Janeiro acabou. E aqui vai o que li, o que vi, o que escrevi, por onde andei e o que recomendo.
Comecei o ano na Ericeira, em família e perto do mar.
No dia 2 de Janeiro decidi rever um filme de que gosto muito, o Captain Fantastic. É um filme típico de Holywood, com algumas fórmulas banais, mas toca-me muito, sobretudo pelos diálogos, pelo debate que possibilita, e pelo estilo de vida tão diferente da família.
O filme veste, por vezes, o casaco reconhecível do cinema americano: A estrada, a família como microcosmos moral, a alternância entre comédia e comoção. Mas, por baixo deste corte de Hollywood, há uma inquietação menos polida: a pergunta séria sobre o que é educar uma criança e que tipo de mundo estamos, de facto, a legar.
A história (um pai que cria seis filhos fora da civilização e é obrigado a regressar) é uma utopia pedagógica que vai ver o seu avesso, porque toda a liberdade, levada ao extremo, pode transformar-se numa forma de controlo. O que me prende neste filme não é só o argumento, são as perguntas que levanta e a maneira como pensa o capitalismo e o anti-capitalismo, a instituição e autonomia, corpo e teoria, luto e ritual. É uma crítica brutal à sociedade americana, crítica que vai desde o sistema político, ao sistema de educação, de saúde, à alimentação.
O filme tem aspectos deliciosos, como celebrarem o dia de anos do Noam Chomsky, em vez do Natal. Uma tentativa comovente de inventar um calendário moral próprio. Também gosto muito da cena em que a palavra “interessante” é repudiada e proibida pelo pai, por ser muleta crítica. É descrita como uma não-palavra, que muita gente usa para fugir de uma análise verdadeira. Como tal, vou tentar evitá-la no resto das coisas que recomendar aqui, mas não prometo que consiga.
Recomendo a quem quiser um filme leve na forma, mas exigente no fundo: uma espécie de fábula contemporânea sobre educação, ideologia e a dificuldade de viver sem concessões.
O primeiro livro do ano foi O Que Podemos Saber, de Ian McEwan. É um romance que se monta como uma investigação: há a promessa de um enredo “detectivesco”, mas o que está realmente em causa é a epistemologia do íntimo e da História, aquilo que julgamos saber sobre os mortos, sobre o presente, sobre os outros, e sobre o futuro a quem entregamos o mundo. McEwan tem a precisão habitual: personagens construídas com engenharia fina, cenas que parecem simples até revelarem a sua armadilha ética, descrições que, sem exibicionismo, iluminam. Ainda assim, ando um pouco cansada do romance, tem sido um tipo de leitura que não me anda a entusiasmar.
Dos livros do McEwan, o meu preferido continua a ser Na Praia de Chesil (E é daqueles casos em que não julguem mesmo o livro pela capa, a capa parece de um romance ultra cor de rosa. Mas é uma história deliciosa.) Um livro curto e devastador, onde um casal recém-casado chega a um hotel para a lua de mel, e depois têm mesmo de ler para ver o que acontece. É uma história sobre intimidade mas também sobre classe, educação sentimental e o modo como a vergonha pode ser uma força histórica dentro de um corpo. E é, para mim, um exemplo que confirma que as grandes tragédias, muitas vezes, acontecem por falta de comunicação.
Fiz uma outra coisa que adoro este mês, e que não fazia há algum tempo, que foi dançar. Tive a festa de 30 anos de uma amiga, e percebi as saudades que tinha de dançar. Fica a recomendação também. Dançar, no geral.
Logo no princípio do mês participei no meu primeiro colóquio académico, na faculdade de Letras. O tema da minha conferência foi:” O Male Gaze no cinema de Luis Buñuel.”
Para quem não sabe, estou a fazer um Mestrado e a estudar cinema e literatura, e têm-me interessado muito as questões da representação da mulher e da figura feminina.
A noção de male gaze (que ganhou forma na crítica feminista do cinema com textos como os de Laura Mulvey) ajuda-nos a perceber como a câmara pode transformar a mulher em superfície de projeção: um corpo enquadrado para ser consumido, uma figura escrita para servir a narrativa do desejo masculino, um olhar que organiza o mundo como se fosse naturalmente seu. O fascinante em Buñuel é que ele trabalha exatamente nessa zona ambígua: denuncia a hipocrisia burguesa e, ao mesmo tempo, encena o desejo como labirinto: às vezes criticando-o, às vezes expondo-o, às vezes tornando-nos cúmplices para nos obrigar a reconhecer a cumplicidade. É um tema muito interessante. (Alerta “interessante”!)
O segundo livro que li foi A Analfabeta, de Ágota Kristóf: um texto curto, seco e poderoso sobre exílio, perda e língua. O título é, desde logo, uma ferida: alguém que sabia ler desde cedo torna-se “analfabeta” quando é forçada a habitar uma língua que não é a sua e descobre que a língua pode ser pátria, mas também inimiga. A prosa de Kristóf tem a brutalidade da simplicidade. Frases que parecem não pedir nada e, no entanto, pedem-nos tudo. Fiquei com vontade de avançar para a Trilogia da Cidade de K., que ainda não li, precisamente porque ali essa secura se radicaliza: a guerra e o autoritarismo a fabricar identidades. Deixei aqui um excerto, há uns dias, e acho que vale muito a pena lerem.
