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Catedral vazia · Jun 1, 2025

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Maíra Dal'Maz · Catedral vazia

acabou não como quando se fecha uma porta, mas a ideia de uma porta, e depois se pregam tábuas, e depois se pinta de cinza, e depois se finge que nunca houve entrada. há palavras que não se diz quando se quer permanecer dentro, bicho doméstico. ético.

a boca é um beco, e o nome, um animal em fuga.

eu disse algo ao homem. não era mais homem, era alguém por dentro do eco. disse que tinham me tirado tudo, até os olhos com que eu olhava. ele não respondeu como antes. respondeu como se eu fosse uma bomba. e o que é pior do que isso? o que é do amanhecer quando não dói em ninguém além de você?

eu não entro mais. e a morte é uma coisa que entra. mesmo em quem não tem mais espaço. por isso eu ainda me risco dos mapas. ainda me desligo da luz. ainda me transformo em vento truculento, mas não entro, porque é a morte a coisa que entra.

não entro, mas me pergunto. o tempo todo. se a palavra foi faca. ou se já havia o corte antes dela. e se fui eu. se sou eu mesma, a doente. a que se arrasta. a que não sabe calar. a que não se suporta.

e se eu tivesse dito outra coisa? e se eu não tivesse dito nada? e se o silêncio fosse o idioma certo? e se eu dissesse exatamente tudo o que me fizeram, como me pediram? e se amizade perdida fosse coisa que volta?

mas não volta.

não volta.

não volta.

queria sonhar com portas, apenas para ter a oportunidade de as fechar, uma por uma. não comigo fora, não comigo dentro. fechar cada com só uma pessoa dentro, do chão ao teto com espelhos, para que cada uma possa se suportar, não criar diários indulgentes. queria proporcionar essa experiência de iluminação. porque, se não entro, é porque já não me sinto mais como feita de algo que caiu da mesa antes de se tornar

pessoa

viva

vivíssima

cada dia mais viva

fazendo as mesmas coisas

sendo um nome sem ódio

um campo de flores

pessoa

que escreve

porque se desfez das armas

para abraçar

receber

se desfez das armas

porque palavra é pra se amar

amar

amar

precisar

fazer amor

nunca

nunca

para escrever o que se forja

ilusão primeira

de autodefesa

trincheira

com espinhos para dentro.

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