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Mãe de Zé · Aug 16, 2026

Burnout do cuidador

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Mãe de Zé · Mãe de Zé

Em algum momento, o psiquiatra disse que eu só não me encaixava no diagnóstico de burnout porque a ciência apenas considera essa condição como derivada de uma relação de trabalho.

Certamente, eu poderia falar aqui sobre trabalho invisível, trabalho de cuidado não remunerado, citar de Françoise Vergès a Silvia Federici, mas não é esse meu ponto hoje.

Para muita gente além de mim, interessa menos a consagração oficial do diagnóstico num DSM da vida do que as discussões que ele levanta. Talvez por isso, a expressão burnout do cuidador venha aparecendo mais e mais, tanto em artigos científicos quanto em debates na sociedade civil.

Recentemente, encontrei uma discussão interessante sobre regulação emocional autofocada (a própria pessoa regula suas emoções) e regulação emocional focada no outro (a cuidadora regula as emoções de quem está sob seus cuidados com ou por esse sujeito).

A regulação emocional focada no outro, até onde meu entendimento alcançou, não é nada muito diferente do que mães - e, às vezes, pais - de crianças pequenas, típicas ou atípicas, fazem todos os dias durante o processo de amadurecimento cognitivo e emocional dos filhos. A diferença entre a mãe típica e a atípica começa a aparecer quando o filho da primeira vai migrando da regulação focada no outro para a autorregulação, enquanto a segunda não sabe se isso um dia ocorrerá, especialmente se estivermos falando de deficiência intelectual envolvida.

É neste segundo caso que vemos aparecer, só agora e timidamente, algumas pessoas pensando nos impactos que uma regulação emocional extrínseca (ou seja, focada no outro) produz em quem cuida. Em geral, o foco dos debates se dá em como ensinar a cuidadora (estou usando a flexão de gênero aqui por motivos óbvios) a ajudar a pessoa com deficiência intelectual e/ou autismo severo, por exemplo, a regular as emoções, não agredir, não se agredir, evitar crises, antecipar desconfortos, contornar dificuldades sensoriais, etc.

Ou seja, trata-se de ensinar a cuidadora, ou simplesmente, a mãe, a ajudar seu filho ou filha com a regulação emocional e, posteriormente, avaliar os resultados das estratégias adotadas (mudanças no ambiente, treinos de respiração, desvio de atenção, pistas visuais, entre outras) sobre a pessoa com deficiência.

Porém, a relação de cuidado, como o nome já diz, é uma relação, ela vai e volta, a maré sobe e desce, a via é de mão dupla, a recíproca, feliz ou infelizmente, é verdadeira. Quem vive períodos prolongados na condição de regulador emocional de outra pessoa tem suas próprias emoções tão brutalmente afetadas quanto maior for a sua dedicação a essa tarefa. Assim, suas chances de se tornar uma pessoa ansiosa, explosiva, triste, depressiva, em sentido estritamente psiquiátrico ou não, são quase de 100%. Falo em causa e em nome próprios.

Logo, o efeito reboot não tarda a ser percebido. A cuidadora adoecida não vai conseguir ajudar ninguém a se regular emocionalmente, uma vez que ela mesma não está dando conta de suas próprias emoções advindas daquela relação. Não é nenhuma surpresa caso ela, eventualmente, piore o quadro de quem está sob seus cuidados. Vi, recentemente, numa rede social, uma criança autista nível 3 de suporte na saga espinhosa de cortar o cabelo. A coisa só andou quando os pais foram retirados do recinto. Ao mesmo tempo em que são reguladores emocionais da criança, tomados por ansiedade, frustrações e cansaço com algo que “deveria ser simples”, muito provavelmente, eles mais desregulavam do que regulavam o filho. Não parece óbvio?

Parece, mas é pouco estudado. Assim como, por muito tempo, buscou-se no comportamento da mãe uma possível origem para o autismo, sem jamais ninguém se questionar se o comportamento em questão não era efeito do autismo do(a) filho(a), quando se fala em regulação emocional extrínseca prolongada, a coisa vira um grande “quem veio antes: o ovo ou a galinha?”.

As consequências da regulação emocional extrínseca parecem variar desde problemas cardíacos a gastrointestinais, ou seja, fisiológicos, até a derrocada da saúde mental de quem cuida. Até mesmo a expressão burnout parental vem aparecendo por aí, já que essa é a relação de regulação focada no outro mais duradoura e ininterrupta que existe.

Bom, a priori, eu não faço nenhuma questão de um código no DSM para me enquadrar, mas todo o resto da discussão me parece pertinente. Eu derreto a olho nu todo final de semana quando estou única e exclusivamente voltada para a regulação emocional (e outros cuidados) do meu filho. Isso porque, em sua condição atípica, é bom que se diga, uma crise pode vir sem antecedente claro, isto é, do fucking nada. Então, o estado de alerta e o cansaço pós-crise são algo que meu vocabulário ainda não é suficiente para descrever, mas pensem que Zé tem como consequência quase certa de uma desregulação, o vômito. Agora, imaginem isso ocasionado por algo que pode variar do calor ao tédio, passando por algo totalmente desconhecido.

Uma coisa me parece clara: o suporte a quem dá suporte precisa ser material. Burnout parental, burnout da cuidadora, como queiram chamar, quer dizer, principalmente, uma coisa: quem cuida é pobre. Não que mães atípicas ricas não sofram, não é isso. Porém, sofrer com acompanhante terapêutica E/OU babá no final de semana, de madrugada, na praia, na rua, na chuva, no trânsito, são outros quinhentos. Nem todo cansaço é burnout, nem toda tristeza é depressão e, muitas vezes, a diferença é dinheiro mesmo.

Tenho certeza absoluta que se eu não fosse sequencialmente roubada pelo plano de saúde, até aqui, com a chancela do judiciário, e se um homem cronicamente misógino não preferisse me punir e acabar com a minha vida a ser justo e razoável com a criança atípica que carrega seu DNA, um psiquiatra não teria dito que me classificar como alguém com burnout era só uma impossibilidade formal, porque de resto, estou esgotada. E quem não estaria, na condição de regulação extrínseca e ainda tendo que dar aula, vender cosméticos, passar o dia caçando links como afiliada de marketplaces, fazendo freela na área de educação, entre tantos outros trabalhos, mais ou menos precários, quase sempre mal remunerados?

15/08 foi meu aniversário. Terminei o texto no último minuto do dia. Uma amiga perguntou se eu ia fazer alguma coisa e eu respondi que, nas atuais condições, se eu quiser um bolo de aniversário, eu mesma tenho que fazer ou comprar para mim. Prefiro não.

Ainda não sei como nem quando voltar com a leitura de “Outra sintonia”, mas vai rolar, gente.

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