Agamenon
DIPROMA DE JORNALISTA
Todos os meus 17 seguidores e meio (não esqueçam do pequeno anão verticalmente prejudicado) conhecem a minha trajetória vitoriosa no jornalismo. Eu, Agamenon Mendes Pedreira, sou um homem de imprensa realizado. Não tenho tudo que como, mas como tudo que tenho. Minhas origens são muito humildes: minha mãe meu deu à luz na Pindaíba. Pra quem não sabe, a Pindaíba é um subúrbio da Central que fica depois de Queimados. Bem depois. Quem vive na Pindaíba é tão pobre , mas tão pobre , que as famílias de lá são obrigadas a viver apertadas dentro de garrafas de tubaína, rachando o aluguel com outros despossuídos. Pelo menos, na Pindaíba, não tem assaltante porque o ladrão não tem o que roubar.
Desde pequeno sempre tive a maior queda para o jornalismo. No jardim-de-infância era conhecido como o mentiroso da turma. Com 11 anos assaltei o Banco Imobiliário do meu irmão e aos 15 já dominava o tráfico de qualquer coisa na escola. Por causa disso, nunca aprendi a ler , só sei escrever, mas isso não é relevante para fazer carreira na imprensa.
Comecei no jornalismo como garrafeiro. Eu juntava garrafas velhas e jornais usados para vender. Jornais eram folhas de papel impressas com as notícias que serviam para o peixeiro embrulhar as suas mercadorias. Com o advento da Segunda Guerra Mundial, o preço do papel subiu muito e eu resolvi enveredar pelo ramo gráfico. Foi aí que comprei o meu primeiro jornal, mas não pude lê-lo , mesmo porque , como já disse , não sei ler. Mas fazia muito frio naquela noite e os jornais também serviam como cobertores descartáveis. Obstinado e resiliente, não desisti : no dia seguinte comprei dois jornais. Depois comprei três jornais, em seguida quatro e assim sucessivamente até conseguir o monopólio de todos os jornais da cidade. Com os lucros auferidos, comprei uma gráfica e, para reduzir os custos, passei a imprimir os jornais em branco economizando assim uma fortuna em tinta, linotipos, rotativas , off set e outras despesas supérfluas. Principalmente os repórteres , revisores , editores , ilustradores , enfim , vagabundos em geral, uma raça que não presta pra nada.
Foi aí que conheci o Chateaubriand, vulgo Chatô , que ainda não tinha virado filé. Chatô tinha acabado de roubar um jornal do Ademar de Barros que, por sua vez, já tinha subtraído o referido periódico do Carlos Lacerda que , na sequencia, furtara o diário do Samuel Wainer em parceria com o Adolpho Bloch e o Hélio Fernandes, irmão do Millôr.
É evidente que quando aquele jornal chegou às minhas mãos, já estava todo amassado. Foi aí que o Getúlio Vargas, que era meu amigo, me chamou e disse: “Ó Aga, por que tu, em vez de roubares o jornal dos outros, não fazes um jornal só para ti roubar?”. Respondi então ao grande líder carismático sul-americano que eu não sabia escrever, não conhecia sequer as vogais, só a Letras de Cambio. Getúlio, sempre ardiloso, me apresentou ao turco Ibrahim Sued, grande homem de letras, que me ensinou a ler e escrever enquanto comíamos um quibe em pé na Rua da Alfândega.
Foi aí que percebi a importância da nossa profissão. Como arauto da verdade, o bom jornalista deve prestar atenção aos fatos, analisar a notícia, checar suas fontes e aí sim, ver como é que pode se dar bem descolando uma grana achacando os envolvidos.
Aprendi tudo isso sem nenhum diploma e, mesmo assim, fui repórter de polícia, crítico de artes plásticas, comentarista de turfe e setorista do Caetano Veloso. Fui eu que deu o “furo” de que o compositor baiano tinha estacionado seu carro no Leblon. Por isso, discordo dos ministros do STF ( Supremo Tribunal Ficcional) que agora estão querendo a volta do diploma para o exercício da segunda mais velha profissão do mundo. O diploma de jornalista não serve para nada, quer dizer, serve no caso dos nossos “supremos” pedirem para os seus “capinhas” introduzir o canudo em partes remotas das suas meritíssimas anatomias, que, por caso, já estão cheias de grana. Claro que tudo isso feito sem ameaçar o Estado Democrático de Direito nem violar a Liberdade de Excreção.
Agamenon Mendes Pedreira é jornalista de imprensa.
Marcelo Madureira & Hubert de Carvalho Aranha.
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