Que a IA está revolucionando o trabalho de todo mundo é indiscutível, mas será que o efeito é o mesmo em todos os níveis de senioridade? Pensando nisso, entrei em contato com as pessoas que já foram entrevistadas aqui na Mais que Senior e fiz a seguinte pergunta: Como a IA está influenciando seu trabalho?
Nesta e nas próximas edições vou compartilhar algumas das respostas que estou recebendo.
Linkedin, Entrevista na Mais que Senior
Eu vejo o impacto da IA no meu trabalho sob dois pontos de vista: o de alguém em posição de liderança e o da execução das minhas atividades mais práticas. O impacto é distinto em cada uma dessas áreas e igualmente interessante.
A pergunta que toda empresa está fazendo hoje é: Como podemos nos beneficiar da IA em nossa empresa e em quais ferramentas devemos investir? Em breve, acho que vai aparecer outra pergunta: como vamos pagar por isso? Mas vamos deixar esta para outro momento. Como líder, mesmo como Contribuidor Individual, você faz parte desta resposta e conseguir filtrar o barulho do hype e achar as pérolas que realmente vão mudar nossa forma de trabalhar é um trabalho homérico.
O impacto está bem aí; é uma nova variável com a qual temos que trabalhar. Como o operacional e o código do dia a dia, temos que planejar, escalonar, educar, avaliar e absorver. Muitas empresas olham hoje para a IA e pensam: “Quanto mais posso produzir com menos pessoas?” e eu acho isso uma armadilha; a real pergunta, na minha mente, não é de quantidade, mas de alcance: “O que estava fora do nosso alcance antes que agora possamos alcançar?” Seja isso uma complexidade ou uma flexibilidade, agora é possível com um investimento menor.
IA zerou o jogo. Estamos todos começando do mesmo lugar de novo. Somos todos Desenvolvedores de IA júniores. Cada um de nós, mais do que nunca, deve procurar como incorporar essa tecnologia no nosso dia a dia, no de nossas equipes, da empresa e da indústria. E, aproveitando esse gancho, posso falar sobre o impacto direto no meu trabalho.
Tenho trabalhado para incorporar IA em várias facetas do meu dia, ao mesmo tempo buscando formas de validar cada uso, tentando não cair nas armadilhas de casos de uso em que o custo não compensa. O uso no código é o mais básico e óbvio. Uso o Claude Code diariamente como meu parceiro na geração de código, inclusive em tarefas na linha de frente, e ainda mais para otimizar meu dia a dia e automatizar tarefas. Um necessitando de mais validação e review, e o outro ligando menos para a forma e mais para a funcionalidade. A capacidade de criar uma ferramenta para resolver um problema só seu é energizante, como, por exemplo, criar uma extensão de browser pra evitar ter várias cópias da mesma aba.
Mas também uso Gemini e Notebook LLM como ferramentas de pesquisa e estudo. Tenho encontrado formas bem interessantes de treinar o modelo no meu estilo de palestrar e de usar a IA como um coach de palestras, revisando meus ensaios e sugerindo onde posso melhorar a entrega. Ou ajudando a trazer informações para iniciativas de trabalho, planejando nossa Architecture Board e me ajudando a definir formatos, pontos de validação etc.
Em resumo, não vejo a IA como uma solução, mas sim como um catalisador. Ajudando todos nós a ter sempre uma segunda opinião, a identificar o viés que não sabemos que temos, a mostrar o caminho para aprender algo novo e a superar os gaps nas nossas capacidades. IA não trabalha sozinha, e o ditado “Entra lixo, sai lixo” me lembra muito dos padrões de falha que via em interações com iniciantes. Use a IA para potencializar os objetivos que quer alcançar; mantenha sua linha de raciocínio, mas use-a para esclarecer dúvidas ou para criticar suas decisões. Acho que terá muito sucesso e sairá na frente do jogo em relação a muitos outros.
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Quando usada do jeito certo, a IA promove um ganho real de produtividade.
Me sinto mais produtivo e mais energizado, ela de fato acelera muita coisa, mas é preciso ter cuidado. Como qualquer ferramenta, exige destreza para saber quando, como e onde usá-la. É essa destreza que permite extrair o máximo do seu potencial. E, justamente por ser uma ferramenta, é essencial ter consciência de que ela não substitui a engenharia, ela apoia.
Meu papel como alguém que pensa em problemas não foi substituído. O que as IAs generativas resolvem hoje é gerar mais código, mas escrever código é apenas uma parte do processo.
Ela acelera bastante essa etapa, e isso é ótimo. Afinal, ninguém quer ficar escrevendo centenas de linhas na mão. Mas depois que elas são geradas, o trabalho não acaba. É preciso avaliar se essas linhas entregam valor real, se de fato correspondem às expectativas de por que estão ali. A IA é treinada para agradar e nunca dizer não. Ela não tem pensamento crítico. Mesmo que você a instrua a pensar de forma crítica, ela pode até simular esse comportamento, mas não tem convicção genuína nem responsabilidade sobre o resultado. No fundo, ela continua tentando satisfazer a instrução da maneira mais agradável possível.
Entender como essas ferramentas funcionam é essencial para reconhecer as limitações de uma máquina de prever o próximo token e, assim, usá-la do jeito certo.
No geral, o impacto da IA no meu trabalho tem sido muito positivo, especialmente depois que encontrei o meu sweet spot com a ferramenta dentro do meu fluxo de trabalho. Uso a IA como apoio para codificar, pesquisar e troubleshooting, mas nunca de forma cega ou 100% autônoma. Reviso cada linha de código gerada, questiono e verifico cada resposta. É essa postura ativa que transforma a IA de um risco em um multiplicador real de produtividade.
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A IA mudou a forma como eu adquiro e uso conhecimento não só no trabalho. Ela tornou mais clara a separação do que eu chamo de conhecimento instrumental da categoria de conhecimentos fundamentais (científicos, filosóficos, empíricos, etc).
A IA tornou possível automatizar o conhecimento instrumental. Alguns exemplos: Agora é quase irrelevante você saber ou não saber programar em múltiplas linguagens, pois a IA pode gerar o código para você. Para extrair o maior potencial com esta automação, é importante você ter um conjunto de conhecimentos fundamentais (i.e. experiência anterior em programação - conhecimento empírico, bem como conhecer os conceitos da ciência da computação, algoritmos, estruturas de dados, arquiteturas de software, etc - conhecimento científico).
Então ela me ajudou muito a expandir minhas capacidades de atuação profissional. No meu papel atual, já não sou pago para programar, mas ela tornou possível eu voltar a criar soluções baseadas em código.
Mas a IA também tem sido uma excelente aliada para acelerar a aquisição da classe de conhecimentos fundamentais. Graças a ela, tenho realizado pesquisas científicas e aprofundado meu conhecimento em computação e engenharia de software em um ritmo incrível. Vejo que ela não automatiza esse conhecimento, pois comete muitos erros devido a sua ampla complexidade e carga de subjetividade presente nesta classe de conhecimentos. Aqui, é ainda mais importante aprender a usá-la para realmente adquirir conhecimento.
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