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Madalena Sá Fernandes · Mar 1, 2026

Fevereiro: Valor sentimental e dias felizes

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Madalena Sá Fernandes · Madalena Sá Fernandes

Olá a todos!

Creio que este foi o mês da minha vida (excepto a pandemia e o pós parto) em que mais estive em casa, pelo que não trago muitas recomendações de programas exteriores. Tenho estado a fechar um livro, por isso é natural, mas as recomendações acabam por sofrer um pouco com esta minha reclusão.

O primeiro livro que li foi O Colapso do Édouard Louis. Gosto muito do Édouard, não foi o meu livro preferido dele, continuo a achar Quem matou o meu pai e Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule mais concentrados, mais afiados, mas é forte na mesma. Tem uma coerência admirável na forma como cruza autobiografia e sociologia. O livro trabalha a ideia de colapso no plano íntimo (a queda emocional, a fragilidade do sujeito) e o político (as estruturas que esmagam certos corpos antes mesmo de poderem escolher). Ele escreve sempre a partir de uma urgência ética, e faz uma denúncia poderosa. O que me impressiona nele é esta capacidade rara de fazer do testemunho uma ferramenta política, sem perder a intensidade literária. Não há neutralidade possível nos seus livros.

Tive a sorte de conhecer e conversar com o Édouard em Outubro, no Fólio, e de o ouvir. Além de um grande escritor, é um orador incrível, de fazer arrepiar.

Depois, também entrei na febre e li, na verdade reli, O Monte dos Vendavais, da Emilly Brontë. É engraçado pensar que, na minha adolescência, este foi um dos livros que mais me tocou. Vibrei muito com ele. Agora foi bonito voltar a certas passagens e a uma atmosfera que reconheci, tinha de certa forma saudades da Catherine e do Heathcliff e da sua intensidade selvagem. Mas neste momento da vida, estou mais próxima da forma fragmentária do ensaio e da concentração da poesia do que da dilatação romanesca.

Mesmo assim, aventurei-me na Elsa Morante, com a Ilha de Arturo. É a história de Arturo, um jovem que cresce numa ilha física e emocionalmente isolada, preso a uma idealização do pai que lentamente se desmorona. O romance é, em grande medida, sobre a desmontagem de mitos: o mito do pai heroico e o mito da masculinidade soberana. A escrita é clássica, mas nunca pesada, muito bonita e luminosa. Vou querer ler mais dela.

Li Cânone de Câmara Escura, do Vila Matas, que adorei. É o tipo de leitura que mais tem puxado por mim. Fragmentos, reflexão, pequenas anedotas e histórias sobre escrita e leitura. Uma ética da digressão que me interessa muito.

Li também Agualisa da Anne Carson, e só tenho pena de ter esgotado os livros da Anne traduzidos para português. Lê-la é sempre uma peregrinação. Uma mistura de erudição clássica e vulnerabilidade contemporânea. Caminhar, traduzir. E a capacidade de transformar cirações em matéria viva.

Só fui uma vez ao cinema este mês, e foi ver o maravilhoso Valor Sentimental. Filme lindo e imperdível. Uma história familiar, sobre relações entre pai e filha, depressão, a casa. Há uma delicadeza enorme na encenação das fragilidades. E há uma compreensão muito justa de como o passado infiltra o presente. Não poderia ter vindo mais a propósito para mim, e não poderia recomendar mais. Já tinha adorado, do mesmo realizador o Worst Person in The World, mas este ainda superou.

A gargalhada do mês vai para um filme que vi com as minhas filhas, o Shrek 3. Já era grande fã do Shrek em criança, já me fazia rir muito, mas desta vez rimos as 3. Ri-me muito com uma cena em que o Shrek e a Fiona estão no quarto e aparece alguém e o Shrek muito indignado diz: “É bom que alguém esteja a morrer!” e a cena corta para o rei, o pai da Fiona, no seu leito de morte, a tossir e a dizer: “estou a morrer”. É tão parvo, mas tão engraçado. Deslocamento brusco, timing perfeito. Também adorei o Merlin em modo guru espiritual moderno, palestrante de auto ajuda.

