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Camera Lucida/Camera Obscura · Feb 17, 2026

055. A abstração da narrativa

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Lucas Baptista · Camera Lucida/Camera Obscura

O que me parece belo, o que eu gostaria de fazer, é um livro sobre nada, um livro sem amarra exterior, que se sustentasse pela força interna de seu estilo, como a terra, sem estar sustentada, se mantém no ar, um livro que quase não teria tema, ou pelo menos em que o tema fosse quase invisível, se é que pode haver.

— Gustave Flaubert

Seguem abaixo traduções minhas de dois artigos publicados na coletânea Cinema: A Critical Dictionary, editada em 1980 por Richard Roud – do primeiro volume, a entrada sobre Marcel Hanoun escrita por Noel Burch; do segundo, a entrada sobre Dimitri Kirsanov escrita por P. Adams Sitney.

Sitney e Burch escreveram em outras ocasiões sobre Kirsanov e Hanoun. Ambos dedicaram capítulos de livros aos filmes desses cineastas que consideraram suas obras-primas: Ménilmontant (1926) e Une simple histoire (1959) foram para eles casos exemplares do que valorizavam em diferentes análises, e que pode ser melhor resumido pela epígrafe de Flaubert. Em The Cinema of Poetry (2015), o argumento central de Sitney envolve a representação da subjetividade1, e em Práxis do cinema (1969), os argumentos de Burch giram em torno da coordenação serial dos vários elementos; são duas vias pelas quais Kirsanov e Hanoun integram uma mesma linhagem, voltada à “abstração da narrativa”. Nos dois casos, eles foram destacados como referências para um cânone em formação.

Os textos não ignoram que a carreira desses cineastas foi acidentada, e que a recepção crítica não esteve à altura de seus filmes. Tanto Sitney como Burch viram nessas obras momentos luminosos, sugestões de um potencial que o cinema pareceu vislumbrar mas que foi incapaz de sustentar.2 Não é casual que Kirsanov e Hanoun tenham se dedicado à reformulação da narrativa: a promessa valorizada aqui é a de uma expansão das possibilidades daquele formato que se tornou o padrão industrial. Para realizar esse movimento, ambos teriam dispersado justamente o nível comunicativo, “conteudístico” das narrativas, a própria garantia de acesso comercial. O problema remete a uma das abordagens citadas no texto “As duas vanguardas”, de Peter Wollen, em que as reações à cristalização da indústria revelam uma bifurcação. Se um lado foi caracterizado por uma recusa das condições industriais, o outro se definiu por uma aceitação dessas mesmas condições, ainda que para jogar contra elas, para explorar os conflitos internos do próprio sistema. Kirsanov e Hanoun seriam dois pontos altos do segundo grupo, ainda que sem o radicalismo político que Wollen toma como base.

No geral, eu diria que os textos de Sitney e Burch tocam em uma questão mais ampla do que Wollen, menos circunscrita historicamente. Nesse sentido, outros nomes podem ser adicionados ao conjunto. Robert Bresson3 e Alain Resnais são citados pelos dois autores; Jean Epstein, Jean-Luc Godard e Alain Robbe-Grillet integram a lista de Burch, e Germaine Dulac a de Sitney. Seguindo os princípios declarados nesses textos, eu incluiria também o Dreyer de La passion de Jeanne d’Arc (1928), a Varda de La pointe courte (1955), o Marker de La jetée (1962). Marguerite Duras, Chantal Akerman e Anne-Marie Miéville me parecem ter ainda um lugar nesse grupo.4 Vale notar que parte dessas obras têm mulheres como protagonistas, e que algumas delas envolvem, senão uma virada trágica, ao menos uma consciência da realidade cotidiana como obstáculo, como limite da mobilidade física e catalizadora da liberdade interior. Há um formalismo lírico e talvez “bovarista” sugerido nessa constelação de filmes, e que me parece definido pelos ideais de Sitney e Burch: respectivamente, a expressão do estado interior das personagens, e a coordenação rigorosa de todos os elementos disponíveis à narrativa.

Read the original on lucbapt.substack.com

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