oie! seja bem-vinde a mais uma edição da makers :) eu sou hele carmona, jornalista, designer e artista multimídia. imagina uma coisa comigo: é terça-feira, você acabou de encerrar o expediente. se trabalha home office, desliga o computador. se é presencial, talvez encare algumas horas de transporte público até chegar em casa. depois de jantar e fazer suas coisinhas, você pode finalmente descansar. mas como? pra muitas pessoas (eu inclusa), descansar pós-trabalho quer dizer assistir streamings ou usar o celular até pegar no sono. eu desconfio que esse tipo de descanso não é suficiente para sustentar uma vida criativa feliz, e daí surgiu esse texto. vamos?
Estamos numa época, como diz Byung Chul Han, do “sujeito de desempenho”. Um indivíduo autoexplorador, incapaz de descansar porque está sempre se otimizando:
“(...) o sujeito de desempenho se entrega à liberdade coercitiva ou à livre coerção de maximizar o desempenho. O excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa autoexploração. Essa é mais eficiente que uma exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade. O explorador é ao mesmo tempo o explorado. Agressor e vítima não podem mais ser distinguidos. Essa autorreferencialidade gera uma liberdade paradoxal que, em virtude das estruturas coercitivas que lhe são inerentes, se transforma em violência. Os adoecimentos psíquicos da sociedade de desempenho são precisamente as manifestações patológicas dessa liberdade paradoxal.”
Esse cara de quem Byung Chul Han fala escuta podcast de finanças e desenvolvimento pessoal enquanto corre na esteira; esse cara lê ficção porque faz bem para o cérebro, e não por puro prazer. É um indivíduo que otimiza o descanso, e, embora o autor o descreva em tom crítico e horrorizado, na vida real esse cara é celebrado nas redes sociais como alguém que aproveita cada minuto e cada oportunidade de crescer.
Como uma pessoa que trabalha com criatividade e também se diverte com criatividade, conheço bem o peso que o cansaço pode ter na imaginação. Ao falar sobre um descanso “certo”, proponho uma noção de descanso desotimizante (embora, a longo prazo, ela possa contribuir para a produção criativa). Um tipo de descanso pleno, prazeroso e até mesmo planejado, porque é importante e precisa ser, em algum nível, um compromisso consigo mesmo. Ainda que eu só possa falar por mim, esse texto é um convite para que cada pessoa repense seus momentos de descanso.
Para começar, precisamos avaliar o que é considerado descanso. Como mencionei na introdução, por muito tempo as três atividades que preenchiam minha noção de descanso eram dormir, consumir séries ou filmes e scrollar nas redes sociais; acredito que seja assim para a maioria das pessoas.
Essa rotina de desligar o computador e pegar o celular criava um problema: esse “descanso” só me recarregava o suficiente para trabalhar no dia seguinte. Era muito desafiador encontrar energia para ser criativa nos meus projetos pessoais ou mesmo escrever a newsletter. Desafiador não quer dizer impossível, mas o cansaço só se acumulava.
De forma não relacionada, em setembro de 2023 eu vivenciei, pela primeira vez, a experiência de uma peregrinação (contei um pouco sobre isso na edição 56). A empreitada de caminhar uma média de 25km por dia em lugares remotos e sem internet desbloqueou em mim um sentimento até então inédito. Eu passei tantos dias sem abrir o computador, sem ver redes sociais e sem me cobrar de fazer as coisas que… eu senti vontade de fazer. Aliás, foi algo além de vontade: eu me senti pronta para criar algo.
(Aqui precisamos temer a literalidade: não estou dizendo que caminhar mais de 100km sem internet torna alguém mais criativo; mas o meu corpo e o meu cérebro atingiram um estado de descanso mental que abriu espaço para que eu sentisse empolgação (e não medo ou pressão) ao pensar em criar).