Reli, para escrever um ensaio para a faculdade, o livro da Anne Carson Eros Amargo e Doce. Anne Carson é neste momento a minha escritora preferida. E este livro é simplesmente perfeito. Um ensaio que é também poema e também teoria, onde a filologia toca o nervo do desejo. Carson parte de Safo e da palavra “agridoce” para pensar Eros como tensão: aquilo que nos move precisamente porque nos falta, porque nos escapa, porque abre um intervalo dentro de nós. Há uma ideia que acompanha o livro: o desejo é um triângulo (eu, o outro, e a distância), e é essa distância que acende.
Da etimologia, fiquei especialmente presa à origem de “ciúme”: do latim zelūmen, derivado de zelus, por sua vez ligado ao grego zelos: “zelo”, “ardor”. Gosto desta genealogia porque ela complica o moralismo fácil: mostra que, na raiz, há energia e cuidado antes de haver posse e corrosão. E dá vontade de escrever, que foi o que fiz (e hei de partilhar o texto quando tiver coragem de o expor à luz pública).
Este livro é um longo ensaio sobre Eros, nas suas várias dimensões, e para quem é tocado na vida por esta entidade, ou seja qualquer um de nós que está vivo, ama, amou ou sente desejo. Não poderia recomendar mais.
Eros é de facto Amargo e Doce, e assim foi Janeiro para mim, com uma questão de saúde que me levou ao hospital e a ter de ficar em casa, pelo que não fiz muitas coisas no exterior.
No hospital, apanhei na televisão Burn After Reading, do irmãos Cohen. E nem sei há quanto tempo não via um filme na televisão! (No sentido de estar a dar na televisão, sem ser em streaming). A coisa que mais me chamou a atenção foi o casting do filme. Tem George Clooney, Brad Pitt, Frances McDormand, John Malkovich e Tilda Swinton.
É uma comédia negra de espionagem em modo caricatura: gente banal a tropeçar em segredos de Estado e a transformar o acaso em paranoia. A graça é precisamente essa: o mundo, inclusive o poder, pode ser governado por incompetência, vaidade e ruído. Mas confesso: para uma noite de hospital, o absurdo frio e o riso ácido não me deram colo.
Em contrapartida, a leitura de Calvin & Hobbes foi perfeita para este cenário. É uma das grandes obras do fim do século XX que envelheceu para o nosso século com muita frescura. Filosofia disfarçada de brincadeira, metafísica enfiada num trenó, ternura a fazer contrapeso ao cinismo. Tem uma sabedoria rara: a infância como inteligência em estado nascente. E humor em estado puro.
Neste mês li também A Pequena Comunista que nunca sorria da Lola Lafon, inspirado na vida da ginasta romena Nadia Comaneci. É um livro sobre o corpo feminino como máquina política: treinado, vigiado, mitificado, punido por envelhecer, exigido a ser perfeito e, ao mesmo tempo, impedido de ser plenamente humano.
Lafon escreve a partir das fissuras do que a história oficial não consegue conter, e obriga-nos a pensar no preço da glória quando ela é administrada por regimes, federações, câmaras e públicos. É uma leitura dura mas urgente, e está muito bem escrito.
Li também um livro que originalmente não entraria nos meus interesses, Kitchen Confidential, de Anthony Bourdain. Não é um livro sobre comida no sentido decorativo do termo, é uma descida (muito lúcida e muito divertida) aos bastidores da restauração, onde o glamour desaparece e ficam o calor, a disciplina, a hierarquia, a pressa e aquela camaradagem feroz que nasce quando se trabalha no limite. O que o torna tão bom é a voz: confessional sem ser sentimental, mordaz sem ser cínica, com um instinto de reportagem que transforma a cozinha num pequeno romance noir, feito de risco, orgulho e sobrevivência. Ficamos com respeito pelo ofício, pela mão invisível que alimenta os outros, e pela verdade, às vezes feia, às vezes hilariante, que existe por trás de cada prato bem apresentado.
Nos últimos dias do mês fui à ante-estreia de Hamnet, realizado por Chloé Zhao e inspirado no romance de Maggie O’Farrell. É um filme sobre luto, sobre o que acontece a um casal quando a morte lhes entra em casa e lhes reorganiza a linguagem. A beleza visual e o cuidado atmosférico estão lá, sente-se a ambição de filmar o indizível. Mas, neste momento, a mim não me serviu. Ainda em recuperação, não me apeteceu esta imersão prolongada na mortalidade infantil.
Vi também Marty Supreme, de Josh Safdie, com Timothée Chalamet. É um filme frenético, cinema em aceleração: montagem e energia a empurrar-nos para a frente. O filme vive do ritmo e da tensão entre ambição e ridículo, entre a promessa de grandeza e a humilhação que a antecede. Para mim, o Timothée confirma aqui aquilo que já tinha mostrado quanto interpretou o Bob Dylan em A Complete Unknow, filme que adorei: que é um excelente actor. Espero que ganhe o Óscar.
