceu.

Não existiu uma tarântula no quarto, diz a si mesma. A aranha que está no balde preto da urina, uma aranha de pernas longas, como as que se afogam no chuveiro, é a criatura do seu estômago, é a sua angústia, e ela a matou.

(trecho da obra)

Os perigos são muitos. Entre memórias e delírios, a protagonista já não sabe mais o que é real. Mas a casa permanece ali, ainda que precária; o dinheiro escondido entre os livros de terror é a segurança de que precisa. A casa é a única certeza e a casa é ela.

Quem é Pilar Quintana? - Nascida em 1972, em Cali (Colômbia), a autora publicou seis romances e um livro de contos, dos quais se destaca "A cachorra", traduzido para mais de vinte línguas, semifinalista do Dublin Literary Award, finalista do Prêmio Nacional de Romance e do National Book Award nos Estados Unidos, e ganhador do Prêmio Biblioteca de Narrativa Colombiana. "Os abismos", também traduzido para diversos idiomas e finalista do National Book Award, conquistou em 2021 o Prêmio Alfaguara de Romance.

Foto: Carlos Zárrate

Sobre a obra - “Noite negra” chega ao Brasil numa publicação da Companhia das Letras, com tradução da Elisa Menezes. A arte utilizada na capa é de autoria do ilustrador Hugo Alberto, natural de Jauru (Mato Grosso), hoje mora em Cuiabá. O artista é graduado em Publicidade e tem como foco de trabalho ilustrações autorais.

Para ouvir: Em episódio do podcast da revista 451, a jornalista Adriana Ferreira Silva e a tradutora Elisa Menezes discutem o universo narrativo de Pilar Quintana, passando por temas como os desafios da tradução, as formas da autora abordar o feminismo e a questão racial, as conexões que a autora estabelece entre suas obras por meio de lugares e personagens que se repetem. Ouça!

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