Saundra Dalton-Smith é a criadora do conceito de “7 tipos de descanso”. Para a médica e pesquisadora, muito além de dormir (uma parte do descanso físico), precisamos buscar outras seis formas de repousar o corpo e a mente. Além do livro Sacred Rest, ela tem um TedTalk sobre o assunto, mas vou resumir aqui quais atividades compõem cada tipo de descanso:
FÍSICO: dormir (o suficiente e bem), tirar sonecas, ter dias de descanso na rotina de academia
EMOCIONAL: fazer terapia, conversar com amigos, escrever um diário
SOCIAL: estar sozinho, curtir a própria companhia
SENSORIAL: estar ao ar livre, ficar em silêncio, meditar
CRIATIVO: contemplar a natureza/o mundo ao seu redor, criar sem objetivos, se inspirar
ESPIRITUAL: se conectar com as práticas espirituais de sua preferência, meditar
Acho que pela lista dá pra perceber que os tipos de descanso se complementam e, às vezes, se sobrepõem. Na minha peregrinação eu passei boa parte do tempo sozinha, em silêncio, contemplando a natureza e, apesar da longa caminhada, entre um dia e outro eu tive ótimas noites de sono.
Ir dormir bem cansado ou se distrair com entretenimento bobinho são formas de descanso válidas, mas contemplam apenas duas das sete formas de descanso (física e emocional). Isso gera um acúmulo do cansaço residual referente aos tipos de descanso negligenciados. Quando foi a última vez que você ficou em completo silêncio no fim do dia, sem usar o celular? Quando foi a última vez que planejou passar um dia ao ar livre? Alcançar os outros tipos de descanso é desafiador por alguns motivos.
O principal — voltamos a Byung Chul Han — é a produtivização de todos os momentos associada a precarização da vida humana. Perdemos muito tempo trabalhando e quando não estamos ativamente no trabalho, estamos nos cobrando outras realizações. Não ajuda que a maioria da população perde tanto tempo no transporte público, ou que a crise climática e o racismo ambiental dificultam a realização de um programa que deveria ser muito simples, como passar a tarde em um parque.
Mas além disso, mesmo quando temos condições de planejar descansos mais diversos, relutamos. Fomos ensinados (alguns pela religião, outros por pais da classe trabalhadora que ralaram muito a vida toda) que descansar demais é ser preguiçoso; é pecado e imoral. Somos ensinados que descanso é um privilégio conquistado através da exaustão; um luxo, if you will, e se é assim, nem todos podem dar-se ao luxo do descanso.
Como pessoas trabalhadoras, podemos ter dificuldade de imaginar programas como marcar uma massagem e depois almoçar uma comida gostosa; tanto prazer parece fútil, coisa de playboy. E realmente, ir a um spa ou comer fora podem ser coisas caras (infelizmente), daí a importância de também planejar o descanso. Não apenas observar enquanto as horas de descanso passam, ansiosos com as tarefas inevitáveis do próximo dia útil, mas escolher intencionalmente quais atividades de repouso ou prazer vão preencher nossas folgas.
Entre as ideias de William Morris está a noção do prazer como instrumento artístico; e, como explicam Valter Costa e Daniel Portugal no artigo quase homônimo:
“A arte não é uma atividade individual, pautada em algum inescrutável “dom” artístico, mas o efeito de certo modo de vida no qual as forças humanas não estão aprisionadas nem pela necessidade nem pelo imperativo produtivista, podendo operar de maneira “livre”, isto é, de acordo com o que Morris considera serem suas propensões naturais.(...)Isso é expresso, por exemplo, quando Morris afirma que a arte que ele vislumbra é a “expressão espontânea do prazer na vida inato em todo o povo”, definindo uma arte “fundada no bem-estar das pessoas”. O “trabalho alegre” seria o responsável por tornar belos os “arredores comuns da vida”: a beleza é o efeito da alegria no trabalho, pois o trabalho alegre é este no qual a força do trabalhador se orienta a fins adequados e opera na medida adequada — ou seja, não é desperdiçada pelas exigências biológicas (trabalho apenas para a subsistência) ou pelas exigências do capital (trabalho apenas para geração de lucro). Essas formas de desperdício da força de trabalho são sinônimos de uma infelicidade coletiva, responsável pela ausência de beleza na vida comum.”
Talvez o principal motivo de ter começado esse texto é porque, em desacordo total com a figura do artista torturado, eu vejo a arte como uma consequência do prazer e de uma vida boa. Boa arte pode ser produzida a partir do sofrimento e de uma vida difícil, de lutas; mas também pode ser produzida a partir do prazer, da tranquilidade, da indulgência.
