Olá a todos! Sótão é o meu novo livro e já podem encomendá-lo nos sites da Bertrand, Wook e Fnac. Chega às livrarias no dia 25 de Maio, pela Companhia das Letras.
Hoje escrevo sobre o livro e sobre o processo da sua escrita. Em breve poderão lê-lo, por isso, não me vou alongar, mas tentarei ao menos deixar entrever o seu tom e a intenção que o atravessa.
O sótão é, para mim, um lugar da memória, e a memória entra inevitavelmente neste livro. Mas é também o lugar da imaginação: foi neste espaço físico e simbólico que comecei a imaginar, a associar, a dar forma interior ao mundo.
Procurei construir um livro que se aproximasse o mais possível da própria forma do sótão: da sua inclinação, dos seus recantos, da sua penumbra, da sua lógica de acumulação, resguardo e descoberta.
Interessou-me reproduzir, na própria forma do livro, a experiência física do sótão: um texto em que, por vezes, o leitor tenha de se curvar, de baixar a cabeça, quase de se agachar, para alcançar certos cantos. Quis que a leitura conservasse algo dessa travessia corporal e do movimento de aproximação cuidadosa ao que está guardado ou na penumbra.
O sótão interessou-me por várias razões. Antes de mais, pela ligação íntima e biográfica que fui estabelecendo com este espaço ao longo da minha vida. Ele pertence à minha infância, às suas descobertas, aos seus medos e às suas formas de imaginação; e regressou, mais tarde, de modo inesperado, quando fui viver para um sótão com as minhas duas filhas. Esta experiência trouxe desafios concretos, mas reactivou também a memória do “sótão original”, o da infância, fazendo emergir continuidades, ecos e sobreposições que acabariam por se tornar centrais neste livro.
É também um espaço de filiação e herança, profundamente ligado à figura do pai, e mais tarde reinscrito na minha vida adulta, quando o sótão reaparece como abrigo após uma separação. Neste gesto de repetição e deslocamento, procurei espelhar como herdamos formas de habitar, de temer e de sobreviver.
Ao mesmo tempo, o sótão foi-se revelando, para mim, como um lugar particularmente propício à escrita e à criação. Interessa-me este espaço por aquilo que ele oferece de reclusão, de intimidade e de proteção, mas também pela sua condição de margem. É um lugar afastado da circulação imediata, onde o tempo parece adquirir outra espessura e onde a linguagem pode demorar-se. Quis, por isso, que o meu Sótão funcionasse como um verdadeiro sótão: como tema e como estrutura sensível e mental do próprio livro, como o espaço necessário para escrever.
Passei muito tempo neste lugar. Mas já não estou no sótão. Precisei de distância para poder escrevê-lo, como se a proximidade excessiva ainda impedisse a linguagem de encontrar a sua forma justa.
Foi um livro muito difícil de escrever, tanto pela matéria íntima que convoca: histórias duras, memórias pesadas, zonas de dor e vulnerabilidade, como pela exigência formal que essa mesma matéria impunha. Foi preciso encontrar uma linguagem capaz de acolher o fragmentário, o obscuro e o ferido.
Talvez por isso este tenha sido, para mim, um livro de aproximação lenta. Um livro que só pôde ser escrito quando aceitei que certas coisas exigem tempo, desvio e distância antes de se deixarem dizer ou mostrar.
O Sótão é um arquivo de memórias, de curiosidades, de medos e de segredos. O Sótão é também infância e medo, refúgio e clausura, herança e invenção, arquivo e oficina, ninho e posto de vigia, solidão e autonomia. É uma figura da vida interior, mas sempre ancorada no real: em madeiras, degraus, ruídos, móveis e objectos herdados.
O sótão é, por natureza, um lugar ambíguo. Situa-se no alto da casa, mas também num plano recuado da experiência quotidiana. Guarda aquilo que já não usamos, mas que, por alguma razão, ainda não fomos capazes de abandonar. Também por isso me tenha parecido, desde cedo, uma imagem particularmente fértil.
Um sótão guarda, acumula, reaparece, associa, desloca, faz conviver objectos, medos, imagens, leituras e cenas familiares sem os submeter a uma ordem rigidamente linear. Não é um livro linear. Foi construído em fragmentos, em degraus. Recusei a linearidade para me aproximar do próprio movimento da lembrança, que é descontínuo, associativo, feito de regressos, camadas e reaparições. A forma fragmentária é a expressão exacta da sua matéria. Fragmentar, como se os textos fossem paralelos a coisas espalhadas num sótão, empoeiradas ou com brilho, mas também unir, mesmo que de forma inclinada, toda esta “tralha”: pessoal e íntima, do sonho e da projeção, semelhante à mistura de uma velha enciclopédia, que também se encontra, tantas vezes, nos sótãos.
Não é um diário, embora nele haja matéria diarística. Não é um ensaio, apesar de conter páginas de reflexão histórica, etimológica, arquitetónica, mitológica e literária. Diria que o Sótão é, sobretudo, um livro sobre a forma como os espaços nos constroem, sobre aquilo que neles se deposita, e sobre o modo como a casa se torna extensão da memória, do corpo e do medo.
Interessa-me a dimensão simultaneamente concreta e simbólica, em que o visível convive com o latente, e em que aquilo que parece arrumado ou esquecido continua a exercer uma força discreta sobre o presente.
Escrevi o Sótão como se me movesse num. Por acumulação, por vestígio, por aproximação sensível ao mais importante, e também ao que parecia secundário.
Ao longo do livro, o sótão surge em várias vertentes simultâneas. Quis também inscrever este espaço numa genealogia feminina de recolhimento e criação, mas também de independência, e mostrar como o andar de cima pode ser tanto cárcere como quarto próprio, tanto silêncio imposto como oficina de escrita.
À medida que fui escrevendo, compreendi que este livro não pedia velocidade nem excesso. O Sótão foi sendo escrito num compasso lento, em fidelidade ao universo que lhe deu origem. Houve, no seu processo de construção, um trabalho arqueológico, feito de paciência e de depuração. Escrever o Sótão significou regressar muitas vezes ao mesmo núcleo, observar de novo as mesmas imagens, perceber o que devia permanecer na sombra e o que podia finalmente ser trazido à luz. Em vez de procurar uma narrativa apressada ou uma exposição total, fui entendendo que o livro exigia um ritmo próprio, mais reflexivo, mais meditativo.
O livro nasce da experiência universal e, ao mesmo tempo, profundamente singular: a de regressar ao que foi deixado em suspenso.
O processo de criação foi, por isso, inseparável do próprio sentido do livro. Escrever o Sótão foi habitar um espaço, aceitar os seus silêncios, reconhecer a sua desordem própria e descobrir, dentro dela, uma forma. Houve momentos de avanço nítido e momentos de hesitação, como acontece em qualquer trabalho exigente. Mas foi nesta alternância entre claridade e opacidade que o livro se foi definindo. Nem tudo se revela à primeira leitura, nem tudo se resolve à primeira versão.
Ao olhar para este livro, reconheço um percurso. Continuo a escrever como tentativa de dar forma ao que resiste, de nomear o que persiste e o que magoa, de transformar em linguagem aquilo que o tempo não apagou.
O Sótão é um livro sobre o que guardamos, nas casas, na memória e em nós mesmos. E é também o testemunho de um processo de criação que procurou honrar essa matéria delicada.
Espero que gostem de subir comigo ao Sótão!
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