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2 dedos de groselha · May 19, 2025

Manipulado por Acústicos MTV

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Luciano Baêta · 2 dedos de groselha

Até a virada do milênio era raro ver por essas terras modelos acessíveis de violão folk. Nesses tempos, roqueiro nenhum imaginaria que o sertanejo à la Paula Fernandes é o que viria mudar essa realidade (acredito eu, sem tanto fundamento).

violão se deformando com slit scan
Rotoscopia no Procreate (com efeito slit scan)

Passei a adolescência e parte da juventude sonhando em ter um — muito MTV Unplugged na cachola —, mas me contentei, primeiramente, com o velho Giannini Tranquillo guardado (impecável) há décadas pelo meu pai.

Não durou. Destruí o instrumento por botar cordas de aço no lugar das de nylon, trincando todo o tampo — inconsequência juvenil que me levou, posteriormente, a terminar de enfiar o pé na jaca e arrancar os trastes também (lembranças que me doem até hoje).

Ainda nos tempos de colégio arrumei outro de nylon, pela pechincha — mesmo pra época — de 40 reais. Marca Tonante (eu sei… mas gostava dele). Agora já tinha aprendido que não era só trocar o tipo de cordas na marra, mas faltava aprender que, assim como empréstimo de livros, deixar um instrumento com outra pessoa pode virar ato de desapego (mesmo que involuntário): meu amigo mais black metal encontrou Jesus, sumiu do mapa e levou consigo o Tonantão...

Vá e não peques mais.

Os anos foram passando e segui alimentando a vontade de ter novamente um violão. Dessa vez sim, de aço; elétrico; com cutaway (aquele recorte no corpo pra facilitar alcance de notas agudas). Não ia solar nem tocar fora do meu quarto, mas encrenquei que tinha que ser desses.

Já havia definido um modelo pra garimpar, influenciado por uma festa nos primórdios da faculdade (dessas que a partir de um certo horário a turma sai do quintal, invade os cômodos e interage com a família da casa, fingindo sobriedade). Num dos cômodos surge o violão, que ia sendo passado de mão em mão sem dar onda alguma, evocando uns “tô sem tocar há um tempão / não lembro o resto / só arranho”. Apesar do atroz recital de fragmentos mascados, o instrumento era massa.

quatro figuras de violões ilustrados
Frames do gif

Um dia achei num anúncio.

Marcar encontro para pegar produto usado é sempre uma aventura: vai tá novinho? Vou levar facada no bucho? Por isso, vai bem jogar aquela conversa fora de antemão, pra sacar com quem estamos lidando e saber o histórico do item, além de já sugerir um lugar seguro pra encontro.

Saber que era de uma menina que estudava no prédio ao lado do meu trabalho (um campus de faculdade) —, justamente onde eu costumava combinar essas catiras, me deixou mais aliviado (não posso dizer o mesmo sobre ela).

A bióloga estava largando o violão de vez pra focar num mestrado. Falou que até havia passado a noite anterior brincando com ele, pra despedir.

O ruim de puxar papo sobre o motivo da venda é que muitas vezes dá vontade de falar: “vende não, ou! Uma hora você vai querer voltar a tocar e depois não vai achar um desse em conta assim”.

De fato, já fiz isso. Um velho amigo, companheiro de banda (vou dar o nome fictício de Rafael Guedes), belo dia me ofereceu um excelente baixo a preço de banana. Único instrumento dele, comprado numa temporada no exterior. Apesar de me ter dito que estava parado com a música, consegui, por fim, convencê-lo a desistir da venda: “esse dinheiro não vai te fazer falta e foi um objeto importante pra você”. Pouco tempo depois, não é que vejo o tal precision azul-violeta nas mãozinhas mágicas de um tal de Harry? (alcunha também fictícia — não confundir com outro colega de nome Igor Breda).

Como diria certa memesubcelebridade:

Nunca pensei que ia ser otário. Fui otário.

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Publiquei a animação e uma versão desse relato em de novembro de 2021 no Instagram. A animação foi feita no mesmo processo da da guitarra e violão de 12 cordas: rotoscopia no Procreate.

A diferença é que nesse loop testei uma distorção no After Effects, efeito slit scan.

Ainda durante a pandemia, evitando sair de casa (aproveitando pra economizar e me divertir brincando de luthier), registrei um reparo porco pra tirar trastejamento:

Read the original on lucianobaeta.substack.com

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