Em 2024 eu passei por algumas transformações pessoais e profissionais que impactaram profundamente a minha rotina e, numa tentativa de amenizar as dores que vem com as mudanças, criei o que chamo de dia perfeito. Um dia perfeito é raro (você logo vai ver o motivo, lol), mas importante de encaixar algumas vezes no ano. Ele pode ser planejado para contrabalancear um dia péssimo ou só para aflorar minha criatividade. Pra mim, funciona assim, como uma receita: em um dia perfeito,
Passo o dia sozinha :)
Se eu me sentir descansada fisicamente, começo com uma atividade física para cansar o corpo e descansar a mente. Bônus se for feita sem fones de ouvido e ao ar livre.
Se estiver cansada ou com dor, começo com uma atividade relaxante, como meditação ou, se eu estiver tentando contrabalancear algo muito horrível, vou além: uma massagem.
Depois faço algo que eu sei que gosto muito, como ir à praia ou ao cinema (largue! o! celular!). Adoro testar coisas novas, mas novidades são cansativas, então algo familiar funciona melhor.
Me atento a outros tipos de prazer físico: estou comendo comidas gostosas? Minha roupa é o mais confortável que pode ser? A temperatura está agradável?
Termino o dia com uma atividade mais contemplativa, como ouvir música (só, sem outra tarefa) ou um período longo e concentrado de leitura.
É nos dias perfeitos que fico sentada com meus pensamentos e me sinto reconectada comigo mesma. Eu não sabia quando comecei, mas um dia perfeito me proporciona todos os sete tipos de descanso e é por isso que me sinto tão revigorada. Muitas vezes depois de um dia como esse fico cheia de ideias; esse texto mesmo surgiu na minha mente em um dia de passeio, e foi rascunhado no meu restaurante preferido, no caderninho que levo na bolsa.
Um “dia perfeito” vai ser diferente para cada pessoa, e o ponto é que para ser mais criativo você deve incluir prazer e intenção nos seus momentos de descanso porque, com o tempo, sentimentos bons e relaxamento podem se tornar inspiração e empolgação.
Caso você não consiga pensar no que fazer em um dia de descanso planejado, eu sugiro praticar o ócio total. Nas suas próximas férias ou feriado prolongado (estamos entrando no Carnaval!) experimente passar um ou dois dias sem fazer absolutamente nada. Resista ao impulso de sair para “aproveitar a vida” ou de arrumar alguma coisa, adiantar alguma demanda; apenas tente não fazer nada. Partindo desse absoluto nada, é mais fácil ouvir suas vontades. Ao invés de pensar “meu deus, eu devia estar me dedicando àquele texto novo” (culpa, urgência), pode surgir na sua mente “nossa, que vontade de escrever” (vontade, expectativa de curtir o processo).
No fim, o que quero dizer é que descansar não é suficiente para sustentar uma vida criativa se esse “descanso” é inundado por conteúdos brain rot, estímulos exagerados, telas e ansiedade. Eu poderia tentar amenizar meu discurso dizendo que “se você não pode tirar um dia de descanso, você pode parar 10 minutinhos entre uma reunião e outra, tomar um banho relaxante, etc” mas não é sobre isso. É o contrário disso. O corpo humano exige descansos prolongados e plenos. Eu acredito que toda pessoa merece sim ter um dia completo de descanso pleno, seja ela uma pessoa trabalhadora, uma mãe, alguém sobrecarregado etc. É mais desafiador, e nesses momentos fatores externos entram na equação — rede de apoio, privilégios — mas o descanso feito aos poucos e de qualquer jeito mata a criatividade e motivação de muitas pessoas geniais dia após dia.
Nós ficamos bons naquilo que fazemos com frequência e a criatividade não é uma exceção; mas, como em um romance, é bom sentir saudades às vezes.
Descansar é resistir1 :)
ei, obrigada por ler até aqui! sempre fico relutante de trazer recortes mais pessoais, mas os leitores me perguntam bastante sobre processos criativos, como ser mais criativo etc; e o descanso e a indulgência são pontos essenciais no meu processo. fique a vontade pra comentar ou responder esse e-mail se tiver alguma dúvida ou sugestão. se você gostou da edição, compartilhe com alguém que vai aproveitar essa leitura também :)

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