Revi os filmes Gone Girl, do Fincher, e Habla Con Ella, do Almodóvar. Este último, a par do Tudo sobre a minha mãe é o meu filme preferido do Almodóvar. O melodrama, humor subtil, a violência emocional e uma crença profunda na força do afecto, mesmo quando o afecto é ambíguo e problemático.

Fui ao estádio com o meu pai, uma experiência sempre comovente para mim, por ter crescido com um pai fanático pelo Benfica. Foi um momento bonito de pai e filha, mas a experiência não foi boa, por tudo o que aconteceu nesse jogo, e que foi vergonhoso.

Também organizei uma tarde de jogos de tabuleiro em minha casa, com família, um programa que gostaria muito de fazer com regularidade. Sou fã de jogos de tabuleiro, de mímica, de cartas, e adoro aproveitar todas as oportunidades para jogar.

Como foi um mês mais parado, faço render o peixe e ponho aqui uma girafa que desenhei para um TPC da minha filha. Pus no instagram e posso dizer que nunca um trabalho ou texto meu fez tanto sucesso quanto esta girafa:

Acabei o mês a ver o Happy Days, do Beckett, no Teatro Meridional. A peça é magnífica, Beckett no seu melhor. Winnie, enterrada até à cintura (e depois até ao pescoço), insiste em chamar àquele dia “mais um dia feliz”. A peça é uma meditação brutal sobre repetição, a erosão e a resistência. A linguagem é o último reduto da autonomia.

A interpretação da Mónica Garnel é impressionante: sustentar aquele texto, naquela posição, com aquela intensidade, é um exercício de sobrevivência cénica. A experiência é muito impactante, muito perturbadora. Achei a encenação talvez ligeiramente longa, mesmo que o Beckett trabalhe com o tempo de desgaste, não teria perdido em ter menos tempo. Mas sem dúvida que vale a pena. Já saiu de cartaz, seria muito bom sinal que voltasse.

Saiu o meu texto na Revista “Nova Paródia” criada pelo Hugo Van Der Ding e Luís Leal Miranda, um texto humorístico sobre rãs, que já publiquei aqui:

Fiquei muito feliz por ter um retrato, uma ilustração minha feita pelo Hugo. Sou fã dele por isso senti que foi um marco. Acho que estou parecida:

Publiquei duas crónicas no Público, uma sobre as tempestades, “Não olhem para cima” que podem ler aqui:

https://www.publico.pt/2026/02/04/impar/cronica/nao-olhem-cima-2163601

E outra sobre a experiência de ser filha de um benfiquista fanático, que podem ler aqui:

https://www.publico.pt/2026/02/18/impar/cronica/genesis-benfiquista-2165151

Acabei o puzzle do Botticelli, o de 1000 peças, que tinha começado em Janeiro. Como foi um mês com pouca coisa exterior a acontecer, sinto-me orgulhosa por tê-lo acabado. Mais um dia feliz!

Apesar de tudo, foram dias felizes e de valor sentimental. Porque foram dias de escrita e de concentração total. A fechar puzzles.

Em Março já vou andar a laurear mais a pevide, estou muito desejosa pela Primavera! Obrigada por me acompanharem.

Contem-me vocês as vossas recomendações, sobretudo agora para o período em que vou sair da gruta e circular pelo mundo!

O Colapso: Édouard Louis, Elsinore

O Monte dos Vendavais: Emily Brontë, Presença

A Ilha de Arturo: Elsa Morante, Relógio D’Água

Cânone de Câmara Escura: Enrique Vila-Matas, Dom Quixote

Águalisa: Anne Carson, Não edições

Valor Sentimental, Joachim Trier

Gone Girl, David Fincher

Shrek 3, Chris Miller e Raman Hui

Hable con ella, Pedro Almodóvar

Happy Days, Samuel Beckett. Teatro Meridional, Encenação: Miguel Seabra

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