O meu filme preferido do mês, e do ano, até agora, foi O Bolo do Presidente, do do realizador iraquiano Hasan Hadi.
Passa-se no sul do Iraque, no início dos anos 90, em pleno período de escassez e sanções. O filme parte de uma premissa absurda mas infelizmente historicamente plausível: na semana que antecede o aniversário do ditador Sadam Hussein, a escola exige um bolo “à altura”, e a criança escolhida para o levar recebe essa tarefa como se fosse uma honra, quando, na verdade, é uma ameaça. Lamia tem nove anos, vive com a avó idosa e doente, e carrega consigo aquilo que as crianças carregam sempre quando o mundo falha: a responsabilidade que não lhes pertence. A partir daqui, a narrativa transforma-se numa pequena epopeia de coisas mínimas: farinha, ovos, açúcar, o básico, que no filme se torna raro e perigosamente caro. O filme avança em modo road movie, com a lógica de uma fábula: Lamia atravessa a geografia (dos pântanos e canais do sul a uma grande cidade labiríntica) e atravessa, sobretudo, as camadas de um país onde o quotidiano foi capturado pelo medo. À medida que ela procura ingredientes, o vemos propaganda, burocracia, oportunismo, violência, mas sempre pelo ângulo do chão, pela escala do corpo pequeno, onde cada encontro é um teste ao mundo: quem ajuda, quem explora, quem desvia o olhar, quem se torna cúmplice por sobrevivência.
O filme é tão bonito e tão duro ao mesmo tempo. Tem planos lindos. Há uma delicadeza constante no modo como a câmara olha para Lamia. O tom oscila entre o cómico e o trágico (porque a ditadura também é isto: uma máquina de absurdo que se alimenta de rituais), e a fotografia faz o resto: planos abertos que deixam entrar a paisagem e o ar, e planos que apertam quando a cidade se torna ameaça. No fim, o “bolo” é muito mais do que um objecto: é a prova material de que, num regime que quer tudo, a ternura e a amizade podem ser uma forma de resistência silenciosa.
As duas crianças são fabulosas. O jogo que fazem entre elas é comovente. E adorei a Lamia, sempre com o seu galo atrás. Um filme que mexeu comigo como não acontecia há muito tempo.
Como disse, foi um mês mais caseiro, fui apenas a uma exposição. Voltei ao Complexo Brasil, na Gulbenkian. Já tinha estado lá na inauguração, mas, como sempre, nas inaugurações não se consegue ver nada. Voltei com tempo, e vale muito a pena. A exposição junta obras de arte, vídeo, música e documentos para problematizar as relações históricas entre Brasil e Portugal e, sobretudo, para dissolver estereótipos, não explicando o Brasil, mas mostrando a complexidade, o choque, o fascínio e a violência da história partilhada.
A exposição é muito boa, assim como o livro, com o mesmo nome, editado pela Companhia das Letras em parceria com a Fundação.
Fui também apenas a uma peça de teatro infantil com as minhas filhas. Fui ver a Pocahontas, no Tagus Park em Oeiras. Elas adoraram, eu não. E está tudo bem: às vezes a maternidade é isto, emprestar o nosso tempo à alegria delas.
Ainda assim, para quem tem filhos, continuo a recomendar o LU.CA – Teatro Luís de Camões. Espero voltar lá em Fevereiro.
Este mês não comecei nenhuma série nova. Enquanto recuperava em casa, sobretudo à noite, revi Sex and the City, uma das séries a que volto vezes sem fim. 4 amigas que ajudam sempre.
Joguei bastantes jogos com as minhas filhas. Party &Co, Uno, Monopólio. Fizemos um puzzle do Harry Potter, e eu comecei agora um de 1000 peças do Botticelli.
Foi um mês caseiro, de convalescença, mas termina com uma sensação de alívio muito grande. Retomei as crónicas para o Público, a primeira do ano foi sobre a nostalgia dos ecrãs de antigamente, os ecrãs da minha infância. Podem ler aqui:
https://www.publico.pt/2026/01/21/impar/cronica/ecras-antigamente-2161266
Estou também a fazer as correções do meu livro, que sairá este ano na Companhia das letras. Vou dando por aqui as novidades.
Obrigada por me lerem! Contem-me também as vossas recomendações.
Venha Fevereiro!
Livros:
O que Podemos saber, Ian McEwan. Gradiva
A Analfabeta, Agota Kristof. Dois dias edições
Eros Amargo e Doce, Anne Carson. Edições 70
Kitchen Confidential, Anthony Bourdain. Bloomsbury
A Pequena Comunista que nunca sorria, Lola Lafon. Antígona
Calvin & Hobbes, Bill Waterson. Gradiva
Complexo Brasil, Companhia das Letras
Filmes:
Captain Fantastic, Matt Ross
Burn After Reading, Joel Coen e Ethan Coen
Hamnet, Chloé Zhao
Marty Supreme, Josh Safdie
O Bolo do Presidente, Hasan Hadi
Exposições:
Complexo Brasil, Fundação Calouste Gulbenkian
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